A morte de Lynch foi anunciada na sua página do Facebook:

“É com profundo pesar que nós, a sua família, anunciamos o falecimento do homem e do artista David Lynch. Gostaríamos de ter alguma privacidade nesta altura. Há um grande vazio no mundo agora que ele já não está entre nós. Mas, como ele diria, ‘Mantém os olhos no donut e não no buraco’. … Está um dia lindo, com sol dourado e céu azul até ao fim”.

[O texto seguinte de autoria de Tiago Alves foi originalmente publicado na Metropolis nº 50]

Revemos o essencial da obra cinematográfica de um cineasta conhecido por filmes originais que desafiam a lógica narrativa e mental de qualquer espectador.

“A vida é muito confusa e os filmes também devem ser”. A frase define muito do cinema que vimos com realização de David Lynch. Antes de se dedicar ao cinema, experimentou o ensino artístico em Washington, Boston, Filadélfia e na Europa. Este percurso afastou-o de Missoula, no estado de Montana, uma cidade com 69.000 habitantes, a mesma dimensão demográfica das pequenas cidades que filmou em «Twin Peaks» e «Veludo Azul».

Na década de 1960, David Lynch começou a realizar curtas-metragens, combinando técnicas de animação com imagem real. Dirigiu seis filmes curtos até concretizar a sua primeira longa-metragem, um projeto desenvolvido durante sete anos. «Eraserhead – No Céu Tudo é Perfeito» (1977) definiu o posicionamento estético do realizador, através de uma fantasia terrífica que conta a história de um homem que vive atormentado numa realidade industrializada, com uma namorada furiosa e um filho mutante.

O Homem Elefante

O realizador cativou a atenção e filmou «O Homem Elefante» (1980), com John Hurt e Anthony Hopkins, um filme que lhe valeu oito nomeações para os Óscares, incluindo duas para o próprio David Lynch nas categorias de argumento adaptado e realização.

Seguiu-se o seu filme de ficção científica, «Duna» (1984), com Kyle MacLachlan e Sting. O filme enfrentou problemas de produção e não foi bem recebido pela crítica. Foi nomeado para um Óscar de melhor som e ainda hoje continua a ser fascinante, existindo o interesse de Denis Villeneuve em realizar um ‘remake’.

Lynch aprofundou o seu universo temático no filme seguinte. «Veludo Azul» (1986), novamente com Kyle MacLachlan, ao lado de Laura Dern e Isabella Rossellini. Aqui temos um primeiro retrato do lado mais sombrio da vida numa pequena cidade. É um filme brutal que não evita a exposição dos mais variados tabus: sadismo, perversões, fetichismo, violência e abuso de drogas. David Lynch recebeu uma nova indicação para um Óscar de melhor realizador.

Coração Selvagem


Seguiu-se «Coração Selvagem» (1990), a típica história de amor filmada por David Lynch. É um ‘road movie’ sangrento sobre Sailor Ripley (Nicolas Cage), um fanático de Elvis Presley, acabado de sair da prisão em liberdade condicional, e a sua dedicada namorada Lula (Laura Dern), em fuga no sul profundo dos Estados Unidos. O filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, o maior prémio atribuído a uma obra do realizador.

Na sequência do filme, Lynch dirigiu o seu primeiro vídeo clip, para o tema «Wicked Game» de Chris Isaak, o intérprete e compositor de duas músicas da banda sonora.

Foi nesta etapa que Lynch perturbou a paisagem televisiva através da série «Twin Peaks». A primeira temporada estreou em 1990, com o ator Kyle MacLachlan no papel de agente do FBI. Foi um novo mergulho profundo na paisagem social de uma pequena cidade norte-americana, desvendando horrores escondidos que não tinham sido explorados em «Veludo Azul». A série causou impacto devido a uma linha narrativa surrealista mas foi perdendo o foco, e o interesse do público diminuiu durante a segunda temporada.

O desfecho inconclusivo não teve qualquer continuidade imediata numa terceira temporada, mas Lynch retomou a trama aprofundando o mistério em «Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer» (1992), uma prequela da série televisiva.

Uma História Simples


Lynch desviou-se novamente para o cinema tomando atalhos cada vez mais enigmáticos. O seu filme seguinte foi «Estrada Perdida» (1997), um ‘road movie’ mental que acentuou a dimensão surrealista das suas narrativas. Depois vimos algo completamente diferente, o surpreendentemente linear «Uma História Simples» (1999), onde vemos um homem de idade, incapaz de conduzir, a viajar num cortador de relva para reencontrar o irmão e reconciliar-se com ele.

Nesta altura Lynch já tinha filmado «Mulholland Drive» (1999), um telefilme sobre uma mulher amnésica que recupera a sua memória com a ajuda de uma aspirante a atriz. A narrativa foi ampliada em 2001 no filme com o mesmo nome e as mesmas atrizes, Naomi Watts e Laura Harring. Lynch seria nomeado pela terceira vez para um Óscar na categoria de realização.

Em «Inland Empire» (2006) ele confirmou as qualidades oníricas das suas criações mais estilizadas e justificou a reputação de um cineasta que desafia todas as convenções cinematográficas. O filme é construído em torno de um mistério à volta de uma mulher em apuros, um atriz que quer fazer um filme amaldiçoado. Os jogos de espelhos, as ilusões, os fantasmas fazem deste filme o mais perturbador desde «Eraserhead – No Céu Tudo é Perfeito».

Chegamos aqui com a sensação que vimos o suficiente para concluir que o seu cinema é dirigido a cada espectador e pensado para ser experimentado como a vida: uma sequência de acontecimentos irracionais, complexos, por vezes sem sentido.

Mulholland Drive

Após «Inland Empire» Lynch foi-se afastando do cinema, dedicando o seu tempo a vídeos artísticos e pequenos filmes. Realizou seis curtas-metragens, uma sequência de trabalho iniciada com «Absurda» (2007) que integra a longa «Cada Um o Seu Cinema», um projeto que assinalou os 60 anos do Festival de Cannes. E trabalhou com diversos artistas, realizando vídeo clips ou pequenos vídeos documentais para Marilyn Manson, Moby, Interpol, Duran Duran e Nine Inch Nails.

Finalmente, regressou à televisão para dirigir a série de 18 episódios da terceira temporada de «Twin Peaks» (2017) estreada no Festival de Cannes. Na ocasião, o realizador considerou que a “televisão é um lugar precioso” e reafirmou que «Inland Empire» é e continuará a ser a sua derradeira longa-metragem.

Desde 2005 que dirige a Fundação Para a Educação e a Paz Baseadas na Consciência, que se dedica à meditação transcendental e presta apoio a pessoas que sofrem de stress pós traumático.

Inland Empire
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