Nascido em Argel em 1948, de etnia cigana, Tony Gatlif é um cineasta independente, repleto de talento e que tem, ao longo da sua carreira, mostrado no ecrã a sua cultura como mais ninguém. Filmes como «Les Princes», «Latcho Drom» ou «Exílios» fazem hoje parte do património cinematográfico mundial. A esses e muitos outros títulos na filmografia de um homem que viveu algum tempo no Alentejo junta-se agora «Ange». A personagem que dá o título ao filme é interpretada pelo conhecido músico Arthur H. e enceta uma viagem para se reconciliar com um amigo do passado, na companhia da filha de uma antiga paixão, criada com a habitual luminosidade por Maria de Medeiros.
De certa forma, este filme é um pouco o Tony?
Tony Gatlif: Sim. Reivindico-o de alma e coração. Porque são quase 50 anos de viagens e quase 50 anos de filmes. Todos os meus filmes falam dos outros, falam naturalmente dos ciganos, dos viajantes, de todo o lado. E ao longo da vida encontrei pessoas fabulosas que eram musicólogos. Os musicólogos são pessoas muito pudicas. Não são pessoas que se querem exibir ou pôr-se em evidência por saberem alguma coisa. São pessoas que querem servir os outros. É precisamente isso que faz deles musicólogos.
Como é que nasceu a ideia para este filme?
Tony Gatlif: Um dia pensei que tinha de fazer um filme sobre um musicólogo assim, um pouco como eu. Porque os fui encontrando ao longo da vida. Todos eles têm essa reserva, são discretos. Porque só se pode criar amizade assim quando se é pudico. Foi daí que nasceu o filme: uma personagem púdica que abandonou os seus para ir procurar música noutros lugares e que tem uma filosofia cigana no sangue, embora não seja cigano.
Por ser algo de tão pessoal, foi ainda mais difícil encontrar o ator certo?
Tony Gatlif: Sim. Sobretudo porque eu não queria propriamente um ator. Não encontrava um ator que correspondesse ao que procurava. Antes de mais, o papel principal exigia alguém que tocasse música, que soubesse o que é verdadeiramente a música, como todos os musicólogos sabem muito bem. E depois precisava daquela atitude de viajante. Os viajantes têm sempre uma atitude muito particular, até na própria voz. A voz dele é uma voz de viajante, de alguém das planícies. Os atores normalmente não são músicos. Não sabem fazer certas coisas. Embora eu goste muito deles e os respeite profundamente.
“Gosto muito dos ciganos portugueses“
Finalmente, encontrou a pessoa certa para encarnar a personagem…
Tony Gatlif: Acabou por surgir Arthur H, sobretudo por causa da voz. Adoro a voz dele. Tem a voz de alguém que regressa de uma viagem. Como nos westerns: há sempre um cowboy que regressa e desencadeia toda a história do filme. Mas quase sempre regressa carregado de ódio. Nunca de amor. Mas aqui há amor. E o Arthur tinha precisamente essa capacidade de encarnar esse cowboy que regressa, essa figura quase como Ulisses.
Hoje fala-se muito da representação das minorias. Começou a representar os ciganos desde o início da carreira. Acha que ao longo destes anos houve uma evolução ou ainda há muito a fazer?
Tony Gatlif: O mundo tornou-se mais feio. Mais duro e mais feio. Quando digo feio, não quero dizer menos belo. Não é exatamente isso. Talvez as minhas palavras já não consigam acompanhar o mundo. Mas os ciganos perderam sobretudo a paz. Porque são esquecidos. E eles gostam de ser esquecidos, porque é precisamente quando são esquecidos que têm paz. Portanto, isso é interessante hoje: ainda os esquecem um pouco.

A extrema-direita ataca constantemente as minorias étnicas…
Tony Gatlif: Claro que há muita extrema-direita na Europa e no mundo, mas neste momento preocupam-se mais em atacar o socialismo, a humanidade, tudo o que é humano. Não se preocupam muito com pequenos grupos étnicos como os ciganos. E é aí que eles vivem melhor: quando os deixam em paz.
Em Portugal ouvimos falar várias vezes de problemas com presidentes de câmara que não os querem por perto…
Tony Gatlif: Sei disso muito bem. Portugal é um dos lugares onde ainda existem muitos ciganos viajantes, que andam de um lado para o outro a fazer feiras, a vender coisas. Estão sempre presentes. Gosto muito dos ciganos portugueses. Muito mesmo. Vemo-los por todo o lado, sobretudo na primavera, com os cavalos. Têm sempre cavalos. Mas há ciganos em toda a parte: na Roménia, em muitos sítios.
Mas o estigma continua, não lhe parece?
Tony Gatlif: Hoje o mundo é governado por bilionários que querem tornar o mundo fascista. Mas não se interessam pelos ciganos. E é precisamente aí que os ciganos estão bem: quando ninguém se ocupa deles. Porque quando o fascismo começa a interessar-se pelas pequenas minorias para controlar o mundo… então constrói campos. Mas ainda não estamos nesse momento. Os nazis fizeram isso. E também os comunistas. Mas atualmente quem está em perigo é sobretudo o humano.

