A história dos mercados cinematográficos europeus tem, há muitas décadas, os EUA como um dos principais protagonistas. De uma maneira ou de outra, os modelos dominantes de distribuição e exibição de filmes no velho continente estão marcados pelas opções de marketing concebidas pelos grandes estúdios americanos.
A situação tem alguns efeitos perversos (incluindo, por vezes, o afogamento das próprias produções de cada país europeu), podendo até gerar reticências mais ou menos moralistas (com resultados pouco interessantes e, sobretudo, inoperantes face ao estado das coisas). Procuremos, por isso, manter o espírito aberto e apelar a algum pragmatismo.
Eis alguns dados a ter em conta. Nas vésperas dos Óscares, no dia 11 de março, a Variety publicou um estudo elaborado pelo Pew Researche Center que funciona como um grito de alarme susceptível de ecoar para lá das fronteiras culturais, industriais e económicas. Assim, ficámos a saber que em 2025 apenas metade dos cidadãos americanos assistiram nas salas de cinema a, pelo menos, um filme.
São sinais da desagregação das bases tradicionais de público (ou do público tradicional), motivada por factores que vão da proliferação de plataformas de streaming até aos efeitos persistentes da epidemia de covid. Até porque deparamos com um dado mais discreto mas, a meu ver, verdadeiramente inquietante. A saber: 7% das pessoas inquiridas nunca (repito: nunca) viram um filme numa sala de cinema.
Se arriscarmos extrapolar para o nível nacional, diremos que perto de dois milhões e meio de americanos desconhecem os rituais (e as formas de prazer) do consumo de filmes nos espaços clássicos das salas escuras. Mas este não é um mero problema de números. O cerne do problema está na qualidade da relação de cada indivíduo com o cinema. No limite, é a dimensão social do próprio cinema que está em jogo.
Não sejamos ingénuos. Não há modos “globais” nem “decretos” que corrijam de um dia para o outro o drama mais básico: desconhecer a experiência da sala de cinema equivale a procurar ouvir música sem saber que algo mudou no final do século XIX com os primeiros discos para serem escutados em fonógrafos…
As chamadas “janelas” de exibição — que obrigam os filmes a permanecer um certo número de semanas (aliás, fins de semana) nas salas, antes de chegarem às plataformas — são um dado a ter em conta na vasta conjuntura de problemas que tudo isto envolve. Curiosamente, um dia depois da publicação do artigo da Variety, a Universal Pictures anunciou que vai alargar as “janelas” dos seus filmes: para cinco fins de semana em 2026 e sete em 2027. Não será uma solução mágica para o que quer que seja, mas é uma medida a ter em conta — para já, podemos agradecer a Christopher Nolan o empenho com que tem chamado a atenção para a urgência de medidas deste género.




