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Tubarão – 50 Anos

50 anos após a sua estreia original, “Tubarão/Jaws” permanece o filme de viragem da indústria do cinema americano, tendo abrindo o caminho para todos os grandes blockbusters que desde então têm feito da época de verão o terreno ideal para o triunfo nas bilheteiras.

O paradigma do cinema americano teve uma mudança fulcral em 1975, quando o então jovem realizador Steven Spielberg assinou a sua segunda longa-metragem para o cinema, uma adaptação do thriller marinho Jaws, da autoria do então estreante Peter Benchley. Na génese do romance está um acontecimento verídico, ocorrido em 1916, quando a costa da Nova Jérsia foi assolada por uma série de ataques de tubarão que vitimaram quatro pessoas. Fundamentando-se neste evento verídico que combinou com acontecimentos da vida extraordinária de um famoso caçador de tubarões, Benchley assinou um verdadeiro potboiler, um thriller que se devora num ápice e onde as emoções, surpresas e calafrios são uma constante. Naturalmente o romance rapidamente conquistou os lugares cimeiros das listas de “best-sellers”, porém os seus direitos de adaptação ao cinema já tinham sido adquiridos pelos produtores Richard D. Zanuck e David Brown ainda antes da sua publicação. Restava encontrar um realizador capaz de transferir para o grande écran toda a emoção, frenesim e atmosfera de angústia do romance. Ao escolherem Spielberg, que á altura apenas tinha dirigido produções televisivas, entre as quais o sublime «Um Assassino pelas Costas», e a produção cinematográfica «The Sugarland Express», Zanuck e Brown mal imaginavam que acabavam de dar a oportunidade da vida a um dos autores que nos anos seguintes iria mudar por completo o modo como Hollywood via o espectáculo cinematográfico.

O filme tem por cenário a aprazível estância turística de Amity, na costa leste dos EUA que vive a sua época alta, porém subitamente a placidez do estio é brutalmente transtornada pela morte violenta de uma banhista que é atacada por um tubarão, mas essa é apenas a primeira das mortes de um ciclo mortífero. A hipocrisia dos políticos locais, que por razões puramente económicas tardam em interditar as praias e assim condenar mais banhistas para defenderem o comércio local, contrasta de forma singular com a actuação empenhada de um trio composto pelo chefe de polícia local, um biólogo marinho e um caçador de tubarões que decidem travar a ameaça assassina que vagueia pelas suas águas. No entanto, nada os preparará para a realidade do monstro marinho – um gigantesco tubarão branco capaz de engolir uma pessoa de uma só vez. O argumento de Peter Benchley e Carl Gottlieb amplia e sintetiza os elementos mais marcantes da narrativa, mas o segredo do mega-sucesso de Tubarão foi o modo como Spielberg soube contar visualmente a história, contrastando momentos de grande suspense e horror com sequências mais meditativas onde brilham os talentos de um elenco de actores, no auge do seu talento, como Roy Scheider, o magnífico Robert Shaw e um jovem Richard Dreyfuss, que anos mais tarde se tornaria uma super-estrela graças a outro sucesso de Spielberg, «Encontros Imediatos do 3º Grau».

Tubarão e o seu mega-sucesso mundial mudou as regras da indústria do cinema americano que até 1975 vivia um dos seus períodos mais livres, fecundos e variados, desde o final do notório Código Hays. O impacto deste filme e, é claro, de «Guerras das Estrelas» dois anos mais tarde, fez equacionar para sempre o modo como os grandes estúdios viam os seus programas de produção. Gradualmente, os filmes mais pessoais foram dando lugar a produções estruturadas em função de públicos-alvo ávidos de mais e mais espectáculos, emoção e efeitos especiais. Hollywood nunca mais foi a mesma.

[Texto publicado na Metropolis nº 3]

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