A vida de David Bowie no cinema vai para além de canções como “Absolute Beginers” ou “This is Not America”. Numa considerável obra como ator trabalhou, entre outros, com realizadores como Martin Scorsese, David Lynch, Christopher Nolan, Nagisa Oshima, Jim Henson e Tony Scott, entre outros.
Nuno Galopim [texto publicado na revista Metropolis nº35 – Janeiro 2016]
Quando David Bowie chegou ao cinema não o fez como músico. Mas foi pelo trabalho como músico que tinha cativado atenções. Do seu interesse pelas artes performativas (e pelo trabalho dos mimos e de grupos de teatro experimentais em particular) emergira um gosto em trabalhar a criação de personagens, que começou por moldar a canções e às suas narrativas e que acabou a vestir como se de alter-egos se tratassem. De Ziggy Stardust e Aladdin Sane a Halloween Jack, algumas das figuras que definira para ligar às canções que ia apresentando nos sucessivos discos editados na primeira metade dos anos 70 surgiu um trabalho progressivamente mais elaborado de construção de figuras (as canções sendo de resto uma expressão natural dessas mesmas personagens e das cenografias que habitavam). Das encenações de morte de Ziggy às visões assombradas da cidade distópica onde habitava Halloween Jack ao desafio para dar corpo a uma personagem de ficção no cinema foi um passo. E chegou em 1976, com O Homem que Veio do Espaço, de Nicholas Roeg, filme que conta a história na Terra de um alienígena provindo de um mundo moribundo. Na verdade a figura que Bowie interpreta – a do protagonista da história – está nesse filme mais perto das assombrações que então atormentavam o próprio músico do que propriamente nascidas de uma construção de ficção. Realidade e fantasia quase se cruzavam ali. Em pouco tempo daria contudo sinais claros de um domínio nas artes da interpretação, criando para filmes de Nagisa Oshima e Tony Scott personagens quase tão icónicas como as que a música o fez vestir nos anos 70.

Em finais dos anos 70 a etapa berlinense que ali viveu fizeram-no experimentar por esses tempos vivências da cidade ora num drama de época em Just a Gigolo (1978), de David Hemmings, ora a interpretar-se a si mesmo numa adaptação ao cinema de “Christiane F” (1981), de Uli Edel, filme que usava a sua música como banda sonora. Ao mesmo tempo a cada vez mais regular e intensa exploração do teledisco como ferramenta promocional, leva-o a criar novas figuras com uma dimensão mais elaborada que as ideias essencialmente visuais que tinha apresentado ao som de “Life on Mars?” ou “Heroes”. Em “Boys Keep Swinging”, de David Mallett, multiplica-se em três figuras femininas, lembrando que os jogos de ambiguidades que em tempos o haviam levado a Ziggy Stardust não eram ideia arrumada e resolvida no passado. Pouco depois, em 1980, em “Ashes to Ashes” volta a dividir-se entre duas figuras, uma delas o pierrot vestido de prateado que caminha numa praia de contornos alienígenas que se afirma como uma das primeiras imagens icónicas de entre a multidão de figuras e rostos que criou na era da MTV.

É em 1983, o ano em que o álbum “Let’s Dance” o transforma numa estrela pop de dimensão mainstream global, que David Bowie encarna as suas mais marcantes personagens no grande ecrã. Em “Feliz Natal Mr. Lawrence”, de Oshima, onde contracena com Ryuichi Sakamoto, interpreta um oficial inglês detido num campo de concentração, revelando essa figura todo um conjunto de forças interiores, da pulsão da revolta e da justiça a um quadro de ambiguidades sexuais, que fazem talvez deste o seu mais marcante papel de sempre no cinema. No mesmo ano em “Fome de Viver”, de Tony Scott, vemo-lo a encarnar um vampiro de existência milenar e melómano, partilhando desta vez o elenco com Catherine Deneuve e Susan Sarandon.
Apesar do enorme sucesso que obtém nos anos 80 como músico, David Bowie grava menos discos do que nos anos 70, partilhando o seu tempo com outros papéis para o cinema e até mesmo a gravação de música para filmes. Cria, entre outras, “This is Not America” para “The Falcon and the Snowman” de John Schlesinger (uma parceria com Pat Metheny), a canção do genérico da animação sobre o terror nuclear “When The Wind Blows”, de Jimmy Murakami, e grava ainda em 1986 temas para “Absolute Beginers” de Julien Temple e “Labirinto”, de Jim Henson, filmes nos quais surge também no ecrã.

O final dos anos 80 e toda a década de 90 são de maior atividade na música (a solo e com os Tin Machine de 1989 a 1992), com novo fulgor criativo reencontrado a partir de 1993. Há no entanto espaço para alguns papéis secundários no cinema. Bowie é então Pilatos em “A Última Tentação de Cristo” (1988) de Martin Scorsese, é Philip Jeffries em “Twin Peaks: Fire Walk With Me” (1992) de David Lynch e, entre outros mais, Andy Warhol em “Basquiat” (1996) de Julian Schnabel, tendo o seu último grande papel como Nicola Tesla em “O Terceiro Passo” (2006) de Christopher Nolan. Nesta etapa há que assinalar também uma série de presenças na televisão, em séries como “The Hunger” ou “Extras”.
São menos evidentes as suas contribuições musicais para o cinema e ficção televisiva depois de 1990, destacando-se mesmo assim “Reel Cool World” (1992), “I’m Derranged” para “Estrada Perdida” de David Lynch e, sobretudo, a banda sonora da adaptação de “The Buddha of Suburbia” em 1993. Não deixa contudo de haver quem leve as suas canções, das mais diversas etapas, aos seus filmes. “Modern Love”, por exemplo, é fulcral numa das sequências de “Frances Ha” (2013) de Noel Baubach… Assim como “Heroes” marca presença numa sequência marcantes em “As Vantagens de Ser Invisível” (2012) de Stephen Chbosky.

A história não se completa sem uma referência a novas personagens que surgem nos telediscos. Seja o transeunte que foge do táxi guiado por Trent Reznor em “I’m Afraid of Americans” (1997), o homem que vê no espelho uma imagem de si mesmo, mas em mais jovem em “Thursday’s Child” (1999) ou o arrebatador pregador de rosto vendado e botões sobre os olhos nos telediscos de “Blackstar” (2015) e “Lazarus” (2016), ambos de Johan Renck, o testamento visual do homem das muitas máscaras que conhecemos como David Bowie.




