«A Lenda de Ochi» é uma fábula inesperada, opta por seguir mais o caminho da A24 (produtora independente/coqueluche da América) do que o estilo Amblin de ET e companhia. É uma obra que deveremos ver sem criar expectativas que podem provar ser erradas e dissonantes com o registo original criado por Isaiah Saxon que se estreia como realizador de cinema. As suas origens são os videoclips mas sobretudo um talento para criar universos graças ao talento, à ingenuidade e ao desejo de gerar algo a partir de efeitos práticos.

É inacreditável que possamos dizer que «A Lenda de Ochi» tenha sido criado por apenas 10 milhões de dólares e seja tão rico de atmosferas, efeitos visuais, figurino e actores talentosos. Para contextualizar, uma produção Marvel normalmente custo para cima dos 200 milhões de dólares, há séries de luxo que actualmente têm episódios de 45 minutos a rondar os 8 a 10 milhões de dólares de produção.

A história é uma excelente alegoria, diria, uma melodia para os nossos ouvidos em tempos tão tempestuosos chega um filme onde a importância de escutar – não as palavras mas as melodias e os sentimentos – são cruciais para sentirmos o próximo e partilharmos a vida em harmonia. A mensagem é fortíssima e adquire um formato de pedagogia forçada, é tudo muito subtil. Embora não haja grande subtileza a Maxim, um protagonista interpretado por Willem Dafoe, um bárbaro à solta num local perdido no Mar Negro (onde se produz o que se consome), uma terra perdida no tempo. Neste lugar há um conflito geracional entre os homens e as criaturas da floresta, os Ochi. Uma tradição de pais para filhos é feita em prol da caça destas criaturas que se tornaram inimigos mortais e partilham um ódio comum. Maxim vive com a sua filha Yuri (prémio revelação para Helena Zengel) e um adolescente órfão Petro (fiável mesmo em modo de type casting, Finn Wolfhard). A mãe de Yuri desapareceu nas altas montanhas. Mais tarde, apercebemos o porquê do desaparecimento da mãe e a relação desta com Yuri e as criaturas da floresta. Os Ochi são uma espécie de bolas de pelo que comunicam através de um assobio, uma forma singela e honesta que se contrapõe com o caracter manipulativo de Maxim e as suas pequenas tropas, ele treina Yuri, Petro e um grupo de miúdos de várias famílias da aldeia para caçarem os Ochis. O filme é muito burlesco quando surgem em cena Maxim e a sua troupe – mais uma vez – havendo um contraste para o mundo da filha Yuri a partir do momento em que esta sai de casa com uma missão: após encontrar um bebé Ochi (primo afastado de um adorável Gizmo e um baby Yoda). Nessa viagem fantástica de Yuri, a jovem redescobre a sua voz e a forma de comunicar com o bebé Ochi que se perdeu da sua mãe aquando de uma caçada de Maxim e acabou por se ferir numa armadilha de caça. A aventura está mais próxima de um filme de Kusturica do que um Spielberg mas mesmo assim entre o devaneio e a fantasia fica uma história para ver, compreender e amar onde o sentimento e a imagem valem todas as palavras nesta invulgar fábula moderna.

Título original: The Legend of Ochi Realização: Isaiah Saxon Elenco: Helena Zengel, Willem Dafoe, Emily Watson, Finn Wolfhard Duração: 95 min. EUA/Reino Unido/Finlândia, 2025

[Crítica originalmente publicada a 28 de Maio de 2025]

A LENDA DE OCHI
9 de novembro | 22h00 TVCine Top

Fotos: © Courtesy of A24

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