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De Gaulle: Resistência

Realizador, argumentista, autor de banda desenhada (sob o pseudónimo Abel Lanzac), mas igualmente político e diplomata, Antonin Baudry participou, entre outras actividades, como conselheiro no governo de Jacques Chirac (2005-2007) e serviu nas Embaixadas de França (Washington e Madrid), entre 2010 e 2014.

No campo da BD, assinou com o desenhador Christophe Blain, dois magníficos álbuns intitulados “Quay D’Orsay – Chroniques Diplomatiques” (Dargaud, 2020-2011), sátira política que muito deve ao seu percurso e experiência nos meandros do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o dito Quay D’Orsay. Da obra gráfica e do humor que fervilha nos corrosivos diálogos retirou Bertrand Tavernier a inspiração para um dos seus filmes, o homónimo “Quay D’Orsay”, 2013.

No entanto, aquela obra apenas se aproximou da acutilância crítica em relação aos meandros da diplomacia e do seu jogo de máscaras, que era a picante mais-valia da matriz literária. Entretanto, Antonin Baudry, talvez para se desviar do muito stress e alguma democrática incerteza que costuma invadir os corredores e gabinetes do poder (quando há eleições, o risco de perder espaço de manobra pode acontecer aos melhores), muito prudentemente decidiu usar os pergaminhos académicos que adquirira na área do cinema para mergulhar de cabeça num outro saco de gatos, o agitado mas mais seguro burburinho da sétima arte.

Podemos dizer que na qualidade de cineasta está longe de possuir uma filmografia robusta no que diz respeito a quantidade (realizou até ao momento uma longa e duas outras, com generosa duração, concebidas como um díptico). Já no capítulo qualidade, há quem aprecie a sua convulsa visão da guerra submarina no action-thriller «Le Chant Du Loup» («Ameaça em Alto Mar»), 2019.

Provavelmente, a relativa eficácia narrativa dessa primeira obra foi o sinal que alguns produtores esperavam para lhe depositar nas mãos a missão, não direi impossível, mas muito movediça, de “reconstituir” os passos dados por uma das figuras mais conhecidas no contexto político-militar, mas igualmente mais controversas da História de França. Para complicar as coisas, na época que se devia e queria abordar, a personagem em causa não adquirira ainda um consensual estatuto de “maior do que a vida” (era só maior em estatura e na arrogância bélica confundida com arrojo e coragem). Seja como for, era inegável que a mesma personalidade viria a assumir e cumprir um papel relevante e reconhecido num período dramático, não só da Europa como do Mundo: a ascensão do nazismo e o desencadear da Segunda Guerra Mundial.  Na verdade, o principal biografado desta oblíqua biografia, para aqueles que independentemente da idade possuem memória dos factos que moldaram esses anos de brasa e uma parte significativa da derradeira metade do Século XX, não podia ser mais carismático. Estamos a falar de Charles André Joseph Marie de Gaulle (22 de Novembro de 1890 – 9 de Novembro de 1970), oficial do exército e estadista cujo nome se imortalizou como Charles De Gaulle. Por vezes, só e apenas De Gaulle. E, infelizmente, após a vitória dos Aliados e em particular no cargo de Presidente da República, nem sempre recordado pelas melhores razões.

Nos dias que correm, permeáveis a muita ignorância do passado e a manipulações venenosas ao serviço da distorção da realidade e dos factos históricos, o projecto «La Bataille De Gaulle» surge como um fresco fílmico destinado a capitalizar investimentos cinematográficos polarizando e reforçando a atenção no exemplo de figuras que a partir do seu percurso individual ainda possam dizer alguma coisa ao comum dos cidadãos. Um sinal disso mesmo pode ser “auscultado” na vocalização conjunta de “Bataille” e “De Gaulle”, associação habilidosa que procura gerar através de um jogo de sonoridades objectivas, com ressonâncias subjectivas, a expressão capaz de articular o combate por um ideal salientando a noção de Nome mais Pátria, diria mesmo, Nome igual a Pátria. Nome do país associado ao do protagonista. E assim, por força do eco patriótico que ressoa aos nossos ouvidos, somos convidados por este marketing subliminar a ouvir aqui e agora um grito de síntese entre a determinação da guerra passada e a raiva justa e libertadora que permitiu erguer a sociedade dos nossos dias: ou seja, La Bataille de Gaule (A Batalha da Gália). Naturalmente, para os devidos efeitos de mobilização, Gália equivale a França. Falamos aqui do uso virtuoso da memória histórica da Gallia, espaço geográfico assim designado pelos latinos, que compreendia uma vasta região onde hoje encontramos uma parcela da França, da Bélgica, dos Países Baixos, da Suíça, do Norte de Itália e da zona ocidental do Rio Reno na Alemanha.

