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A Dança das Raposas – Valery Carnoy

Camille é um jovem que estuda numa academia com o sonho de se tornar pugilista profissional. Perto, há uma floresta por onde andam raposas. Mas um acidente quase mortal vai colocar-lhe um dilema, físico e mental. É «A Dança das Raposas», marcado pela presença de Samuel Kircher, no seu segundo filme como ayor, e ao lado de jovens atores não profissionais. Valery Carnoy, o realizador belga do filme, fala-nos dos paralelismos entre o filme e a sua própria história.

Porque escolheu o mundo do boxe para a sua primeira longa-metragem?

Valery Carnoy: Queria um desporto em que a amizade fosse muito forte, porque é um desporto em que se treina muito e se combate pouco. Treinamos com os nossos colegas e temos de nos entregar ao outro, porque aceitamos que o nosso colega nos bata, tal como nós lhe batemos a ele. Achei que era um desporto que tornava as amizades muito intensas, ou pelo menos que criava ligações muito fortes entre os jovens. Pela minha experiência, era algo que via muitas vezes no internato. É uma união do corpo.

Era esse o tema que desejava desenvolver?

Valery Carnoy: Precisava muito de falar sobre amizade, juventude e também sobre esta relação com o corpo. Pareceu-me o desporto ideal para contar esta história. E também por causa da dor. Como é um filme sobre a dor, o boxe é um desporto em que a dor é normal. É normal sofrer, é normal levar golpes e torna-se complicado quando um campeão, alguém habituado a aceitar a dor, de repente é derrubado por ela.

Falou do internato. Estudou também numa dessas instituições?

Valery Carnoy: Sim, sim. Também estava no desporto, mas no futebol. Comecei como lateral-direito e depois tornei-me realmente bom como extremo. Mas com um perfil muito defensivo, como ala.

Há então aspetos muito autobiográficos no filme?

Valery Carnoy: Tive um acidente grave. Perdi imenso sangue e não tive a transfusão de imediato. Ou seja, não recuperei o sangue logo. Acabei por perder o meu lugar no internato e passei por um período terrível de fraqueza. Também perdi o meu lugar no grupo. E compreendi certas coisas sobre a dinâmica do grupo em que estava. Isso deu-me uma nova sensibilidade que acabou por me levar a abandonar o desporto. Retomei os estudos “normais”. Portanto, para responder de forma clara *a sua pergunta, há mesmo algo de autobiográfico no filme.

A questão da dor vem daí?

Valery Carnoy: Quando se sofre um acidente traumático, eu devia ter morrido, fui salvo por um amigo, e de repente uma artéria se abre, percebemos que não somos invencíveis. E essa relação com a morte ficou omnipresente durante anos. E claro que surgiram dores psicossomáticas após o acidente. Queria falar disso neste filme porque, naquela altura, quando se sofria de dores psicossomáticas, pelo menos na minha época, era impossível falar disso. Passávamos por loucos. Hoje, os jovens têm uma relação muito mais saudável com a saúde mental e com a dimensão psicológica, e isso é ótimo.

Portanto, a dor de que a personagem sofre é cientificamente correta, existe mesmo.

Valery Carnoy: Sim, claro. Chamam-se dores psicossomáticas. Antigamente usava-se um termo que já não se deve usar: histeria. Ou seja, o cérebro cria uma realidade patológica para comunicar alguma coisa. Já não aguenta mais. Isso acontece muitas vezes no mundo do trabalho. É o burnout. A pessoa está exausta, não consegue levantar-se, tem dores de cabeça, quando na verdade tudo isso é psicológico: o cérebro já não quer que a pessoa vá trabalhar porque aquele trabalho a faz sofrer demasiado. Aqui, a «profissão» dele é o boxe. Não há nada pior do que não compreender porque é que temos dor. Eu tinha isso no estômago. Ficava completamente contraído, não conseguia mexer-me.

Conhecia o desporto através do futebol, mas fez pesquisas específicas sobre o boxe, sobretudo nestas idades?

Valery Carnoy: Fiz algum boxe, conheço um pouco, mas não sou especialista. Gosto de ver. E tive a sorte de fazer casting e trabalhar apenas com jovens boxeadores. Só o Samuel Kircher não era pugilista, mas teve uma preparação de cinco ou seis meses. Todos os outros dominavam realmente o desporto. Eu tinha a experiência deles constantemente ao meu lado durante as filmagens. Falávamos de boxe o tempo todo e tentávamos ser o mais realistas possível.

