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Cinema Nimas viaja até ao Extremo Oriente

Por ocasião da estreia da obra tardia de Hiroshi Shimizu, empreendemos esta viagem pelo cinema japonês, incluindo clássicos e os olhares exteriores de João Mário Grilo e Wim Wenders, e pelo cinema contemporâneo sul-coreano, que tem obtido grande sucesso nos últimos anos e é um dos mais produtivos do mundo.

Japão

A cinematografia japonesa, uma das mais importantes na história do cinema, foi tardiamente descoberta no Ocidente, com grande espanto e admiração do público cinéfilo, no início dos anos 50, quando Akira Kurosawa recebeu o Leão de Ouro no festival de Veneza, seguido, pouco depois, de mais dois prémios, desta feita para Mizoguchi, um deles por CONTOS DA LUA VAGA (1953). Nos anos finais dessa mesma década, na Inglaterra e nos EUA, ouvem-se as primeiras menções a Ozu, que ficou a ser mais conhecido já iam os 70 bem avançados, quando VIAGEM A TÓQUIO (1953) foi finalmente ali exibido comercialmente, tal como na Europa, começando então o enorme culto do cineasta (a estreia comercial em Portugal, deste e de outros filmes de Ozu, só aconteceria há poucos anos, pela mão da Leopardo Filmes. Antes apenas estreara, em 1994, PRIMAVERA TARDIA, distribuído pela Atalanta Filmes, também de Paulo Branco). Por seu lado, Mizoguchi, realizador de cabeceira da Nouvelle Vague (Godard chamou-lhe “O melhor dos realizadores japoneses. Ou, simplesmente, um dos melhores realizadores do mundo”), teve a crítica francesa a seus pés, quando em 58 os Cahiers incluíram os CONTOS na lista dos melhores filmes de todos os tempos.  São os três grandes mestres desta cinematografia imensa pela qual, temos, desde então, como escreveu Serge Daney (Maison cinema et le monde), “uma paixão devoradora”.

Mas não foram apenas estes os clássicos “modernos” (e se Mizoguchi era venerado pelos cineastas da Nouvelle Vague – Rivette escreveria, nos Cahiers, na altura da retrospectiva de Paris, um texto seminal em que falava da modernidade da sua mise-en-scène que era preciso aprender –, já Ozu, como diz Daney, foi uma “fonte de inspiração para os cineastas experimentais” [“e curiosamente o mais ‘familiar’ dos cineastas influenciou a vanguarda mais desenraizada”], e Kurosawa, talvez o mais popular no Ocidente, entre a espectacularidade e a aventura, com uma “mão no passado japonês”, embora com referências heterogéneas, e uma vertente introspectiva, mais íntima, perto da serenidade, sobretudo nas últimas obras – apud Sérgio Dias Branco – era amado por realizadores como Bergman ou Fellini, ou os americanos John Ford, Coppola, Scorsese e Spielberg).

Há, por exemplo, Mikio Naruse, com a sua obra que encena a família e o mundo das mulheres; Kinuyo Tanaka, que, para além de ser uma das maiores actrizes japonesas – trabalhou com os grandes mestres, Mizoguchi, Ozu, Naruse…–, nos anos 50 e 60 realizou seis filmes, que foram recentemente restaurados, redescobrindo-se assim uma enorme cineasta; Tai Kaitô, outro dos mestres desconhecidos do cinema nipónico, em ROÍDA ATÉ AO OSSO aborda um tema com tradição no cinema japonês, através da história de uma rapariga que, no Japão do início dos anos 1900, é vendida pela família para trabalhar num bordel e nos fala da condição feminina e do desejo de libertação; os expoentes da Nouvelle Vague japonesa, a “Naberu Bagu”, entre eles Nagisa Oshima, de quem exibimos CONTOS CRUÉIS DA JUVENTUDE (1960), retrato de uma juventude desencantada e rebelde, no meio das  revoltas estudantis, que viria a alcançar um enorme sucesso entre o público jovem. É a todas estas tradições que os novos realizadores nipónicos vão beber para as suas obras, não para, como no poema de Bashô, seguir o caminho dos antigos, mas para buscar o que eles buscaram, com o mesmo nipónico rigor.

