Há algo de profundamente melancólico e elegíaco na música de Max Richter que combina na perfeição com as imagens da mais recente e apaixonante obra de Chloé Zhao, «Hamnet». O filme encontra-se nomeado para oito óscares da Academia e Richter obtém aqui a sua primeira nomeação. Foi também justamente por «Hamnet» que o compositor anglo-alemão recentemente arrecadou a sua primeira indicação para um Globo de Ouro e para um BAFTA. Richter, que foi pupilo de Luciano Berio (figura incontornável da vanguarda musical do século XX), ganhou destaque dentro do panorama da música clássica contemporânea e das bandas-sonoras desde o início deste século através de um estilo de música assente no estilo pós-minimalista.
A paleta musical definida por Richter para «Hamnet» baseia-se na sonoridade de instrumentos de corda friccionada do período renascentista como a viola da gamba, a nickelharpa e a sanfona. Para sermos sinceros, «Hamnet» não é um filme que necessite de muita música e uma abordagem orquestral tradicional poderia mesmo ser-lhe prejudicial. Of Agnes, Look at Me e Of the Sky definem a essência da personagem de Agnes (Jessie Buckley) através do uso de linhas melódicas vocais femininas sem recurso à palavra. Em Of Orpheus, segunda faixa do disco, Richter propõe, através da harpa, uma melodia de natureza simplista usada como leitmotiv simbolizador do amor entre Will (Paul Mescal) e Agnes, tema reproduzido também em Of Remembrance mas ao piano. Há também música de carácter sombrio que desponta durante o período de agonia de Hamnet (Jacopi Jupe), amplificando a dor e a angústia da família através de texturas abstratas e sussurros electrónicos (An Abysm of Time, Of the Heart e Of a Ghost ).
E chegamos, enfim, a On the Nature of Daylight, única peça pré-existente da banda sonora assinada pelo próprio Richter mas no longínquo ano de 2004. Incluída no seu segundo álbum de estúdio, “The Blue Notebooks”, veio a ganhar enorme popularidade depois de incorporada em filmes como «Shutter Island» (2010) ou «O Primeiro Encontro» [Arrival] (2016). A derradeira e pivotal cena do filme – um inefável momento de cinema, diga-se – é sublinhada por este tema, o mais renomado de Richter, e é através dele que o espetador experimenta a catarse. Sobre os créditos escutamos ainda My Robin to the Greenwood Did Go, versão de uma cantiga tradicional da época pela voz pura de Olivia Lynes(a pequena Judith, no filme) e Of the Undiscovered Country (título extraído do mais célebre solilóquio de “Hamlet”) que reacende as comoções provocadas pela belíssima sequência final. O álbum teve direito a edição em formato de CD, vinil e digital pela Decca Records.




