Nicolas Cage troca a ação por areia nos sapatos e humilhações tropicais num delírio australiano sobre território, testosterona e trauma solar. Se a crise de meia-idade tivesse uma prancha de surf, chamava-se «O Surfista». E se tivesse um rosto — vermelho, inchado, desesperado — seria, claro, o do Nicolas Cage. O novo filme do australiano Lorcan Finnegan, estreado em Cannes na delirante sessão da meia-noite, é uma parábola nonsense sobre a masculinidade tóxica e o direito à praia, com Cage no centro de um vendaval de sol, cerveja quente, praxes violentas e humilhações cada vez mais grotescas. A premissa é simples, mas carregada de ironia. Um homem, um agente imobiliário bem-sucedido, regressa à sua terra natal — uma vila costeira algures na Austrália profunda — com o sonho de comprar a velha casa da família e ensinar o filho a surfar. Só que há um problema: a praia já tem dono. Ou melhor, donos. Os Lunar Beach Boys, uma espécie de gangue local de surfistas musculados e ressentidos, liderados por Scally (Julian McMahon, deliciosamente odioso), um predador alfa com sorriso de tubarão e discurso de coach empresarial e passado dos carretos. ‘Não vivas aqui. Não surfas aqui’, gritam-lhe. Mas o homem não desiste. E então começa a espiral: a prancha é roubada, o carro vira tenda, a dignidade vai pelo ralo. Cage transforma-se num vagabundo de parque de estacionamento, a beber água de poças, a dormir sobre as dunas e a ser ciclicamente espancado por surfistas em regime de seita. É como «Mergulho no Passado» («The Swimmer», 1968), de Sidnei Pollack com Burt Lancaster, que é também um filme bastante bizarro, mas reescrito por alguém com um fetiche por wrestling psicológico e aves a defecar. O que Finnegan faz com Cage, é puro deleite cinéfilo. O filme brinca com o mito do próprio ator, uma espécie de herói trágico, o homem à beira da insolvência emocional e financeira e empurra-o mais uma vez para o abismo, entre alucinações de areia, slogans existenciais e confrontos tribais em slow motion. E Cage, como sempre, entrega-se de corpo inteiro. Literalmente. A meio do filme já parece ter perdido qualquer ligação à realidade. E nós, espectadores, só podemos agradecer. Com um guião enxuto e mordaz de Thomas Martin, «O Surfista» é um filme da meia-noite no melhor sentido: low budget, high drama, suor, areia e sarcasmo. É uma comédia negra disfarçada de thriller solarengo, onde o homem moderno é esmagado pelo peso do passado, do território e da testosterona. No fundo, tudo o que Cage queria era apanhar uma onda. Mas antes tem de sofrer. E isso, como sabemos, ele faz como ninguém.
Título Original: The Surfer Realização: Lorcan Finnegan Elenco: Nicholas Cage, Julian McMahon, Finn Little, Rahel Romahn, Michael Abercromby Origem: Austrália, Irlanda Ano: 2024 Duração: 99 minutos

