Terceira longa-metragem da argentina Milagros Mumenthaler, e a primeira com honras de estreia nas nossas salas (depois da passagem pela secção competitiva do LEFFEST), «As Correntes» poderia ser o «Vertigo» dos nossos dias. Vejamos, o que leva uma mulher bem-sucedida e, para além disso, bem vestida, a atirar-se às águas de um rio tal e qual Madeleine/Kim Novak naquele outro filme de Hitchcock? É esta interrogação, eminentemente literária, que atravessa todo um filme de argumento original, construído sobre o tipo de mistério que os livros tendem a adensar de uma forma, por vezes, inalcançável para o cinema. Digamos que nem sempre as imagens conseguem medir a pulsação interior de uma mulher. E porém, «Las corrientes» é um exemplo feliz.
A mulher que responde ao impulso de se atirar ao rio, Lina, é uma estilista argentina, de 34 anos, que vai a Genebra receber um prémio. De volta a casa, em Buenos Aires, depois da bizarra ocorrência, esta mãe de família – com uma filha de cinco anos e um marido afável – continua, aos nossos olhos, a manter uma nuvem sobre a sua aparente vida “perfeita”. É como se o corpo dela, tomado por uma estranheza, habitasse o mesmo quotidiano com uma qualidade sensorial diferente: repare-se como Mumenthaler sugere essa alteração com um ou outro efeito sonoro, um ou outro plano estático, mas nunca caindo na tentação de descodificar o enigma de Lina pelos métodos do cinema de género, ou rotulando o seu comportamento de “depressivo”.

No Festival de San Sebastián, onde o filme foi apresentado, a realizadora fez questão de dizer que demorou oito anos a escrever o argumento. Oito. Uma revelação espantosa, não por dar conta de um trabalho que se condensou ao longo do tempo, mas por evidenciar uma capacidade rara de inverter o movimento da escrita: é como se Mumenthaler tivesse subtraído elementos para chegar ao melhor frasco de perfume, que nos dá a fragrância de Lina, mas oculta a fórmula.
E aqui é preciso sublinhar o discreto encanto da atriz protagonista, Isabel Aimé González-Sola, que se entrega às correntes interiores da personagem sem se desmanchar em sinais explicativos, antes permanecendo numa espécie de acordo tácito com a câmara de Milagros Mumenthaler… Assim como o detetive reformado de James Stewart não consegue tirar os olhos de uma Kim Novak possuída por um fantasma no referido filme de Hitchcock de 1958, também nós investigamos a linguagem corporal de Lina/Isabel Aimé González-Sola como se acercássemos a vertigem inexprimível de uma mulher.
TÍTULO ORIGINAL: Las corrientes
TÍTULO INTERNACIONAL: The Currents
REALIZAÇÃO: Milagros Mumenthaler
ELENCO: Isabel Aimé González-Sola, Esteban Bigliardi, Ernestina Gatti
ORIGEM: Argentina, Suíça
DURAÇÃO: 104 min.
ANO: 2025



