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O Que Encontraram

Quando recebi a notícia de que o cineasta Sam Mendes realizara um documentário sobre a libertação do campo de concentração nazi de Bergen-Belsen, confesso que um sentimento muito pessoal despertou em mim. E porquê? No ano de 1996 concluí um filme cuja pesquisa me ocupou vários anos, durante os quais desenterrei nos mais diversos arquivos privados e públicos um bom número de documentos escritos, assim como imagens e alguns sons correspondentes a um desastre que nos disse e continua a dizer respeito, a guerra colonial em Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, com algumas variantes em São Tomé e Príncipe, cujo impacto se fez notar no país que então éramos e, sobretudo, nos caminhos da militância e da resistência antifascista em Portugal. Intitulei-o, usando com corrosiva intenção uma palavra muito querida ao regime salazarista, «Ultramar – Angola 1961-1963». Na verdade, a designação “províncias ultramarinas” defendida pelo derradeiro ditador, Marcello Caetano, alterou intencionalmente o ideário subjacente ao conceito anterior de províncias ultramarinas, forma habilidosa e manipuladora de nos fazer crer que Portugal era uma só nação, ou seja, a lengalenga propagandística do imenso Portugal do Minho a Timor. Nunca percebi se alguém se esqueceu de incluir os Açores ou a Madeira nesta equação geográfica, ou se houve alguma intenção obscura por detrás dessa omissão. Mas porque vos digo isto? Na verdade, durante a referida pesquisa uma das ideias que coloquei em cima da mesa foi a de, paralelamente a esse documentário, produzir um outro que incidisse a atenção nos homens e mulheres, militares e civis, que muitas vezes com o risco da própria vida registaram em filme, fotografias ou reportagens jornalísticas o que viveram nos diferentes palcos da guerra. Era pois minha intenção (na verdade, ainda não abandonei este projecto) recolher os seus depoimentos, antes que a lei da vida os levasse deste mundo e construir através de um processo criativo de montagem uma visão desencantada sobre o que eles experimentaram. Tratava-se de valorizar o discurso directo por mais medonhos que fossem os factos revelados ou recordados aqui e agora aos nossos olhos. Porque, como ouvi da boca de muitos com quem agendei encontros e entrevistas, qualquer conflito bélico não passa de uma imensa selvajaria. E o pior que pode acontecer será fingir que o mal passou, não se pensa mais nisso, em nome de um olhar em frente que no fundo ignora o sofrimento dos que, obrigados ou não, foram arrastados para esses devastadores confrontos armados.

Dito isto, muito satisfeito fiquei quando após o visionamento do documentário «What They Found» («O Que Encontraram»), 2025, dei conta de que Sam Mendes partiu de um pressuposto similar e avançou com meios que na altura não me foram dados para uma abordagem, simultaneamente pessoal e universal, sobre o que leva um país, um conjunto de pessoas, assim como um determinado contexto político, social, ideológico e económico, a gerar o horror dos horrores. E não se pense que o filme diz respeito apenas ao domínio da preservação da memória relativa ao esforço militar do Reino Unido na fase final da Segunda Guerra Mundial. Infelizmente, as guerras que persistem e se multiplicam provam que nunca será demais abordar as suas raízes, as suas causas mais profundas e as suas consequências mais perenes. Para os devidos efeitos, Sam Mendes utilizou no seu «What They Found» materiais que se encontram hoje salvaguardados pelo Imperial War Museum de Londres, e em particular os materiais cinematográficos recolhidos in loco pela British Army Film and Photographic Unit no Norte da Alemanha e no mês de Abril de 1945. Mais precisamente por dois sargentos enviados numa missão especial, Mike Lewis e Bill Lawrie, que deveriam registar os últimos dias da derrocada nazi e consequente libertação do campo de concentração de Bergen-Belsen onde, entre judeus e não judeus, foram encarcerados milhões de seres humanos, reduzidos a farrapos pela fome e pela escravatura, naquilo que constituiu uma mistura entre a mais brutal das repressões sobre quem se opunha ao regime nazi e aos fascismos que o apoiavam e o puro e simples extermínio social e racial que, após a adopção da chamada solução final, incidiu sobre judeus de diferentes nacionalidades.

