Este filme, «Os Indesejáveis» («Bâtiment 5», 2023), realizado por Ladj Ly, até começa bem ao focar a atenção no velório de uma velha senhora que habitava com membros da sua família num prédio degradado dos arredores de Paris. Depois de uma primeira abordagem relativa ao contexto de pesar e de uma verbalização sucessiva de sinceras condolências, nada de muito extraordinário e perfeitamente normal dadas as circunstâncias, passamos para um outro plano que nos expõe com dura amargura a falta de dignidade a que estão sujeitos aqueles que vivem nas margens da sociedade francesa. Deste modo, iremos assistir ao esforço de uns quantos familiares e vizinhos que carregam o caixão aos ombros debatendo-se com os mais diversos obstáculos escada abaixo, espaço apertado e comum onde falta a luz, os elevadores não funcionam e o aspecto geral do acesso aos diferentes condomínios coincide com o do lado errado da civilização dita democrática, livre e ocidental. Já nem refiro civilização cristã, porque naquelas paragens fica difícil encontrar um seguidor da fé cristã a não ser que o poder local queira distinguir famílias dessa religião com benefícios, privilégios e protecção que não atribuem, por exemplo, aos muçulmanos. E isso vai acontecer ao longo do filme, numa visível política de diferenciação discriminatória que visa empurrar uns contra os outros, a antiga premissa de dividir para reinar. Passada esta sequência inicial subordinada aos ritos de um funeral e da presença da morte, vemos um prédio ser destruído por uma explosão que deveria ser controlada mas que se revela um completo descontrolo, fruto da incompetência de quem manipulou e posicionou os explosivos. No meio da confusão e da gigantesca nuvem de poeira e detritos, morre o Presidente da Câmara. Pouco depois, os políticos da sua cor, cujo partido nunca será claramente mencionado mas que se supõe ser conservador de direita (se não for o caso, comportam-se como se fossem), discutem quem será o sucessor. E a escolha recai sobre um pediatra, Pierre (Alexis Manenti), cujo rosto parece mais indicado para exercer as funções do burocratazinho de serviço do que as de chefe do executivo camarário. No processo da sua nomeação interina vemos os colegas e correligionários sacudirem a água do capote da melindrosa responsabilidade que acarreta ser a figura de proa que inevitavelmente será responsabilizada por qualquer medida conveniente para a elite plutocrática mas fortemente impopular. Estamos assim no domínio do círculo de oportunistas que oferecem um presente envenenado ao médico que ganha assento no poder, quer ele queira quer não. Tudo bem, até aqui, no plano da crítica e denúncia de uma certa maneira de assumir as rédeas da governança local, neste caso por alguém que nem sequer fora eleito. O problema começa quando o realizador e o seu co-argumentista, Giordano Gederlini, decidem enveredar pela construção de uma narrativa paralela e dicotómica com laivos de maniqueísmo demagógico, introduzindo do lado contrário ao da barricada dos burgueses bem instalados na vida um pequeno grupo de personagens mais ou menos proletárias protagonizado pela funcionária Haby (Anta Diaw), jovem desfavorecida que ganha a vida a auxiliar pessoas que como ela necessitam de apoio social, de alojamento e de melhores condições para usufruir com um mínimo de decência a sua existência quotidiana. Tudo isto com o pressuposto dramático de separar as águas entre um lado e o outro como se fossem faces da mesma moeda, quando na verdade nada se pode comparar. Na prática, a moeda de Pierre não possui qualquer relação de valor cambial com a moeda de Haby, e isso vai ficar muito claro quando o Presidente da Câmara por eleger inventa soluções ainda mais canalhas do que as dos antecessores eleitos para desalojar os “indesejados” daquele bairro periférico: a saber, homens, mulheres e crianças pobres, maioritariamente oriundos do Norte de África e do Médio-Oriente. Será necessário dizer que no meio desta guerra de classes, que passa igualmente por ser uma guerra económica e cultural de contornos racistas, o cargo de Vice-Presidente da Câmara será interpretada por um negro, Roger Roche (Steve Tientcheu), figura sibilina e algo caricata que se vendeu e acomodou ao conforto da classe média alta. Passa os dias a evitar ser identificado com as decisões do seu chefe, diz ele, para não ser molestado por aqueles com quem se cruza e que perante a repressão e malfeitorias camarárias seguramente lhe fariam a vida ainda mais negra do que ao autarca branco, que no fundo apoia.

Numa narrativa que joga na parcialidade do julgamento das causas de uns e outros, muitas das sequências parecem desenhadas para demonstrar de forma sistemática qualquer coisa, como se fosse preciso fazer um desenho de cada vez que um confronto se desencadeia, uma adversidade se instala. Pouco a pouco vemos como a radicalização de um dos habitantes aparentemente mais realista e integrado se agiganta e, aqui sim, a realização podia ir mais longe. Podia mesmo entrar pelos meandros sinuosos e quase clandestinos da luta que adquire por vezes formas violentas de combate. Mas como? Missão quase impossível, e porquê? De facto, até ali o filme evitara caminhar sobre essas brasas, mantendo-se na superfície dos sinais de marginalidade do bairro e não só os do Edifício 5, uma autêntica favela de betão. Pior, a realização quer fazer crer que só existem por ali vítimas e não carrascos, pessoas pouco recomendáveis até contra os que partilham as mesmas vicissitudes. Enfim, fá-lo apenas de raspão e sem identificar de forma clara os motivos de uma agressão com pneus numa rua dita perigosa por onde o carro de Pierre circulava. Por isso a radicalização do principal companheiro e cúmplice de Haby, o jovem que ela acusa de se armar em Malcolm X, soa a falso. Nas duas grandes sequências finais vemos primeiro o despejo forçado dos moradores do prédio que o poder quer destruir sem pagar um cêntimo de indemnização, seguido de um acto de pura vingança (que não irei revelar por motivos óbvios). No rescaldo, resta o pulsar de uma violência latente que ficou pelo caminho a favor de uma espécie de normalização que não convence ninguém.

Em suma, as matérias que atravessam o argumento, as suas linhas de força, a urgência de se falar nas problemáticas subjacentes aos marginalizados da exploração e do lucro a qualquer preço, surgem como uma realidade, sobretudo urbana, que não podemos ignorar. «Os Indesejáveis» podia ser uma peça importante do debate necessário, mas fica-se pela fragilidade das boas intenções e pela sensação de que não deseja ser mais do que a lavagem de alma inerente a uma certa má-consciência dos que protestam mas, muitas vezes, não são capazes de vislumbrar que as desigualdades sociais não são apenas fruto do destino, da maldade e do rancor humanos, são antes um plano egoísta e calculista de dominação de uma classe sobre as restantes. Se não mudar de registo numa próxima ficção, Ladj Ly (que ganhou fama e proveito com «Les Misérables» («Os Miseráveis»), duas obras homónimas, uma curta em 2017 e uma longa em 2019) ainda acaba com o cognome de realizador preferido das autoridades municipais, aquele que concilia o inconciliável no chamado “cinéma de banlieue”.
Título original: Bâtiment 5 Realização: Ladj Ly Elenco: Anta Diaw, Alexis Manenti, Aristote Luyindula, Steve Tientcheu, Jeanne Balibar, Aurélia Petit Duração: 105 min. França/Bélgica, 2023
[Entrevista a Ladj Ly na edição nº 111 da Revista Metropolis]
[Crítica originalmente publicada a 30 de Outubro de 2024]

