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Céus e Infernos

Spike Lee não sabe estar quieto. E ainda bem. Em «Highest 2 Lowest», o realizador volta a pegar fogo ao cinema com uma daquelas manobras que só ele se arrisca a fazer. Ele tenta reinventar Kurosawa com Denzel Washington em modo lenda e transformar um clássico moralista japonês num thriller urbano, pulsante e carregado de crítica social, música e suor nova-iorquino. Mesmo estreado fora de competição num Festival de Cannes 2025 cheio de surpresas, o filme confirmou que Lee continua a acreditar no cinema como arma política, mas sem nunca perder o prazer do espetáculo.

A base é «High and Low» («Céu e Inferno», 1963), do realizador japonês Akira Kurosawa, mas o filme está cravado na Nova Iorque de hoje, com arranha-céus de luxo a morderem as franjas do Bronx. Denzel é David King, um produtor musical que vive entre o eco dourado do passado e o barulho insuportável de um presente em que tudo é negociação. Quando um jovem próximo da família é raptado, o dilema surge: pagar o resgate e ceder ao jogo sujo, ou manter a integridade e arriscar-se a perder tudo?

É o velho dilema moral, sim. Mas Spike Lee não filma moralidades de livro, filma as contradições à flor da pele. E, para isso, convoca um elenco que mistura gravidade e frescura: Jeffrey Wright, sempre sólido, como o amigo de confiança; Ilfenesh Hadera e Dean Winters a dar textura; John Douglas Thompson a puxar autoridade; e as estreias surpreendentes de A$AP Rocky e Ice Spice, que trazem a crueza da rua para dentro do ecrã. No meio, James Brown a rugir com o tema “The Big Payback” como quem chama à luta.

Denzel está em estado de graça. Contido, devastador, como se carregasse nos ombros todo o peso de uma cidade em ebulição. É a mesma intensidade de «Malcolm X» ou «Fences» («Vedações»), só que agora temperada pela fadiga de quem sabe que já viu este filme sobre desigualdades vezes a mais, dentro e fora do ecrã.

A fotografia de Matthew Libatique («Cisne Negro») filma Nova Iorque como um campo de batalha de luzes e sombras. A música de Howard Drossin embala e esmaga, conduzindo o protagonista pela descida ao inferno, não o de Dante, mas o das dívidas, da fama podre e das tentações do poder.

No fim, o que distingue «Highest 2 Lowest» não é ser fiel a Kurosawa. É como Lee o reescreve à sua maneira: negra, urbana, americana, carregada de memória e música. Spike Lee não faz remakes, faz remisturas históricas. E esta soa a um clássico instantâneo.

Título original: Highest 2 Lowest Realização: Spike Lee Elenco: Denzel Washington, Jeffrey Wright, Ilfenesh Hadera, A$AP Rocky, Wendell Pierce Duração: 123 min. EUA/Japão, 2025

José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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