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Brincar com o Fogo

Baseado no livro “Ce Qu’il Faut De Nuit” (2020), de Laurent Petitmangin, um romance francês que explora a relação entre um pai e o filho no contexto de uma França interiorana e socialmente tensa, «Brincar com o Fogo» é realizado pela dupla Delphine Coulin e Muriel Coulin. As duas irmãs, conhecidas pelo seu trabalho no cinema e na literatura, exploram sobretudo temáticas femininas nos seus filmes – «17 Raparigas», inspirado numa história real de um grupo de adolescentes que engravidaram ao mesmo tempo, e «Voir du Pays» (2016), sobre duas jovens militares francesas que regressam de uma missão no Afeganistão.

Desta vez, o lado masculino ganha destaque, e «Brincar com o Fogo» leva-nos ao núcleo familiar de um pai viúvo e dois filhos jovens adultos, que escolhem caminhos diferentes para viver nos subúrbios, onde as hipóteses de sucesso profissional se resumem a trabalho operário, ferroviário, metalúrgico ou mineiro.

Vincent Lindon dá vida a Pierre, um pai sofrido, trabalhador incansável, que não quer que nada falte aos dois filhos, Fus (Benjamin Voisin) e Louis (Stefan Crepon). Desde a morte da sua esposa, ele assume o papel de cuidador e provedor de uma casa onde não há grandes luxos, mas existe amor. No entanto, há feridas que precisam de ser saradas, e cada um dos filhos lida de forma diferente com o vazio deixado pela perda da mãe e, sobretudo, pela falta de oportunidades para quem não vive nas grandes cidades. A revolta é imensa e precisa de um alvo, e os “estrangeiros” tornam-se o inimigo. Quando a dor é grande, o desejo de pertença pode obscurecer o discernimento. É nesse ponto que Pierre não consegue impedir que o seu filho mais velho, Fus, se envolva com grupos de extrema-direita que, unidos por um propósito, protegem-se uns aos outros e encontram um inimigo comum a combater.

Vencedor da Copa Volpi de Melhor Ator no Festival de Veneza, Vincent Lindon entrega uma interpretação exímia deste pai que se vê obrigado a lutar contra algo que não consegue vencer. Ao seu lado, os jovens atores Benjamin Voisin e Stefan Crepon formam uma dupla que dá a esta família uma autenticidade crua e realista. A química entre as personagens convida-nos a entrar na sua casa, no seu mundo e nas suas lutas, a sentir as suas dores e frustrações.

A dupla de realizadoras conduz-nos, assim, sem pressa para dentro da bolha desta família, com suavidade e sem artifícios. Não nos poupam à dor, mas dão-nos espaço para os acolher, enquanto criamos empatia com a resposta de Fus à vida que lhe parece destinada, uma vez que não é tão bom aluno como o irmão, e damos um apoio incondicional a um pai que acha que falhou e que a culpa de tudo é sua. Nas entrelinhas, as realizadoras refletem a realidade do contexto socioeconómico, numa sociedade cada vez mais polarizada.

Como afirma a personagem de Vincent Lindon num dos momentos mais impactantes do filme: “Receberam amor razoável, não conheceram a guerra ou a miséria, então o que os leva a fazer isto? Pensamos que estamos a defender a nossa cultura, mas na verdade estamos apenas a lutar contra todas as outras. Criamos dois lados e achamos que estamos a defender o nosso, mas só queremos fazer guerra, e só resta a violência.”

No meio deste caos, é necessário, como diz Pierre, “criar um projeto para estes jovens, um projeto que lhes dê esperança.” E quando, por vezes, nem o amor nos pode salvar, resta-nos o maior dos poderes: o da escolha. A possibilidade de escolher como queremos viver e qual o melhor caminho a seguir – porque talvez o mundo nunca venha a ser justo e tão pouco será perfeito.

Título Original: Jouer Avec Le Feu Título internacional: The Quiet Son  Realização: Delphine Coulin, Muriel Coulin Elenco: Vincent Lindon, Benjamin Voisin, Stefan Crepon Duração: 118 minutos País: França, Bélgica 2024

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº115, Fevereiro 2025]

Fotos: ©-2024-Felicita-Curiosa-Films-France-3-Cinema

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Sara Afonso
Sara Afonso
Entrou para o jornalismo há mais de 20 anos, ainda antes de terminar o curso de Comunicação e Jornalismo. Estagiou no jornal O Jogo, na área de cultura e cinema e, no final do curso, entrou no jornalismo especializado de Tecnologia, nas revistas Connect, Casa Digital e T3. Em 2011, aceitou a direção do seu projeto de sonho: a revista de cinema Empire, o bilhete dourado para conhecer e entrevistar estrelas do cinema e da TV, para comentar eventos de cinema e para ser júri em festivais de cinema nacionais. Por fim, assumiu a coordenação de vários projetos de imprensa, em áreas como surf, fitness, gastronomia, vida selvagem, mindfulness e criatividade, alimentação saudável, entre outros, sempre mantendo a colaboração na área do cinema, com a revista digital METROPOLIS. Já escreveu livros, criou perguntas para um famoso programa de televisão e contribuiu com a sua escrita para um projeto deslumbrante sobre o Oceano, (Oceans and Flow). Recentemente, voltou ao mundo das revistas, mas, como alguém disse um dia: “A partir do momento em que participam na descoberta mágica do cinema, este torna-se o vosso amor para sempre.

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