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Leibniz – Crónica de uma Pintura Perdida – Edgar Reitz

É um dos grandes autores do cinema germânico do último meio século, embora não tão mediático como alguns dos seus pares. Um dos seus trabalhos mais conhecidos é a majestosa série de televisão «Heimat». Antes de começar a fazer cinema, Edgar Reitz estudou arte e filosofia. Dois temas que coloca no seu último filme, «Leibniz – Crónica de uma Pintura Perdida», sobre um quadro do filósofo mandado pintar pela Rainha Carlota, sua admiradora. O filme já está nos cinemas e encontrámos o realizador no Festival de Berlim.

Qual é hoje a importância da filosofia?

Edgar Reitz: A filosofia académica talvez já não seja muito importante. Mas filosofia, hoje, significa desenvolver e colocar novas questões. Talvez seja mais sair dos contextos académicos e entrar na prática, na política, na vida humana. Talvez já nem lhe devêssemos chamar filosofia, mas simplesmente o processo de reflexão. Nós, seres humanos, somos criaturas vivas que possuem a capacidade de pensar para lá das situações com que nos deparamos. É uma capacidade que usamos diariamente, em tudo o que fazemos.

Como por exemplo?

Edgar Reitz: Quando fazemos café, imaginamos como ficará pronto, como o vamos beber, como o vamos servir. Através da imaginação conseguimos antecipar as consequências das nossas ações e perceber se realmente o queremos ou não.

Como é que liga essa ideia ao ato de filmar, ao seu ato de filmar?

Edgar Reitz: A perceção da nossa liberdade, fazer ou não algo, está ligada à capacidade imaginativa de conceber alternativas. Conseguimos imaginar um mundo diferente do mundo real, em qualquer momento e em qualquer contexto prático. E essa é a base de uma filosofia moderna. Não sou filósofo, mas acredito que estas questões fundamentais são necessárias para fazer cinema. Pergunto-me sempre: e se fizer este filme? E se não o fizer?

“Tenho um grande modelo português, Manoel de Oliveira”

O que distingue Leibniz de outros filósofos?

Edgar Reitz: Fala-se sempre da sua universalidade. E isso é verdade até certo ponto, embora hoje universalidade signifique algo diferente do que significava no tempo de Gottfried Wilhelm Leibniz. Hoje já não pode existir alguém suficientemente inteligente para saber tudo. Talvez isso ainda fosse concebível no período barroco. Mas, para mim, isso não é o mais importante em Leibniz.

O que o torna então atual?

Edgar Reitz: O essencial é ter compreendido que na natureza tudo está ligado. Não existe separação dentro da criação. E, ao mesmo tempo, cada elemento é único. Nem uma gota de água é igual a outra. Muito menos um ser humano. Cada pessoa existe apenas uma vez e de forma irrepetível. E, no entanto, cada ser humano está ligado à natureza e a todos os outros seres humanos. Quando ferimos uma pessoa, estamos a ferir todas. Aquilo que oferecemos a uma pessoa, oferecemos a todas. A liberdade de um é a liberdade de todos. É uma ideia simples e maravilhosa, embora difícil de concretizar.

Quis passar essa ideia através do seu filme?

Edgar Reitz: O exemplo do filme ajuda muito a explicá-la. Quando se pinta um retrato, trata-se precisamente da questão do irrepetível. Isso começa logo com o pintor da corte na primeira parte do filme. Ele aparece com um retrato pré-fabricado: o cabelo já está pintado, as roupas também, falta apenas o rosto. Ou seja, a individualidade já está destruída. E coloca-se então a questão: será sequer possível eu existir dentro da imagem? Porque também não posso existir duas vezes, enquanto realidade e enquanto imagem. Onde está então a verdade do retrato? O retrato diz realmente algo sobre mim?

O que tornou Leibniz particularmente interessante para si?

Edgar Reitz: Estudei Leibniz durante muito tempo e, segundo ele, todas as imagens mentem. Nenhuma imagem pode ser verdadeira. Mas isso não significa que a arte seja falsa. Na arte, a verdade da imagem encontra-se noutro lugar. A obra de arte é uma criação fora da realidade, uma nova criação. E nessa nova criação existe uma verdade própria. A semelhança entre a imagem e a realidade torna-se então o verdadeiro tema.