Todavia, para o mercado internacional, os produtores foram mais pragmáticos, e a primeira parte intitulada «La Bataille De Gaulle: L’ Âge de Fer», passou ao menos críptico «De Gaulle: Résistence» («De Gaulle: Resistência»). E a segunda parte, «La Bataille De Gaulle: J’ Écris Ton Nom», ao mais económico e menos poético «De Gaulle: Liberté» («De Gaulle: Liberdade»), 2026. E não se ficou por essa, digamos, “simplificação”. Para melhor vender a mensagem conservadora e enquadrar o protagonista no propósito primordial do projecto, a produção concentrou a atenção na acidentada carreira do general Charles De Gaulle, encarado como uma figura ímpar, mesmo quando as contradições entre o seu pensamento e a prática eram mais do que evidentes (vejam-se os mal-entendidos que determinaram o desastre naval na Batalha de Mers-el-Kébir, na Argélia), dando primazia a uma selecção intencional e filtrada de acontecimentos ocorridos enquanto militar exilado e dependente de complexas conjunturas geopolíticas, na primeira metade dos anos quarenta do Século XX.

No presente díptico (quem sabe, um dia veremos a continuação do mesmo) os produtores sabiam que deixariam de fora outros grandes e difíceis conflitos em que os gaulois (os gauleses) e o seu futuro Chefe de Estado não se portaram com semelhante heroísmo ou patriótica razão de ser. Preferiram ainda os mentores desta empreitada cinematográfica destacar o valor pessoal e global das diferentes contribuições (na maioria voluntárias) atribuídas aos militantes e partidários da France Libre, corpo e alma da entidade que funcionou (ou melhor, se apresentava após a capitulação da França perante a Alemanha nazi), como o verdadeiro governo da França, no exílio. Esta “França Livre” recebia apoio de Londres, sobretudo do primeiro-ministro Winston Churchill (1874-1965) que, no seio das divergências inerentes a uma guerra e face a discussões impetuosas com os seus mais próximos colaboradores, sem esquecer antigas rivalidades existentes entre os dois países separados pelo Canal da Mancha, via em Charles De Gaulle aquilo que, no fundo, ele era ou podia ser naquele momento preciso: um potencial símbolo da resistência anti-fascista e anti-nazi, sem dúvida, um homem excessivo que se comportava (mais em público do que em privado) como um narcisista, quixotescamente convencido de que podia encarnar a França e os valores profundos de um povo que, segundo a sua fé, erguida sobre princípios de inspiração moral e exemplar, não se rendia, nem se submetia ao invasor. Não por acaso, o símbolo que adoptou para identificar a France Libre foi a Croix de Lorraine, a Cruz de Lorena, duas barras horizontais sobre uma vertical. Diga-se em abono da verdade que alguns representantes do povo francês que, segundo as fortes convicções do general, estariam dispostos a lutar pela liberdade que lhe fora subtraída, para mal dos seus pecados e os da França, mas igualmente para glória da pulhice humana, se vergaram enquanto colaboracionistas ao invasor nazi, refugiando-se na sombra do infame governo do Marechal Henri Pétain (1856-1951), governo autoritário e corrupto sediado em Vichy. Precisamente por isso, na era retratada, era mais necessário do que nunca manter no seio dos Aliados a chama acesa dos homens livres que alimentasse a esperança de vencer a ameaça nazi-fascista, dando voz e apoio logístico a quem se dispunha a lutar por uma outra forma de encarar a sociedade e as relações entre os povos.

Nas enfáticas intervenções do general De Gaulle (papel que o actor Simon Abkarian desempenha com subtil dose de sagacidade) iremos vê-lo e ouvi-lo invocar de forma grandiloquente heróis milenários, como o fundador da Dinastia Merovíngia, Clóvis I (466-511), primeiro Rei dos Francos, ou a famosa donzela guerreira, Joana D’Arc (1412-1431). Exemplos que podiam ser na altura já encarados como anacrónicos, mas cuja evocação histórica não deixava de ser curiosa no capítulo do recrutamento ideológico. No fundo, na perspectiva de um general que se pensava como o homem certo no lugar certo, aqueles nomes apontavam para o Homem/Pai Fundador e para a Mulher/Virgem/Mártir providenciais. Numa palavra, evocação de cariz cristã e propagandística para alimentar a vontade de combater o inimigo, sim, com armas, mas sem esquecer uma suposta e subjacente superioridade moral e espiritual de carácter proto-religioso. Seja como for, para além dos fogachos ditados pela sua personalidade e convicções, Charles De Gaulle usava a aura militar para aliar uma inegável coragem a julgamentos estratégicos que, aqui e além, soavam mais a devaneios de glórias passadas do que a pragmáticas análises concretas de situações concretas.

