Para enquadrar o contexto e a matéria específica que importa destacar na longa-metragem de ficção de uma experimentada documentarista, a australiana Jennifer Peedom, aqui ficam excertos do seu depoimento sobre as motivações que a levaram a abraçar e encarar de frente a realização de «Tenzing», 2026: “Há mais de vinte anos, viajei pela primeira vez para os contrafortes do Monte Evereste. Fascinava-me a imensa dimensão da montanha. Mas, após o impacto inicial, fui seduzida igualmente pela cultura dos povos que viviam na sua sombra. E o que começou por ser um interesse relacionado com o montanhismo deu lugar a uma relação mais profunda com os Himalaias, com as comunidades Sherpa e com as histórias dos homens e mulheres que criaram e sustentaram as mitologias associadas ao Evereste [muitos consideravam-no a Deusa Mãe do Universo, a Deusa Mãe da Terra, a Mãe Sagrada do Mundo]. Deste modo, nos meus documentários, «Sherpa», 2015, «Mountain», 2017, e «River», 2021, incidi nas mesmas perguntas: O que será que atrai as pessoas para esses lugares extremos? O que esperam elas de nós? Qual o custo físico, espiritual e emocional de perseguir o impossível?”
Depois da exposição do seu primordial ponto de vista, a realizadora prosseguiu introduzindo-nos o perfil da figura que desejou para o papel protagonista: “Tenzing Norgay é um dos nomes mais importantes na História do Montanhismo. Todavia, a sua vida foi muitas vezes reduzida a um só momento, a chegada ao pico do Evereste.” Tenzing (1914-1986) foi o primeiro de dois homens a alcançar os seus 8 mil 848 metros acima do nível do mar. Mais precisamente, às 11h30 da manhã (hora local), a 29 de Maio de 1953. Esse extraordinário feito (até ali inédito) do veterano sherpa indo-nepalês ficou imortalizado numa fotografia registada pelo seu parceiro de escalada, o neozelandês Edmund Hillary (1919-2008).

Já agora, permitam-me acrescentar uma nota pessoal: se este alpinista e explorador dos antípodas ainda estivesse entre nós, gostaria de lhe fazer uma “simples” pergunta, só na aparência singela (e muito menos inocente), destinada a provocar uma resposta que esclarecesse, cara a cara, algo que até hoje me intriga (e penso que não estou sozinho). E a questão seria: porque não se deixou fotografar naquele irrepetível momento de glória que culminava o confronto consigo próprio e as forças majestáticas da Natureza?
Segundo relatos mais ou menos especulativos, naquela altitude onde se sobrevive com notórias dificuldades de respiração (e onde os alpinistas foram obrigados a resolver problemas verificados no equipamento que lhes fornecia o oxigénio) faltou a ele e a Tenzing Norgay a força anímica necessária para utilizar (manipular) a máquina fotográfica. E não compro a ideia de que o experimentado sherpa, integrado naquilo que era uma de entre várias expedições anteriores ao Evereste, não soubesse usar o aparelho fotográfico. Estou capaz de aceitar, isso sim, que o neozelandês quis dar a primazia ao seu guia e ao homem que considerava o seu maior cúmplice numa parceria feita de amizade pessoal e profissional. Depois, nos poucos minutos que permaneceram no cume, preferiram seguramente preparar a descida quando começaram a sentir no corpo os efeitos nefastos e por vezes brutais da altitude (dores de cabeça, náuseas, fadiga extrema, e o risco de um colapso que podia ser fatal). Prefiro ainda alimentar a ideia, a que Jennifer Peedom de certo modo agarrou, de que Edmund Hillary concedeu o lugar cimeiro e a primazia a quem merecia ser histórica e culturalmente o primeiro dos primeiros.
Seja como for, não faltou aos alpinistas a vontade indómita de alcançar o que ainda ninguém alcançara, neste caso, uma meta que deixou de ser impossível. Para a História, estava alcançado o ponto mais alto do nosso planeta, numa iniciativa que libertava quem lá chegou da chamada lei da morte. Triunfaram onde outros no passado haviam falhado, muitas vezes, com o sacrifício da própria vida.