Isso também lhe permitiu filmar os combates de outra forma…

Valery Carnoy: Alguns combates são combates reais. Claro que mais protegidos: usam luvas e fazem o que se chama «toque», ou seja, não colocam força no soco. Mas alguns são combates verdadeiros, há contacto real, a câmara não precisa fingir.

Falou de quatro ou cinco meses de preparação para o Samuel Kircher…

Valery Carnoy: Sim. Além das aulas que lhe dávamos com dois profissionais, ele também começou a treinar sozinho num clube de boxe. Entregou-se completamente ao papel. Eu apenas lhe tinha pedido para ganhar três ou quatro quilos de músculo. Ele transformou-se totalmente para o papel. Agora já voltou a perder os músculos.

E a jovem do filme, também é o primeiro papel dela?

Valery Carnoy: Também. Encontrámo-la na rua. Era jogadora de futebol e fazia kickboxing. Havia esta vontade de trazer rostos novos. À exceção do Samuel, que já tinha feito um filme da Catherine Breillat, eram todos estreantes. Queria mesmo caras novas, para trazer frescura e autenticidade. Porque muitas vezes, no cinema francês, vemos «adolescentes» que têm 24 ou 25 anos. E eu precisava daquele rosto infantil quando eles lutavam.

Pode falar um pouco sobre os locais de filmagem?

Valery Carnoy: Filmei na Bélgica e em França, nas Ardenas, uma região entre os dois países. Escolhi um internato especializado em râguebi. Gostava daquele lugar porque, de certa forma, parecia uma prisão. Tinha marcas do tempo, era maciço, grandioso, e sobretudo ficava no meio da floresta. Precisava que aquele lugar estivesse completamente isolado, perdido, rodeado por floresta, animais, raposas. Longe do mundo dos adultos. Mas ficávamos num hotel, fazia bastante frio. Era verão, mas não era propriamente confortável.

E a simbologia das raposas?

Valery Carnoy: Na verdade, não há uma metáfora ou simbolismo muito preciso. Precisava de introduzir um elemento singular para afastar o filme de um naturalismo puro. Algo que permitisse ganhar uma dimensão extraordinária. Mas a raposa traz sobretudo carne, sangue, corpo morto, coisas que não vemos na dor psicológica, já que essa dor existe apenas na cabeça. Precisava de trazer matéria, carne, pedaços de corpo. E também achei que isso combinava com a brutalidade e a poesia do filme. Porque é um filme muito bruto, mas também muito terno.

Vê semelhanças entre o boxe, o desporto em geral e o cinema? O sofrimento também faz parte do trabalho de cineasta?

Valery Carnoy: Às vezes temos a certeza de que temos algo bom, mas não conseguimos avançar. Há também uma competição feroz. Sim, a competição é terrível. E piorou muito. Há muito menos dinheiro do que antigamente, e até os cineastas se tornaram mais duros e cruéis uns com os outros. Há facadas nas costas que antes não existiam. Antigamente havia uma grande solidariedade entre autores. Hoje é muito violento. Está a tornar-se uma selva, e é pena. Apesar disso, continuam a existir encontros magníficos e pessoas extraordinárias. Continua a ser um meio de apaixonados.

O Valery e também por exemplo a Laura Wandel mostram que existe um cinema belga para além dos irmãos Dardenne.

Valery Carnoy: Sim, claro. Mas foram eles que abriram o caminho. Graças a eles, a Bélgica ganhou projeção internacional no cinema e criou um sistema de apoio muito forte. Abriram um enorme sistema de financiamento. E é por isso que, num país pequeno onde estamos todos «uns em cima dos outros», temos tantas possibilidades de fazer cinema. O país decidiu investir, tal como fez com o futebol: queria brilhar.

Em que termos é que se investiu no cinema?

Valery Carnoy: Este viveiro de talentos também vem das grandes escolas de cinema que foram criadas. Temos escolas excelentes para um país tão pequeno. E depois existe também uma tendência para um certo surrealismo belga. Há códigos culturais que nos marcam. Tal como em Portugal.

Conhece bem o cinema português?

Valery Carnoy: Conheço vários realizadores portugueses e há uma forma muito própria de realismo mágico no vosso cinema. Quando um país é pequeno, mas desenvolve uma linha artística própria, consegue sair dos caminhos mais comerciais. Na Bélgica, o que nos pedem é fazer filmes que viajem pelo mundo através dos festivais. É um cinema competitivo, mas orientado para a criação artística. Enquanto noutros países, como França ou os Estados Unidos, existe uma lógica mais comercial e financeira.

João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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