Takeshi Kitano, cineasta e actor, afirma-se nos anos 90, e dele veremos O VERÃO DE KIKUJIRO, uma espécie de vaudeville burlesco onde alguns viram influências de Buster Keaton, embora o realizador se declare profundamente japonês; Hirokazu Kore-eda, que já venceu uma Palma de Ouro em Cannes, um dos mais evidentes herdeiros do cinema clássico japonês, de Ozu e Naruse, mas também Mizoguchi e Kurosawa, que sempre soube trabalhar a rejeição e as margens, integra este ciclo com o seu filme mais recente (foi agora anunciado que estreará um novo em Cannes), CULPADO – INOCENTE – MONSTRO (2023), Prémio do Júri naquele festival; Naomi Kawase, outra das cineastas nipónicas com presença habitual nos grandes festivais de cinema a partir da segunda década deste século, cruza nos seus filmes, com uma sensibilidade poética única, o mais profundo da “alma japonesa” com o Japão contemporâneo. AS VERDADEIRAS MÃES (2020) é um melodrama luminoso sobre a adopção e as mães solteiras; Ryûsuke Hamaguchi, com a sua obra de um “realismo despojado”, e do “registo do íntimo”, uma roda da fortuna e da fantasia, onde o acaso e as inflexões vêm, de forma subtil, alterar a ordem das coisas e as interações entre as personagens quando menos esperamos, provocando fissuras, despoletando uma crescente tensão e o tumulto dos sentimentos, que foi beber aos mestres japoneses Mizoguchi e Ozu, mas também a Cassavetes, Rohmer, Rivette, ou Antonioni, impôs-se como um dos cineastas mais importantes da última década, não só no Japão, mas internacionalmente, sendo já um dos raros premiados em todos os mais importantes festivais de cinema, num percurso coroado com o Óscar de Melhor Filme Internacional, com DRIVE MY CAR, o segundo para o Japão, depois de Akira Kurosawa. Tem também um filme novo a estrear-se este mês de Maio em Cannes.

Completam este “relance pela alma japonesa” dois olhares externos: o de João Mário Grilo que, vinte anos antes de Scorsese, em OS OLHOS DA ÁSIA (1996), mergulhava no Japão seiscentista e na história atribulada dos jesuítas portugueses e da perseguição a que foram submetidos, articulando-a com a história contemporânea. Vamos ver pela primeira vez a cópia digital restaurada do filme, apresentada pelo seu realizador; o de Wim Wenders, em DIAS PERFEITOS (2023), um regresso do realizador ao Japão e a Tóquio, que depois da estreia em Cannes chegou aos Óscares e que o público e a crítica acolheram de braços abertos.

Coreia do Sul

Com um leque variado de autores e de géneros, o cinema sul-coreano contemporâneo tem tido nas últimas décadas um enorme sucesso crítico e de público. Estes são quatro dos mais célebres realizadores de hoje: Park Chan-wook, de quem veremos A CRIADA (2016), surpreendente thriller erótico que mistura vários géneros, e o mais recente SEM ALTERNATIVA (2025), crónica mordaz das desventuras de um desempregado súbito que a economia liberal transforma num serial killer; Lee Chang-dong, escritor e realizador, que no tocante POESIA (2010) nos mostra uma mulher que está a perder a memória e que tenta escrever um poema; Hong Sang-soo, um dos cineastas mais aclamados do nosso tempo, e que criou um sistema para filmar muito seu que lhe permite uma grande regularidade, numa obra onde os encontros, as repetições, as cenas de diálogo, muitas vezes à mesa e bem regadas, que, de modo subtil, vêm provocar alterações súbitas, revelações, têm um papel fundamental. Veremos A MULHER QUE FUGIU (2020, Urso de Prata, Melhor Realizador, em Berlim) e A ROMANCISTA E O SEU FILME (2022, Grande Prémio do Júri, também em Berlim); Bong Joon-ho, com o filme coreano mais premiado de sempre, vencedor em Cannes e com 4 Óscares na bagagem, vai da comédia à farsa e aproxima-se do terror, entre dois mundos que acabam por se cruzar das formas mais inesperadas.

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