Porque é que as pessoas são cegas perante este caminho que o mundo leva?
Tony Gatlif: As pessoas tornam-se cegas quando há problemas, quando surge alguém com milhares de milhões. É muito fácil tornar-se rico: basta esmagar os outros. Mas há muito poucas pessoas dispostas a esmagar os outros permanentemente. E essas pessoas, muitas vezes, não têm cultura nenhuma. Não sabem nada de música, nada de humanidade. Mas sabem muito bem como ganhar dinheiro. E depois querem que todos os outros caminhem ao ritmo das suas botas.
Voltemos ao seu filme. Começa e aparece a Maria de Medeiros. Como a escolheu?
Tony Gatlif: A Maria é uma conhecida minha desde que vivi algum tempo em Portugal. Cruzei-me várias vezes com ela e vi muitos filmes em que ela entrou. Gostei sempre dela, mas nunca tive nenhum papel para ela. E aqui achei que iriam muito bem juntos, a Maria e o Arthur H.. No filme, quando a vemos, descobrimos logo o passado entre ela e a personagem de Ange. Ela exprime imensas coisas através do rosto dela e da sua voz lindíssima, com essa mistura entre o francês e o português. Corresponde perfeitamente à personagem.
Como é que ela reagiu ao convite?
Tony Gatlif: Veio imediatamente. Falámos imenso e trabalhámos bastante sobre a personagem. Eu não sou muito de dirigir os atores, dou-lhes algumas ideias e quando estamos de acordo, avançamos. E ela é também uma bela cantora. E é muito bonita. Queria que ela fosse pura e natural no seu rosto de uma mulher já de uma certa idade.

Há uma imagem que vai ficar completamente gravada na memória de quem vir o filme, a da cantora espanhola de cabelos compridos…
Tony Gatlif: La Caíta. Ela já tinha participado em «Latcho Drom», o filme que fiz há trinta anos. Hoje tem sessenta e tal anos e continua igual. O rosto dela praticamente não mudou. A voz continua pura. Eu adoro lugares naturais que parecem catedrais e encontrei uma árvore perto de Perpignan com dois mil anos, um zimbro gigantesco. Queria filmar ali. E imediatamente tive a ideia de fazer aparecer La Caíta diante daquela árvore. Porque ela se parece com a árvore. As rugas do rosto dela são como os veios da madeira. E achei que, para representar a memória da personagem através do canto, seria perfeito que ela surgisse quase como um anjo.
Estar em Cannes, mas nas projeções ao ar livre, na praia, diz-lhe alguma coisa em especial? Porque é um espaço um pouco marginal, alternativo…
Tony Gatlif: Não. Acho que tenho o meu lugar aqui. Quando era criança vivíamos perto de Argel, numa zona quase rural. Um dia eu e o meu irmão fomos ver um filme ao ar livre numa cidade junto ao mar. Fomos de bicicleta. Vivíamos num bairro de lata, a uns três quilómetros. Era o «Sansão e Dalila», de Cecil B. DeMille. Curiosamente revi-o recentemente e percebi que fala de uma história de amor passada em Gaza, há milhares de anos. Depois da sessão voltámos para casa na mesma bicicleta, sem luzes e sem travões. Era noite. E, ao longo da estrada, víamos pequenas luzes, pirilampos nas bermas. No meu filme inspirei-me muito nessa imagem.
Os seus filmes são sempre muito belos, muito diferentes, muito seus. Queremos mais. Já tem um novo projeto em marcha?
Tony Gatlif: Não sei. O mundo está estranho. O sistema de produção tornou-se estranho. É como se alguém tivesse dado um pontapé num formigueiro. Talvez porque o mundo esteja a tornar-se um pouco fascista, com a extrema-direita a crescer em toda a parte. Está cada vez mais difícil fazer filmes. Mas eu não sou um realizador que dependa de grandes financiamentos. Não preciso de muito dinheiro para filmar. Por isso, aconteça o que acontecer, vou continuar a fazer filmes. Haverá certamente um próximo.