Permitam-me esta pequena especulação porque, acreditem, a chegada ao cume de uma montanha, seja ela fácil ou difícil, na prática constitui um momento ímpar de breve mas perene fulgor. Por mais complicada e árdua que seja a subida, para já não falar da descida, a conquista do que ao princípio se apresenta irrealizável, improvável ou incerto, produz um êxtase espiritual que nos invade na hora suprema e não pode ser descrito por meras palavras de circunstância. Digo-vos isto porque já experimentei a sensação de subir (penosamente) ao ponto mais elevado da Ilha Amantaní, no Peru (Lago Titicaca). Uma vez lá em cima, não obstante um friozinho que mordia os ossos (apesar de estar a menos de metade da altura do Evereste), enquanto recuperava o fôlego, experimentei o chamado “olhar de Deus”. Naqueles 4 mil 150 metros de altitude, magnífica foi a sensação de ver as nuvens mais próximas e ilusoriamente ao alcance dos dedos. Por outro lado, os seus contornos e volumetria luminosa davam-nos a ilusão de serem imagens pintadas contra um céu azul-cobalto, assombro de luz devido ao modo como ao fim do dia os raios solares nelas incidiam. Para completar este quadro de deslumbramento, a imensa “profundidade de campo” dava-nos a impressão de ver paisagens sem limites e sucessivos planos de geografias sem fronteiras. De igual modo, irreal era a sensação de respirar um ar imaculado, apesar de naquelas paragens elevadas haver menos oxigénio. Enfim, mesmo para um materialista dialéctico, os minutos que passei naquela atmosfera mágica constituíram uma experiência, diria, a meio caminho entre o profano e o religioso.
Dito isto, por não ser novidade e por ser algo que senti e nunca mais esqueci, considero perfeitamente justificada a opção de Jeniffer Peedom de compor a personagem de Tenzing Norgay como alguém que desde criança procurou no Chomolungma (nome dado localmente ao Monte Evereste) mais do que a mera ambição de o escalar. Nele prevalecia desde a infância e juventude, como numa larga parcela dos que habitam e povoam a região, o apelo espiritual que a sua majestosa silhueta convoca. Só não sente essa chamada quem nunca sentiu nada de nada nesta vida peregrina.
De forma muito clara, no filme «Tenzing» esta vai ser a dimensão subjectiva que serve de eixo central ao conjunto de circunvoluções da estrutura narrativa apoiada no percurso do protagonista enquanto criança, depois rapaz e por último homem de corpo inteiro que, pouco a pouco, irá adquirindo justa reputação no seio dos grandes empreendimentos do alpinismo. Escalada após escalada, com o passar dos anos irá conjugar fama e algum proveito por ser um dos mais seguros, fiáveis, senão mesmo o mais competente, dos guias sherpa. E podemos dizer que desde cedo a sua presença parece divergir dos restantes asiáticos contratados para a expedição britânica, liderada com mão-de-ferro e alguma arrogância ideológica do Velho Continente pelo coronel John Hunt (Willem Dafoe).
Mesmo entre os restantes sherpa que carregavam mantimentos e equipamento montanha acima (e eram umas centenas, ao contrário do que se vê no filme), Tenzing Norgay possui um lugar que faz dele uma personagem com pergaminhos firmados, mas que em muitas ocasiões parece caminhar sobre gelo fino e escorregadio. De facto, a sua luta maior passa por fazer o que deve ser feito, sem inventar problemas onde, no fundo, eles não deviam existir. Nomeadamente entre iguais.

No filme não se escamoteiam os preconceitos de classe dos europeus que integravam a missão expedicionária, organizada pelo Reino Unido e pela Joint Himalayan Committee. Neste contexto de múltiplos e complexos relacionamentos idiossincráticos, o filme reforça a separação das águas entre a componente, digamos, ocidental e cristã e a outra, oriental e budista, ao realçar a partir de certa altura o discreto, contra a corrente, e mais ou menos ambíguo comportamento de Edmund Hillary.
