De forma resumida, declara-se «O Colecionador de Almas» como vítima de um insuflado hype. Desespero vindo do outro lado do Oceano, uma campanha de marketing cuidadosa em criar uma reação exagerada envolto, desde desmaios e mal disposições de espectadores impressionados, até uma “crítica” (as aspas são importantes de um ponto de vista higiénico) que se confunde com a propaganda de vendas do filme, implementando a ideia de uma histeria.

“O mais assustador thriller desde «O Silêncio dos Inocentes»”, crava-se a fundo, possível catapulta para Osgood Perkins (Oz Perkins para os amigos) – filho do célebre ator Anthony Perkins, um dos primeiros ícones dessa galeria de psicopatas da Sétima Arte – a por fim, exímio artesão do género. Porém, convém afirmar que toda esta publicidade funciona como malefício ao filme: um enredo de FBI à caça de um serial killer com ligações satânicas, explorando através disso uma América dividida entre o medo de um fenómeno das trevas e do fascínio pelos marginais sangrentos refletidas em Charles Manson. «O Colecionador de Almas» provém desse contexto à lá 70 para conduzir-se numa posição camaleónica para com os media da altura, e com Maika Monroe, silenciosa screen queen («Vai Seguir-te» (2014), «Watcher» (2022), «The Guest» (2014)) destes novos tempos, aqui abraçada a uma agente federal com um quê de espectro autista, tentando desafiar as suas próprias limitações para capturar tal homem-mistério (sem surpresas, interpretado por um Nicolas Cage de trela solta e que nem por isso mais ‘genial’). É uma obra à imagem do seu criador, Oz Perkins («Gretel & Hansel» (2020), «Sou a Cara Bonita que Vive Nesta Casa» (2016)), o realizador do arrepio, de ambiências claustrofóbicas (a tela brinca com esse efeito de igual que se rende ao memorialismo), de personagens em superação e da sonoplastia que se empresta, infecta e assume o eterno protagonismo.

«O Colecionador de Almas» é um exercício de estilo, frente à coerência do seu argumento, este desvairado como um tutti-frutti de temas e fobias, ou ilógicas, mas aquilo que se pode espera de um filme que deseja tramar uma histeria, um medo coletivo, e nunca respondê-lo com afirmações exatas. Violentado pelo seu hype, é um curioso exemplar de pêlos eriçados, porventura ao serviço de um cinema de terror de sensações. Fora isso, longe das promessas da Hollywood desencantada com o seu cinema adulto, não é “nada do outro mundo”.

Título original: Longlegs Realização: Oz Perkins Elenco: Maika Monroe, Nicolas Cage, Blair Underwood Duração: 101 min. Estados Unidos/Canadá, 2024

[Crítica originalmente publicada a 25 de Julho, 2024]

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