Em apenas 38 minutos, a realização optou por introduzir os protagonistas dessa operação militar Aliada no contexto nacional do país que os viu nascer, e desde as primeiras sequências os depoimentos recolhidos em 1980 indicam uma aproximação ao que se passou em meados dos anos quarenta do Século XX, não evaporando da memória as contradições de uma Grã-Bretanha que, mesmo antes da guerra eclodir, vira movimentos de extrema-direita manifestar-se sem qualquer vergonha, confrontando directamente os pressupostos fundadores da democracia britânica, pelo menos no papel. As declarações dos dois sargentos, cuja articulação e selecção de uma maneira ou de outra correspondem ao ponto de vista do realizador, não deixam margem para dúvidas. Quer nas entrelinhas, quer de forma muito explícita, acusam na sua latente sinceridade o silêncio que se abateu sobre certas práticas políticas e militares, chegando a questionar o porquê de muitos conflitos persistirem por esse mundo fora sob um manto de cumplicidade voluntária ou involuntária que não denuncia com a devida coragem e firmeza o que sucede e sucedeu de mal ou o que de absolutamente inqualificável se pode ver, ouvir e ler nos meios de comunicação. Neste domínio, não raras vezes ao longo do visionamento somos levados a estabelecer associações com a forma como em alguns dos grandes círculos de decisão se continua a fazer vista grossa relativamente a atrocidades que persistem, não só em Gaza e na Ucrânia, mas também nos conflitos menos mediáticos, mas não menos destrutivos, como o do Sudão, entre outros que podíamos citar.

Mas «O Que Encontraram» faz sobretudo justiça ao que se perfila como uma reflexão íntima e assombrada pela morte, pela destruição do corpo e alma das vítimas do nazi-fascismo e pela mais completa desumanidade com que os dois operadores se confrontaram ao darem de caras com os restos do inferno na Terra, nomeadamente as inomináveis atrocidades cometidas contra os prisioneiros, os mortos e os autênticos mortos-vivos sobreviventes de Bergen-Belsen. E o documentário, que se inscreve num quadro que outras obras já exploraram anteriormente (recordo, e para ficar apenas no campo das curtas, «Nuit et Brouillard» («Noite e Nevoeiro»), 1956, de Alain Resnais), não minimiza a crua realidade dos factos com efeitos de montagem habitualmente usados para atenuar a violência do que as imagens preservam. Antes pelo contrário, é sempre apoiado pela selecção criteriosa de excertos dos depoimentos de Mike Lewis e Bill Lawrie, omnipresentes na banda sonora e perante o silêncio do material filmado, que nos interpela, já que não foi gravado na origem qualquer som. Veremos aquilo que eles viram, encontraremos aquilo que eles encontraram e seguramente muitos de nós partilharão os sentimentos que eles e os produtores quiseram partilhar, perante a dantesca visão do apocalipse. Trata-se de certo modo de um manifesto a favor de uma outra perspectiva que tenta preservar a verdade e alertar para o que pode suceder quando nos demitimos da defesa, da dignidade e da integridade da alma face ao corpo colectivo dos povos. Trata-se de um apelo lúcido e sem filtros para nos fazer seguir um rumo muito diferente, para que algo de semelhante nunca volte a acontecer. Trata-se de uma curta documental, sim, mas os seus breves minutos valem na prática por aquilo que pode e deve servir como uma sólida e justa base existencial, uma plataforma de análise capaz de influenciar e perdurar para o resto das nossas vidas.

No final de «What They Found» vemos os lança-chamas queimar o que restava do infame campo de concentração. Mas esse fogo purificador não consegue apagar por si só os ecos sombrios da barbárie a que assistimos, os corpos lançados para as valas comuns, a lenta e penosa reanimação dos vivos, e ainda a difícil recuperação de quem viveu de perto o horror.

Sem dúvida, uma obra que vale as cinco estrelas com que muitos, e eu próprio, a valorizamos.

Título original: What They Found  Documentário Duração: 36 min. Reino Unido, 2025

João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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