Em que aspeto?

Edgar Reitz: Semelhança significa que teve de existir um contacto entre o artista e o seu objeto. Se eu estiver a falar consigo, somos ambos totalmente únicos. Mas ao mesmo tempo participamos um do outro. Se eu perguntar: onde termina você e onde começo eu? Existe uma zona intermédia? Sim, existe. Caso contrário, não conseguiríamos compreender-nos, nem sequer estaríamos aqui juntos. Descrever essas zonas de transição é a tarefa da arte. E isso é profundamente leibniziano. Na verdade, não é assim tão difícil de compreender, porque lidamos com isso diariamente nas nossas vidas.

Porque escolheu Lars Eidinger para representar o pintor da corte?

Edgar Reitz: Precisava de um ator verdadeiramente brilhante para esse papel. É uma sequência introdutória. O filme principal decorre entre Leibniz e a pintora neerlandesa. Mas precisava de ultrapassar as primeiras grandes questões através desta personagem, que é inventada. Para tornar essa figura credível, e captar também o lado cómico da situação, precisava de um grande ator. E o Lars Eidinger é realmente um ator brilhante.

Como reagiria se fosse retratado?

Edgar Reitz: Passei o dia inteiro a ser fotografado. E sofro com isso porque não consigo perceber os contextos. Não sei quem paga ao fotógrafo. Não sei quem vai publicar a fotografia. Não sei quem terá interesse nela. Não sei onde aquela pessoa aprendeu a usar a câmara. Tenho frequentemente a sensação de que não é um verdadeiro trabalho artístico, eles nem sequer lidam comigo enquanto pessoa. Se o fizessem, talvez fotografassem algo completamente diferente. Aliás, os realizadores normalmente não gostam muito de estar diante da câmara.

Ao ver o seu filme, pensa-se muito em Roberto Rossellini e em Jean-Marie Straub. Foram influências?

Edgar Reitz: Rossellini e Straub são muito diferentes. Mas sempre adorei Rossellini. Há um filme dele onde se conta como Louis XIV consolidou o poder através do vestuário. Até então, em França, quem realmente dominava era a Igreja. O que ele fez foi encomendar roupas aos melhores alfaiates do mundo. Depois obrigou toda a corte a vestir-se segundo o seu estilo. Era tudo tão caro que toda a aristocracia acabou endividada. E depois o rei criou um banco para lhes conceder crédito. Foi assim que conquistou o poder absoluto. Era uma ideia extremamente refinada de domínio político. E Rossellini conta isso magistralmente.

Pode falar um pouco do trabalho da luz no seu filme?

Edgar Reitz: A questão da luz era muito importante para mim. Estudámos a pintura da época, sobretudo Caravaggio, que tinha uma técnica revolucionária: em vez de pintar sobre uma base clara, pintava sobre preto. Ou seja, não desenhava contornos, pintava a própria luz. Quando hoje olhamos para Caravaggio ou para Rembrandt, percebemos que eles praticamente inventaram a iluminação no cinema. As pinturas deles parecem fotogramas de filmes.

Quis então reproduzir a técnica desses pintores?

Edgar Reitz: Decidimos construir o estúdio exatamente como um atelier do século XVII. Naquela época não existiam projetores. Havia apenas velas ou pequenas lâmpadas de óleo. A principal fonte de luz vinha das janelas, colocadas muito alto. Também havia persianas para controlar a entrada da luz. Reconstruímos tudo isso. O nosso diretor de fotografia trabalhou exatamente como Caravaggio: usando a luz natural que entrava pelas janelas. E depois a pintora redirecionava a luz com espelhos para iluminar o modelo. Ou seja, no século XXI trabalhámos com técnicas do século XVII. E isso foi um enorme prazer.

Depois de dez anos sem filmar, fez recentemente dois filmes. De onde vem essa energia para continuar a fazer cinema?

Edgar Reitz: Tenho um grande modelo português: Manoel de Oliveira. Oliveira realizou o seu último filme aos 106 anos. Morreu durante a produção do derradeiro filme. Esse é o sonho de vida. Enquanto artista, nunca nos reformamos.

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João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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