«Mektoub, My Love: Canto Segundo», de Abdellatif Kechiche, é um daqueles filmes que se veem, que se sentem e que se suportam, como um jantar que começa em couscous e acaba em crise existencial, com direito a digestivo emocional e ressaca moral no dia seguinte. Kechiche regressa de onde nunca saiu, mas com a subtileza de um elefante numa pista de dança pegajosa dos anos 90. Depois do escândalo, das guerras de bastidores, da Palma de Ouro de «La Vie d’Adèle» a ficar meio manchada na memória colectiva e na sua carreira, de «Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro», inspirado no romance “La Blessure, la Vraie”, de François Bégaudeau, e já considerado uma obra-prima pela crítica, seguiu-se um «Mektoub, Meu Amor: Intermezzo» que basicamente implodiu em praça pública como filme-choque. «Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo» chega com ar de reconciliação… mas não se enganem: isto continua a ser cinema à flor da pele, à beira do excesso e com uma fixação quase antropológica pelo desejo humano — esse animal descontrolado que Kechiche filma como poucos e edita como se estivesse em guerra com o tempo.
A premissa é ridiculamente simples, pois volta ao grupo de jovens do costume em Sète, no Mar Mediterrâneo, com calor, hormonas, olhares, conversas intermináveis e decisões emocionalmente duvidosas. Mas Kechiche nunca quis só histórias, quer estados de espírito. E aqui temos um verdadeiro laboratório de emoções: amores cruzados, ciúmes que fervem em lume brando e personagens que vivem como se cada verão fosse o último antes da ressaca da vida adulta.

A novidade? Um casal americano que aterra neste microcosmos mediterrânico como dois extraterrestres com dinheiro e ego. Ele, um tipo de meia-idade, produtor convencido de que pode comprar juventude; ela, a mulher, uma jovem actriz em modo pós-glamour, simultaneamente ridícula e comovente. E é aqui que o filme ganha um lado deliciosamente cruel: Kechiche olha para os poderosos com a mesma curiosidade com que filma os jovens, e ninguém escapa, ninguém fica bonito na fotografia.
E depois há o estilo. Ah, o estilo… ou a falta dele, dependendo da paciência do espectador. Planos longos, diálogos que se arrastam como noites de verão sem fim, corpos filmados com uma insistência que já lhe valeu acusações de tudo e mais alguma coisa. Mas também há algo hipnótico nisto tudo, uma espécie de realismo febril que nos prende, mesmo quando queremos fugir. É como estar numa festa onde já não queremos estar… mas também não conseguimos ir embora.
“Mektoub” — que significa “estava escrito” — funciona aqui novamente como ironia suprema. Nada parece escrito. Tudo parece improvisado, instintivo, caótico. E talvez seja essa a maior provocação de Kechiche: lembrar-nos que o desejo não tem argumento, não tem montagem elegante e raramente tem bom gosto. É sempre a abrir…
O resultado? Um filme irregular, excessivo, por vezes profundamente irritante… mas também estranhamente vivo. Como a juventude que retrata: inconsequente, egoísta, magnética e, acima de tudo, impossível de ignorar. No fim, saímos como quem acorda depois de uma noite longa demais: um pouco perdidos, ligeiramente envergonhados… com a sensação incómoda de que, afinal, talvez tenhamos gostado mais do que devíamos ou, pelo menos, de que nos mexeu mais do que estávamos à espera.
Título Original: “Mektoub, My Love: Canto Segundo”
Realização: Abdellatif Kechiche
Com: Shaïn Boumedine, Ophélie Bau, Jessica Pennington, Salim Kechiouche
Origem: França
Duração: 134 min.
Ano: 2025
Género: Drama




