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Crianças À Procura de Mãe

Dos filmes incluídos no quadro de estreias do mini-ciclo SHIMIZU TARDIO, dedicado ao realizador japonês Hiroshi Shimizu, «Haha O Motomeru Kora» («Crianças À Procura de Mãe»), 1956, apresenta-se como o mais conservador, não querendo isso significar nada de negativo. Na minha opinião, pelo contrário, a sensibilidade do assunto abordado exigia um compromisso de racional serenidade para melhor retratar a realidade concreta e verdadeira de um flagelo social, o abandono de crianças ao cuidado de instituições. E esta atitude de ponderação foi assumida por parte de quem dirigia uma ficção ancorada no quotidiano de um Japão onde não apenas os mais novos e desfavorecidos, mas igualmente o cidadão comum, persistiam marcados pelo rescaldo dos anos de brasa da Segunda Guerra Mundial e dos caminhos nem sempre serenos do pós-guerra e da paz consentida pela ocupação americana.  

Logo a abrir, podemos ver um magnífico plano em movimento que percorre uma estrada rural onde ao fundo se descobre o recorte de uma cordilheira de montanhas. Neste caminho destaca-se a silhueta de uma mulher vestida de negro. Desde cedo que sabemos ao que ela vem e qual o motivo da sua viagem. Lenta mas decidida, caminha, caminha até chegar a um orfanato. Se o filme se refere a crianças que procuram encontrar os seus progenitores, pais e mães ausentes por diversas razões, será no entanto a personagem da mãe, Aki Yamamoto (interpretada de forma magistral pela actriz Aiko Mimasu) que, em busca do filho desaparecido no ano de 1951, irá lançar os dados para uma história de abnegação e dedicação a favor de uma causa nobre: a da salvaguarda de quem perdido se encontrava antes de ser abrigado e integrado no seio de uma “família alargada”, constituída pelo pequeno círculo de cuidadoras e por um singelo grupo de crianças que, como numa série de outros filmes do realizador, não são mero pano de fundo para interpelar ou sustentar as eventuais alegrias, contradições ou conflitos gerados pelos adultos. De facto, Aki Yamamoto, mais uma vez frustrada a sua demanda, decide ficar no local onde depositara a esperança de reencontrar o filho. E isso deve-se em grande medida ao facto de perceber que em cada rosto infantil existe uma fé bem adulta de um dia poderem voltar ao seio paterno e materno. Por outro lado, naquele espaço de acolhimento e rodeada por pessoas por quem nutre respeito e admiração, a mãe que há muito punha em causa o destino sente que uma parte da sua vida passa a fazer muito mais sentido. Há no orfanato de Nagoia, para acentuar esta sua convicção, um miúdo particularmente activo que descobriu o paradeiro da mãe. Mas esta casou-se de novo e com um homem aparentemente pouco sociável. Por essa razão o rapazinho não ousa chegar junto dela. Deste modo, mantém-se em silêncio até que o “segredo” se quebra. Será então a cada vez mais disponível Aki Yamamoto a oferecer os seus préstimos com o objectivo de estabelecer o contacto decisivo entre mãe e filho, revelando-se o reencontro posterior uma delícia de mise-en-scène. Será o primeiro happy-ending, mas ainda só estávamos no início. Tratou-se aqui apenas de concluir um capítulo para logo a seguir abrir outro e outros antes da resolução final. Esta corresponde ao peso emocional da notícia que um dia a protagonista irá receber sobre o paradeiro do filho. Se dúvidas houvesse, ficariam dissipadas quanto ao modo como Hiroshi Shimizu alimenta e encena a gestão dos valores perenes do melodrama. Numa derradeira sequência que remete para a inicial, a dor e o negro darão lugar a alegria e luz, sublinhando-se de novo a presença da mulher/mãe num quadro de múltiplas emoções que prenunciam o futuro daquela que deu provas de superar as agruras da existência confrontando cara a cara as forças que a impediam de alcançar a sua missão. Tudo na mesma sequência em que o ciclo vital parece fechar-se sobre as personagens aparentemente mais frágeis, mas onde por fim se enaltece os que souberam sempre valorizar a importância das relações familiares e defenderam a manifestação livre e sincera do amor de uma mãe por crianças que dele e dela precisavam. 

É interessante constatar que Hiroshi Shimizu sabia do que estava a falar, porque foi ele próprio um homem preocupado com a condição das crianças desprotegidas e, durante anos, apoiou e recolheu muitos órfãos de guerra.

Título original: Haha o motomeru kora
Realização: Hiroshi Shimizu
Elenco: Nao Abe, Keiji Aoyama, Hiromitsu Hattori
Duração: 88 min.
Japão, 1956

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João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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