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Michel Vaillant – Corridas Lendárias 2 – A Alma dos Pilotos

“Michel Vaillant – Corridas Lendárias – A Alma dos Pilotos” é um dos grandes álbuns recentes desta saga. A ASA tem produzido edições imperdíveis em todas as frentes deste legado, tal como a equipa Vaillant. A marca nacional de banda desenhada tem oferecido aos fãs verdadeiras joias, veja-se, recentemente, a segunda série Michel Vaillant com o Volume 14 Remparts, às histórias clássicas e o obrigatório one-shot “Henri Vaillant”.

A história deste livro começa com a equipa Vaillante a ser assolada por várias desistências sucessivas no campeonato do mundo de Fórmula 1 (F1). Estamos em Abril de 1971, a três semanas do Grande Prémio (GP) do Mónaco. Henri Vaillant não percebe muito bem o porquê dos abandonos de Michel; a falha mecânica parece ter sido descartada, não houve esforço ou sobreaquecimento, o carro tinha apenas uma vantagem curta sobre o seu adversário.

Michel chega ao Mónaco com a confiança abatida; os mecânicos asseguram que o carro foi todo afinado, ele está impecável e os motores a ronronar como gatos à lareira, à espera de saltarem como tigres para a pista. No hotel, onde estão instalados Michel e Steve Warson, chega uma escritora, Francine, que vem fazer uma entrevista ao nosso herói para a revista semanal Paris Match. Michel desconhece o livro de Francine e esta admite que não percebe nada de corridas de automóveis. Na sexta-feira, dia de qualificação, a chuva é intensa e contínua, a pista está muito escorregadia e perigosa, a ponto de as sessões de treino de Fórmula 3 serem canceladas. Os mecânicos estão numa grande azáfama ao regularem os carros para um possível dia de corrida “molhado”. O desenho de Vincent Dutreuil parece salpicar água para fora do livro; é espectacular. Nos treinos, Mario Andretti parece que está a fazer patinagem artística com o seu carro; cada curva mais dá a sensação de que está a conduzir um carro de rally. No mundo real, no GP do Mónaco de 1971, os problemas de Mario Andretti com a chuva foram bastante penosos, a ponto de o piloto norte-americano não se ter qualificado para o GP quando estava na segunda posição do Campeonato do Mundo de F1.

E a narrativa deste álbum muda de “chip” para a sua verve de thriller policial. Enquanto decorrem os treinos no Mónaco, em Marselha um homem está desesperado e agarrado ao flanco; foi ferido após ter sido baleado, ele está com medo. Steve Warson é chamado a entrar em acção. Sem revelarmos pormenores, esperem por uma perseguição fantástica com carros convencionais numa estrada de falésia. Temos uma subtrama ao estilo de French Connection, com drogas, traficantes, o FBI, uma operação internacional e criminosos no encalce de Warson e o homem resgatado. Escusado será dizer que Steve Warson, que aprendeu a arte de queimar borracha nos circuitos americanos, é tão vertiginoso em uma pista de corrida quanto em uma estrada aberta, mesmo com algumas balas pelo meio. É um momento em que estamos totalmente agarrados a esta história entre os limites da velocidade e a pura técnica de pilotagem.

Na entrevista de Michel a Francine, ele afirma que o segredo na forma de pilotar é o equilíbrio. Antes do GP do Mónaco, ele tem acumulado abandonos e acidentes, mas afirma que pilotar um F1 é como caminhar num arame; é preciso evitar ser engolido pela velocidade, evitar ser atraído pelo abismo. A trajetória ideal é um fio de equilíbrio que liga uma curva à curva seguinte.   A missão do piloto é encontrar as melhores afinações para o seu carro e a melhor trajetória em pista para conseguir, a cada curva, travar o mais tarde possível e sair acelerando o mais rapidamente que conseguir. Os grandes pilotos conseguem ser sempre velozes sem cometer erros em quaisquer circunstâncias. O que motiva Michel a arriscar a sua vida, para andar às voltas, durante horas no circuito, é o sonho da volta perfeita. Qualquer que seja o circuito, ele está próximo do limite onde tudo se pode desmoronar, mas não desiste e continua a perseguir a harmonia perfeita.

A Alma dos Pilotos faz verdadeiramente justiça ao seu nome num argumento astuto e blindado de Denis Lapiere. É uma anatomia da alma de um piloto, sendo genial a forma como se estruturou o álbum. É uma introspeção que se alinha em vários momentos da história para passar os pensamentos, pela acção e pela pista, sobre o significado, as motivações e os truques para alcançar o objectivo de ser um grande piloto.

É provavelmente o álbum mais cinematográfico que lemos desta saga de referência nos últimos anos. Observem – tal como a montagem de uma longa-metragem – como uma conversa entre um piloto e uma escritora “sai” das paredes de um quarto e a palavra acompanha as ruas do circuito citadino, a acção numa perseguição na Côte d’Azur, a qualificação à chuva no Mónaco ou uma corrida cheia de imprevistos. É como se o livro adquirisse uma segunda e terceira camada – lembramos o dispositivo de policial que esta série já nos habituou. É fascinante.

Os leitores já conhecem a combinação de cruzar as personagens da ficção com as lendas das pistas; o resultado é mistura de nostalgia e sentir a vibração de vermos estes magos do automobilismo, como Jackie Stewart, ganharem vida nas páginas deste álbum.

O desenho de Vincent Dutreuil tem o pano de fundo de sonho, com o mítico GP do Mónaco em 1971, o último a ser percorrido na configuração original do circuito (1929-1971). Ainda sem a pressão imobiliária em algumas zonas do circuito, que pode ser observada em várias vinhetas, o GP do Mónaco de 1971 é uma joia do Mediterrâneo, com um semblante mais próximo de James Bond e muito menos da fauna que prolifera na actualidade nos quatro cantos do circuito e super iates. O livro está recheado de várias curiosidades para os amantes da F1 no histórico circuito do principado. E se começarmos a ver a corrida de 1971 (disponível no YouTube), não conseguimos parar de ver, além de ficarmos logo com saudades de regressar ao passado, onde a F1 não era uma procissão no Mónaco. Pensamos que aquela malta era toda louca, dos pilotos aos mecânicos, até ao público e aos fotógrafos. E estes, apenas com um lancil do passeio a separar os bólides da sua integridade física.

A corrida de 1971 teve um documentário produzido e co-realizado por Frank Simon e Roman Polanski em torno da participação de Jackie Stewart no Grande Prémio. Este facto é (evidentemente) mencionado nesta banda desenhada, numa sequência em que Jackie Stewart aproveita a chuva para fazer uma volta rápida e gravar imagens para o documentário. «Weekend of a Champion», estreou em 1972 no Festival de Berlim e teve uma menção especial [1972 Winner Special Recognition Documentary] no certame. O filme esteve “desaparecido” durante 40 anos, sendo novamente exibido no Festival de Cannes em 2013 após o restauro de Polanski. Numa edição da METROPOLIS, em que oferecemos quase 70 páginas de cobertura de Cannes (estiveram lá 7 críticos da revista), era impossível não mencionar o festival nas nossas páginas sobre a BD…

Em “Michel Vaillant – Corridas Lendárias – A Alma dos Pilotos”, não faltaram materiais bem vivos de arquivo para o artista Vincent Dutreuil patentear a sua arte e o argumento de Denis Lapiere criar uma pulsante ficção histórica em torno das aventuras dos intrépidos Michel Vaillant e Steve Warson.

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