Decididamente, Charles De Gaulle não era um materialista histórico nem um adepto do materialismo dialéctico. Na verdade, lutava pela Pátria, mesmo quando o conceito não era mais do que um mito, uma abstracção baseada na ideia (imperialista) de uma França irredutível capaz, se necessário, de resistir sozinha ao conjunto de armadilhas inerentes aos diversos processos históricos. Não foi por acaso que René Goscinny e Albert Uderzo se inspiraram na filosofia do general De Gaulle (o gaulismo, que se consolidou no pós-guerra e contaminou os importantes cargos políticos que ocupou) para, nas aventuras de “Astérix o Gaulês”, iniciadas em 1966, criticarem com humor certeiro e alguma bonomia as idiossincrasias e o nacionalismo exacerbado dos gauleses. Sátiras deliciosas que sintetizam a ideia peregrina de que os habitantes do hexágono não deviam recear nada a não ser que o céu lhes caísse em cima das cabeças. Diga-se que entre os mais entusiastas aliados de Charles De Gaulle havia quem pensasse da mesma maneira, mas sem a panache chauvinista e, porque não dizê-lo, sinceridade de carácter da sua habitual postura soberana. Em síntese, De Gaulle foi um general que não abdicava de ser um líder, mesmo quando buracos abertos na hierarquia o impediam de exercer os poderes que um militar de carreira podia e devia assumir face a circunstâncias extremas.

Tudo o que escrevi até este ponto podia ser um memorando para construir uma personagem, esboço preliminar de uma orientação narrativa, parte integrante de uma storyline ou matéria para as Notas de Intenções. Fi-lo de propósito porque penso que se justifica fornecer nesta crítica apenas a informação q. b., as linhas de orientação que sustentam os principais conflitos dramáticos relacionados com o acidentado percurso do protagonista.

Mas o filme não se esgota na evocação da personalidade de um chefe militar nem na dos seus cúmplices, alguns dos quais irão ganhar relevância e amargo protagonismo, como se verá no pesado e brutal assalto das forças nazis de Erwin Rommel contra um destacamento de voluntários da France Libre, “sacrificados” para permitir que as unidades inglesas recuassem e se reagrupassem. Diga-se, sendo o filme baseado em factos reais, os bastidores desse episódio de resistência, resiliência e sacrifício no Deserto do Norte de África, para muitos constituirá a revelação de que mesmo entre aliados nem sempre prevaleceu um perfil de unidade e lealdade sincera, onde era mais necessária para combater um inimigo comum. E o argumento, baseado no livro do escritor inglês Julian Jackson, “A Certain Idea of France: The Life of Charles De Gaulle”, não foi muito simpático ao revelar os meandros e o cinismo com que se decidiu a Batalha de Bir Hakeim (melhor seria dizer, premeditado massacre), onde a expressão carne para canhão encaixa na perfeição. De facto, não há guerras limpas.

Dito isto, será importante acrescentar que «De Gaulle: Resistência» usa um expediente narrativo que a princípio parecia comportar algum risco, antes de ser plenamente justificado e recompensado no final. Trata-se de uma espécie de sub-plot que se instala desde cedo como narrativa complementar integrada na principal por montagem paralela. Nessa outra história seguimos um jovem idealista da classe média francesa que, motivado pelos ideais gaulistas, se revolta contra a situação de capitulação do seu país. Junto com outros companheiros organiza uma pequena célula de resistência onde procura ampliar e dar seguimento ao sentimento de uma França insubmissa, fomentando o protesto contra a ocupação nazi, quer junto dos estudantes (precisando para isso de entrar em confronto com alguns dos seus colegas da extrema-direita colaboracionista), quer nas muito vigiadas ruas de Paris. Mais adiante, não obstante ser obrigado a refugiar-se na Argélia, não desiste da vontade inabalável de contribuir para uma mudança de rumo, mesmo que a sua falta de calo e experiência revolucionária se mostre desde o início a peça solta que por um lado vai destravar e por outro lado quebrar a frágil engrenagem de resistência que lhe dita o fim. Será precisamente nos últimos minutos desta primeira parte que a sua decisão feita de coragem suicida o catapulta para um breve mas vingador momento de glória, o ponto derradeiro do seu sacrifício. Momento feito de vertigem e determinação patriótica, como muitos outros, que seriam assumidos antes e depois nos diferentes palcos da guerra por um cada vez maior número de militantes vindos dos vários quadrantes sociais, políticos e ideológicos que, pouco a pouco, através da luta armada e da mais estruturada eficácia das redes clandestinas, construíram as condições objectivas e subjectivas para que uma mais ampla e segura resistência desempenhasse dia após dia um papel decisivo rumo a uma vitória redentora.

Será a consolidação deste combate pela liberdade a matéria primordial da segunda parte, «De Gaulle: Liberté», cuja estreia se anuncia no nosso país para o dia 29 de Outubro de 2026.

Título original: La bataille de Gaulle: L’âge de fer
Título internacional: De Gaulle: Résistance
Realização: Antonin Baudry
Elenco: Simon Abkarian, Simon Russell Beale, Benoît Magimel, Anamaria Vartolomei, Niels Schneider, Karim Leklou
Duração: 160 min.
França/Bélgica/EUA, 2026

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João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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