Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

Good Luck, Have Fun, Don ́t Die – Boa Sorte, Diverte-te, Não Morras

Façamos uma sopa. Comece-se com uma base de «Back to the Future» demolhada em desencanto. Junte-se um pouco de «Terminator» e uma dose de «Matrix». Para tempero um pouco de «The Stepford Wifes» e «Truman Show» q.b. Termine-se com umas pitadas de «This is the End» e «Everything Everywhere All at Once», «Idiocracy» e uns tantos outros em menores proporções. O chef Verbinski diz ainda ter usado «Repo man», «Akira»e «Dog Day Afternoon», mas não sentimos esse travo. O resultado, por incrível que pareça, é delicioso. Com «Good Luck, Have Fun, Don’t Die», Gore Verbinski oferece-nos uma afiada e divertida sátira à alienação da sociedade contemporânea constantemente à procura de gratificação nas redes sociais; e aos medos implícitos da velocidade e voragem das novas tecnologias, em particular da Inteligência Artificial.

O filme apresenta-se, à primeira vista, como uma comédia de ficção científica ligeira, quase caótica na sua sucessão de situações absurdas e referências pop. Contudo, sob essa superfície aparentemente lúdica, Verbinski constrói uma narrativa que funciona como espelho deformante do presente: um outro «Black Mirror». A história acompanha um grupo improvável de personagens arrastadas para um cenário em que as tecnologias emergentes (redes sociais omnipresentes, algoritmos omniscientes e inteligências artificiais com agenda própria) começam lentamente a colonizar a experiência humana. O tom é deliberadamente exagerado: há viagens temporais improvisadas, conspirações digitais e uma sensação constante de que a realidade foi substituída por uma simulação grotescamente acelerada e anestesiante. Mas é precisamente nesse exagero que reside a eficácia da sátira. O filme dá uma proposta de um pela amplificação das tendências já visíveis no presente. Um grito de Cassandra.

Verbinski demonstra uma consciência aguda do ritmo do mundo contemporâneo. A montagem é frenética, os diálogos são rápidos e, se bem com uma excelente escrita de Matthew Robinson, frequentemente atropelam-se uns aos outros; e as imagens sucedem-se numa torrente quase vertiginosa. Esta estética de aceleração não é mero estilo: é parte integrante da crítica. O espectador é colocado numa posição semelhante à do utilizador de redes sociais, bombardeado por estímulos constantes, referências culturais e micro-narrativas que exigem atenção imediata mas raramente permitem reflexão prolongada. O filme encena assim uma espécie de ansiedade digital permanente, na qual a experiência se torna fragmentada e simultaneamente superficial e excessiva. O novo acrónimo FOMO (fear of missing out) é disso exemplo.

Uma das qualidades mais interessantes da obra é a forma como conjuga humor absurdo com inquietação filosófica. As piadas são rápidas mas acumulam-se até formar um retrato desconfortavelmente reconhecível da vida mediada e gerida por ecrãs de telemóvel a caminho de uma completa alienação. Nesse sentido, «Good Luck, Have Fun, Don’t Die» aproxima-se de outras distopias contemporâneas sobre tecnologia, mas distingue-se pela sua recusa em adoptar um tom puramente pessimista. Há um humor corrosivo que atravessa toda a narrativa e impede o filme de se transformar numa simples parábola moralista ou moralizante. Verbinski parece compreender que a cultura digital é simultaneamente fascinante e inquietante; um espaço onde criatividade, alienação, liberdade e manipulação coexistem numa tensão constante. A sátira, aqui, não é apenas crítica: é, sobretudo, um alerta.

É particularmente produtivo ler o filme à luz do ensaio “Cibermundo: a política do pior”, de Paul Virilio. O pensador francês argumentava que cada inovação tecnológica produz inevitavelmente o seu próprio acidente: a invenção do navio cria o naufrágio e o naufrágio leva à criação do SOS. No contexto digital, esse “acidente” manifesta-se na saturação informativa, na vigilância algorítmica e na erosão da experiência directa. O SOS será o alerta para o controlo e legislação preemptiva das novas tecnologias. Virilio desenvolveu ainda o conceito de dromologia: a lógica da velocidade como força estruturante da política e da sociedade modernas.  De igual modo, a compressão do espaço e do tempo produz uma nova forma de poluição — não ambiental, mas mental — resultante da saturação informativa e da velocidade absoluta da comunicação. Em «Good Luck, Have Fun, Don’t Die», essas dromologia e poluição surgem quase materializadas. A narrativa vive obcecada com a aceleração: decisões tomadas em segundos e sistemas automáticos que operam mais depressa do que qualquer consciência humana consegue acompanhar. Tal como em Virilio, a velocidade deixa de ser apenas um atributo técnico e transforma-se num princípio organizador do poder. O filme sugere que, num mundo governado por algoritmos ultrarrápidos, a própria política se torna reactiva, incapaz de controlar as forças tecnológicas que ajudou a criar. E o público, nesse turbilhão, demite-se da sua função crítica. Como diz o protagonista, magnificamente interpretado por Sam Rockwell: “As redes sociais roubaram-vos a dignidade e tornaram-vos todos em crianças.”

