«Too Much» é uma das mais recentes apostas da Netflix, uma comédia romântica criada por Lena Dunham e Luis Felber. Com uma abordagem íntima e, por vezes, desconfortavelmente honesta, «Too Much» interroga o que significa, afinal, ser “demasiado”.
Num mundo onde o autoconhecimento é promovido como fórmula mágica e recomeçar é quase uma imposição disfarçada de liberdade, «Too Much» opta por dizer a verdade: mudar é difícil, desgastante e nem sempre traz o alívio prometido. A série acompanha Jessica (Megan Stalter), na casa dos 30, que, depois do fim de uma relação longa e da notícia de que o ex vai casar com uma influencer, aceita um novo cargo em Londres. À superfície, é uma decisão profissional. Na verdade, é também um gesto desesperado – uma tentativa de sair de si, nem que seja pela geografia. Mas o que é interno não se resolve com malas feitas. E como a série sugere, o passado não desaparece só porque mudámos de fuso horário. Às vezes, basta abrir o Instagram para tudo voltar.
Jessica não é uma mulher fácil de rotular. Não é a típica protagonista encantadora, nem uma anti-heroína sarcástica construída para colecionar empatia. É apenas humana. Às vezes age por impulso, diz o que não devia, repete padrões que jurou evitar. E mesmo assim, nunca a sentimos manipulada para caber numa forma. Megan Stalter, que brilhou em «Hacks» como figura secundária caótica e frágil, assume aqui o centro da história com uma entrega que surpreende: contida, desconfortável e profundamente verdadeira. Jessica é alguém que não sabe muito bem como ser feliz – e não tem vergonha de o mostrar. Ou se tem, mostra isso também.
É fácil reconhecê-la. Não porque seja um espelho exato de quem vê, mas porque transmite algo comum: a hesitação constante entre querer ser autêntica e ter medo de parecer ridícula, entre o desejo de proximidade e a fuga automática assim que as coisas se tornam reais. Jessica é aquela pessoa que se desmonta em casa de banho alheia, que manda mensagens fora de timing e tenta criar uma rotina entre cafés frios e silêncios constrangedores. A sua relação com Londres é feita de pequenos falhanços, de momentos sem brilho e de gestos sem importância – e é isso que torna tudo tão real.

O romance, em «Too Much», não aparece como objetivo final, mas como um espaço incerto, onde nem sempre há lugar para dois. Jessica conhece Felix (Will Sharpe), um músico inglês, sensível, mas fechado, e a ligação entre eles acontece sem euforia. Não há química fabricada, nem promessas a longo prazo. Há dúvidas e interrupções. Momentos de ternura e desencontro. A série permite que este romance se instale devagar, sem urgência em definir o que são um para o outro. E, nesse compasso de espera, constrói algo raro: uma intimidade que não depende de certezas, mas de presença – mesmo que imperfeita.
Ao invés de seguir o guião típico das comédias românticas – aquele que aponta para um desfecho emocionalmente redondo –, «Too Much» aceita o caos. A narrativa avança aos soluços, tal como a sua protagonista. Lena Dunham, que já em «Girls» questionava os modos convencionais de contar histórias femininas, recusa aqui a ideia de que tudo tem de fazer sentido. Há momentos que lembram «Fleabag», pela crueza e pelo desconforto; outros aproximam-se de «Love», no modo como o humor e a fragilidade andam de mãos dadas. Mas «Too Much» tem o seu próprio ritmo – lento, errático, muito humano. Em vez de querer redefinir o género, parece apenas querer dar-lhe espaço. Para que haja histórias sem moral, pessoas que ainda estão a meio do processo, finais que talvez nem sejam finais.
O elenco secundário reforça esse tom de mundo aberto, onde ninguém parece totalmente certo do que está a fazer – e onde isso não é um problema. Emily Ratajkowski, Michael Zegen, Rita Wilson, Dean-Charles Chapman, Richard E. Grant, Rhea Perlman, Andrew Rannells e a própria Lena Dunham surgem em papéis por vezes breves, mas sempre significativos. São pessoas a passar, a falhar, a tentar, assim como Jessica.