De igual modo, não se escamoteia nas linhas do guião haver alguma distância e não poucas rivalidades ou contradições de carácter social e de casta entre os sherpa. Tenzing Norgay não ficou imune a esse ambiente de chumbo que mais adiante se irá dissipar, sem nunca se resolver a cem por cento. Neste ponto, sublinho a presença do actor Genden Phuntsok que, numa composição plena de eficácia, aflora com laivos de filigrana o essencial dos estados de alma da personagem protagonista e dos restantes interlocutores, para além da gestão dos passos dados, e por dar, para garantir a coesão a um grupo de homens de cuja sorte ficara responsável, oriundos do Nepal, Índia e Tibete.
Do lado dos profissionais de montanha e dos “aventureiros” europeus e neozelandeses ao serviço de Sua Majestade (a Rainha Isabel II, que subiu ao trono a 6 de Fevereiro de 1952 e foi coroada a 2 de Junho de 1953, já com a notícia da conquista do Evereste), encontramos a outra face da mesma moeda no papel de Edmund Hillary (Tom Hiddleston). Também ele se mostra discreto e mais ou menos desgarrado dos básicos conflitos humanos, públicas ou veladas divergências, e demais impasses de carácter inerentes a uma expedição que seria realizada por sucessivas, morosas e frias etapas ao longo de meses. Será pois a surda cumplicidade de Tenzing Norgay com Edmund Hillary (e a futura complementaridade da personalidade de ambos) que fará sobressair o poder e determinação que lhes vai permitir confrontar os perigos e, porque não dizê-lo, as angústias da incerteza quanto ao sucesso que cada vez parecia mais próximo.
Tudo irá concretizar-se na sequência de uma primeira e falhada investida ao cume, durante a qual uma outra dupla de alpinistas falhou a proeza por poucos metros, situação que quase comprometia a globalidade do esforço até ali empreendido. Nada de muito novo, porque algo de similar acontecera a outras expedições, nomeadamente a anterior expedição suíça. Porém, será necessário dizer que fazer avançar primeiro dois alpinistas britânicos resultou de uma decisão marcada por um espírito sectário de nacionalismo chauvinista e, enfim, subliminarmente classista, por parte do militar inglês John Hunt, que deu preferência aos seus compatriotas em detrimento dos membros que, aparentemente, apresentavam melhores credenciais para os devidos efeitos.
Será importante referir que a realização e a maioria do elenco dão boa conta do recado na gestão dos egos das referidas personagens. Não será demais salientar que Jennifer Peedom, para além da sua capacidade de gerir actores e criar atmosferas credíveis num cenário de altitude, fez bem em integrar o contributo de Norbu Tenzing, um dos filhos de Tenzing Norgay e presidente da American Himalayan Foundation, creditado como Produtor Executivo, adicionando assim uma componente de verdade e de memória pessoal que, junto com a sua experiência anterior nos caminhos cruzados da montanha, reforçou o impacto visual e humano de uma ficção baseada em factos reais.
Tecnicamente, o filme, rodado no Nepal e na Nova Zelândia, faz jus aos valores de produção que lhe foram destinados e, mesmo com alguns rodriguinhos melodramáticos presentes nos flashbacks que nos dão flagrantes da pretérita e acidentada vida do jovem Tenzing Norgay, a globalidade do que se refere ao quadro maior da conquista do Evereste, por si só, merece um olhar cuidado e atento. A reconstituição dos acontecimentos e a escala humana emprestada aos mesmos apresentam-se, passo a passo, capítulo a capítulo, como a verdadeira razão de ser de «Tenzing», disponível na plataforma da Apple TV+.
Para além do mais, abriu-me o apetite para visionar «The Conquest of Everest», 1953, realizado in loco por um membro da expedição, George Lowe, magnífico documentário que recebeu nos BAFTA de 1954 o prémio para Melhor Filme Documental e um mais do que merecido Certificado de Mérito para o Director de Fotografia e operador Thomas Stobart.
Título original: Tenzing
Realização: Jennifer Peedom
Elenco: Genden Phuntsok, Tom Hiddleston, Willem Dafoe, Johnny Flynn
Duração: 125 min.
Reino Unido, Nova Zelândia, EUA. 2026