Outro aspecto digno de nota é a forma como Verbinski explora a estética do colapso cultural ocidental. O filme é deliberadamente saturado de referências cinematográficas, memes e tropos narrativos reciclados. Longe de ser um mero exercício de nostalgia, esta estratégia reflecte a lógica da Internet contemporânea, onde tudo pode ser reutilizado, “remixado” e transformado em conteúdo. A cultura aparece assim como um imenso arquivo em permanente recombinação. O resultado é simultaneamente cómico e inquietante: uma sensação de que a originalidade foi substituída por uma circulação infinita de signos familiares. Esta dinâmica aproxima-se da ideia de hiper-realidade formulada por Jean Baudrillard: um estágio da cultura em que a experiência deixa de distinguir claramente entre o real e as suas representações mediáticas. Nesse contexto, a consciência passa a relacionar-se sobretudo com versões intensificadas ou “aperfeiçoadas” da realidade: imagens, simulações e narrativas que parecem mais nítidas, mais coerentes e mais sedutoras do que o próprio mundo que deveriam reflectir. O universo cultural retratado no filme sugere precisamente esse deslocamento para um domínio hiper-real, onde a realidade é substituída por uma sucessão de referências e simulacros que já não remetem para um original estável. Não foi à toa a escolha do cenário de um restaurante Norms, com a sua característica arquitectura de estilo googie dos anos 1950, que se sedimentou como a ideia do all american dinner no imaginário de Hollywood, pese embora hoje sejam raros os dinners com este estilo tendo estes sido, paulatinamente, substituídos por versões sem estilo próprio ou alma a troco de uma maximização do lucro e eficiência.

Apesar da sua acidez, o filme não abandona completamente a dimensão humana. No centro da narrativa permanece um conjunto de personagens que tentam compreender o que significa agir num mundo em que as consequências das acções são amplificadas por redes globais e inteligências artificiais. Há momentos de genuína vulnerabilidade em que a comédia dá lugar a uma reflexão mais silenciosa sobre responsabilidade, liberdade e identidade. Esses momentos funcionam como pequenas pausas num turbilhão narrativo que, de outro modo, poderia tornar-se excessivamente frenético. Visualmente, Verbinski demonstra uma capacidade notável para traduzir conceitos abstractos em imagens concretas. Interfaces digitais transformam-se em cenários físicos, algoritmos assumem formas quase monstruosas, e o próprio espaço cinematográfico parece dobrar-se sob a pressão da informação. A sensação é a de um mundo em que a fronteira entre realidade material e arquitectura digital se tornou indistinta.

No final, «Good Luck, Have Fun, Don’t Die» não oferece soluções simples e forma um ouroboros. O título, com o seu humor quase nihilista, resume bem o espírito do filme: uma mistura de ironia, resignação e desafio. A mensagem não é que a tecnologia conduzirá inevitavelmente ao desastre, mas que a velocidade com que a adoptamos e o espírito acrítico com que a aceitamos pode impedir-nos de compreender plenamente as suas consequências. Verbinski entrega assim uma obra que funciona simultaneamente como comédia, ficção científica e comentário cultural. Ao exagerar as lógicas da cultura digital — a busca incessante de entretenimento, a aceleração permanente e a delegação de decisões a máquinas — o filme revela algo profundamente real sobre o presente. Como na melhor sátira, rimo-nos primeiro e percebemos depois que a piada é, em grande medida, sobre nós próprios.

Título original: Good Luck, Have Fun, Don’t Die
Realização: Gore Verbinski
Elenco: Sam Rockwell, Juno Temple, Haley Lu Richardson, Michael Peña, Zazie Beetz
Duração: 134 min.
Alemanha/EUA, 2025

Artigo anterior

Também Poderá Gostar de