Movimento cinematográfico mais sólido – e mais longevo – do século XXI até aqui. A Primavera Romena é uma vaga de produções de baixo orçamento, mas de alta voltagem crítica gestada a partir de Bucareste. Ela espalha as suas flores autorais pelo Festival do Cairo, com a nomeação do filme «Kontinental ‘25», de Radu Jude, para a sua programação. Com DNA brasileiro na sua medula, sob a produção da mesma RT Features que disputou o Oscar com «Ainda Estou Aqui», a longa-metragem estreou mundialmente na Berlinale, em fevereiro, na luta pelo Urso de Ouro. Saiu de Berlim com o prémio de Melhor Argumento. Agora é a vez do cineasta ganhar o carinho e o aplauso do público egípcio. A sua projeção será na terça.

O seu prestígio começou em 2021, no auge da pandemia, graças ao Urso Dourado que ganhou na capital alemã por um filme de conexão frontal com a histeria da covid-19: «Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental». Há como vê-lo na grelha da plataforma digital Reserva Imovision. Parte dos procedimentos e dos temas vistos naquela fita voltam em «Kontinental ‘25», empreitada cheia de ironia que ele construiu com a ajuda do produtor carioca (radicado em SP) Rodrigo Teixeira. Um dos pontos centrais é um balanço do saldo comunista nas repúblicas do Velho Mundo e as tensões da Hungria e da sua Roménia natal.

“A poesia que pode existir no cinema que eu faço vem do choque entre a ficção e o documentário, numa espécie de retorno aos irmãos Lumière (os inventores da linguagem cinematográfica, inaugurada por eles em 1895). Rodei esta longa com um smartphone e me pergunto o que os Lumière filmariam se tivessem um celular”, disse Jude à METROPOLIS na Berlinale.

Teixeira estava com ele naquele festival. “Radu é um diretor que admiro e que tem um trabalho espetacular”, disse o produtor. “O cineasta brasileiro Gustavo Vinagre, a quem eu acabo de produzir, falou muito do Jude para mim, no Festival de Berlim de 2024. Eu resolvi procurá-lo. Aí ele trouxe essa ideia do ‘Kontinental ‘25’, e isso ao mesmo tempo em que idealizava ‘Dracula’, que vem por aí”.

A trama de «Kontinetal ’25» se desenrola na região de Cluj, na Transilvânia (a pátria do vampiro de Bram Stoker). No seu enredo, um sem-abrigo comete suicídio depois de ser expulso do seu espaço no porão de uma casa. Orsolya, a oficial de justiça que executou o despejo, é impelida a fazer várias tentativas para lidar com os seus sentimentos de culpa pela morte do sujeito.  

“Godard dizia que assistia a partidas de futebol porque era a única transmissão audiovisual na qual ele poderia ver pessoas a trabalhar por 90 minutos sem parar. Ver um jogo é ver trabalho. Gosto de mostrar pessoas ativas nas suas rotinas laborais, pois elas revelam o nosso dia a dia”, disse Jude à METROPOLIS, num recente Zoom.

Respeitado por uma estética debochada, que transpõe os limites entre o que é realidade e o que é encenado, o realizador explicou que “Kontinental ‘25” é sua experiência “mais ficcional”, no sentido clássico da expressão. “Tudo é muito imaginativo nesse filme, ainda que eu tenha partido de um caso real”, disse o diretor.

No Brasil, o filme anterior do cineasta, «Não Espere Muito Do Fim Do Mundo» («Nu Astepta Prea Mult De La Sfârsitul Lumii»), que ganhou o Prémio do Júri no Festival de Locarno em 2023, só estreou no streaming. Está desde abril na plataforma MUBI, que ainda lançou seus curtas «Plastic Semiotic» (2021) e «The Potemkinists» (2022).

“A maior parte do conhecimento cinematográfico que eu tenho vem da pirataria. É óbvio que desejo ver o meu filme projetado, com som adequado, como é o caso de uma exibição na Berlinale Palast, mas eu não tenho nada contra plataformas como a Netflix e aprecio o trabalho da MUBI. Lá, você pode ver um Godard num dia, um curta da América do Sul no outro, um clássico de Hollywood na sequência. Acho que eu tenho uma das primeiras assinaturas do www.mubi.com desde que a plataforma surgiu”, disse o realizador de “Kontinetal ’25”. “Não sou um purista. Sei do valor de novos suportes para descobrirmos filmes”.

O 46.º Festival do Cairo segue até o dia 21, quando será encerrado pela entrega de prêmios do júri presidido pelo realizador turco Nuri Bilge Ceylan e pela projeção de «A Voz de Hindi Rajab».  

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