Foi uma das presenças mais notadas e solicitadas no Festival de Cinema de Gabés, na Tunísia. Oliver Laxe, que viveu vários anos em Marrocos, fala ainda muito bem em árabe e sente-se que, como disse na masterclass, gosta das pessoas. De falar com elas, mas também de ouvi-las. Propusemos falar em castelhano, sugeriu responder em galego, acabámos por comunicar em francês. Mas o seu cinema, e o seu pensamento, são universais e atravessados por muitas culturas. Uma conversa que se partilha, com prazer, com os nossos leitores.
Na Masterclass disseste que, quando o teu pai fazia fotografias de família, estavas sempre a olhar para o lado. E que, como todas as crianças, necessitavas de ser amado. Quando fazes um filme, também o fazes para obter o amor do outro? Dito de outra forma, quando alguém adora um filme teu, como aconteceu com imensa gente com «Sirat», sentes essa paixão, não só como artista, mas espiritualmente?
Oliver Laxe: Claro. Efetivamente, a minha neurose poderia resumir-se a olhar para aquilo que faço e amar menos. Depois, nós não somos apenas neurose. E, às vezes, é preciso pôr a neurose a trabalhar. Eu ponho-a a trabalhar de forma positiva. Mas inevitavelmente também tenho essa necessidade. Portanto, quando alguém não gosta do meu filme, talvez haja momentos em que aparece a criança ferida. Claro que tento apoiá-la com o adulto que sou. Mas o problema é que essa máscara de que precisávamos quando éramos pequenos ainda a usamos, por vezes, em adultos. Mas pronto, há o adulto que vê isso, que observa isso, que percebe a maneira como mendigo amor, e portanto estou a trabalhar nisso. O que faz com que o meu cinema seja, espero eu, com o tempo, mais nobre, menos egótico.
Atualmente, o cinema é, na sua maioria, normalizado. Tu fazes cinema desde o início um cinema completamente fora dessa norma, como por exemplo «Sirat», que teve maior difusão e foi visto por milhões de pessoas. Quais foram os principais obstáculos que superaste para conseguires fazer o filme?
O principal obstáculo somos sempre nós próprios. Perguntam-me sempre se filmar no deserto foi fácil. Quais foram as dificuldades de «Sirat»? Financiar o filme? A maior dificuldade é sempre o artista. Vais conseguir sustentar o gesto? Tens fé no teu gesto? Tens fé na tua intuição? Essa fé é sólida? E eu tenho fé… tenho fé nos espectadores, tenho fé no cinema, tenho fé nas imagens. Mas tive dúvidas. Tive dúvidas porque era um gesto que eu sabia que era são. Mas vigias a tua intenção, vigias-te a ti próprio. Mas, ainda assim, houve momentos em que tive inseguranças. Não demasiadas. Quer dizer… no fundo, secretamente, eu tinha segurança. Sabia para onde ia, secretamente. E também estou muito bem acompanhado. Tenho bons produtores, escrevo com Santiago Fillol, que é argentino e que me ajuda a ser muito mais corajoso. Mas «Sirat» foi um salto para o abismo. Era um filme muito kamikaze. Devido ao tipo de relação que os espectadores têm com a morte no Ocidente. Mas fizemo-lo e o filme tem um equilíbrio que fez com que, graças a Deus, se conectasse com as pessoas.

Essa conexão que se manifestou de forma tão profunda foi uma surpresa para ti?
Sim, não sabíamos que o filme ia ser uma terapia de choque tão poderosa. Não sabíamos que ia ser tão forte, que ia provocar um efeito tão catártico nos espectadores. Quando estivemos em Cannes e vimos as pessoas a falar, a energia e tudo isso, foi aí que dissemos: sim, há feitiçaria neste filme. Eu estudo psicoterapia gestalt, que está muito ligada ao corpo e à forma como o corpo pode sentir coisas profundas. Portanto, estamos felizes. E neste momento estamos a recolher muita, muita, muita informação sobre a forma como os nossos corpos olham para um filme. E vamos ir ainda um pouco mais longe no próximo filme.
Que tipo de espectador precisas, para ver os teus filmes?
Não sei se preciso de espectadores, mas gosto que o meu cinema seja popular. Acho que é isso que torna o cinema interessante: outras culturas misturadas com cultura popular. E eu sou muito habitado pela cultura popular. E, sobretudo, o próximo filme vai ter muita cultura popular. Vai ser menos terapia de choque e mais terapia «seca».
Fico contente, e devo falar por milhões de outras pessoas, por te referires a um próximo filme, porque em Cannes disseste que não querias ser considerado um cineasta, que não querias ter essa obrigação de fazer um filme a seguir a outro.
Não me lembro de ter dito isso. O que digo é que, com cada filme, tens de te colocar a questão: és realmente um cineasta? O cinema é mesmo aquilo que deves fazer ou não? Em relação ao serviço, ao que o filme serviu ou não, aqui, claramente, a realidade disse-me que devo fazer outro filme. Isso é claro para mim, o sentido é muito claro. E tenho vontade, e já sinto um filme que me envenenou.
Isso deve-se então ao que se pode chamar o “efeito Sirat”?
Se assim se pode dizer, claro. E é devido ao presente em que me encontro. Um presente que acaba de ter uma relação muito fértil e muito bela com o público. Estar numa sala de cinema e ouvir alguém falar da sua experiência depois de ver «Sirat» é muito rico para mim, energeticamente. Nos debates, as pessoas não faziam perguntas. Precisavam de falar, da sua vida, do seu trabalho. Não era necessariamente falar do filme, era perceber como o filme as levou a olhar para dentro de si próprias. E isso é poderoso.

E «Sirat» não é apenas um filme para ver, é também um filme para ouvir. Porque essa experiência começa pelo som. Começamos o filme e somos logo invadidos pelo som.
Na minha sensibilidade, na maneira como concebo um filme, não sei onde a imagem acaba e onde o som começa. Não sinto isso, não sei. Para mim faz tudo parte da mesma escultura. É tridimensional, são as três dimensões. No processo criativo, nasce tudo ao mesmo tempo. Eu dancei este filme. Estava nas pistas e dançava imagens que tinham um som, uma música. E tenho vontade de aprofundar isso, de ir ainda mais longe.
O filme mudou muita gente, ou pelo menos mudou a maneira como nos sentamos numa sala de cinema. Achas que «Sirat» também te mudou enquanto pessoa?
Sim. Tenho menos medo de morrer. Tenho menos medo da morte. Sinto que também toquei muito na minha ferida. «Sirat» é, por vezes, um túnel escuro, mas há luz ao fundo do túnel. Acho que isso também é algo de que o Ocidente precisa: conectar-se mais com a sua carência, com a sua ferida. E eu tive um pouco a sorte de o fazer. Os sufis fazem-no. E isso mudou-me no sentido em que tenho um pouco a sensação de que… não sei… já não tenho tanto medo da morte. Tudo isto faz parte de uma prática de meditação sobre a morte, que faço mais ou menos.

Depois de passares anos em Marrocos e de fazeres grande parte do teu cinema nessa região, regressaste à Galiza, à casa da família. Agora voltas ao Magrebe, neste caso à Tunísia, falas árabe com as pessoas. Como te sentes aqui?
Em casa. Sinto-me compreendido como realizador. É verdade que existe também um olhar muito ocidentalizado. É verdade que os meus filmes podem frustrar um certo espectador aqui. Mas, ainda assim, acho que há coisas que ressoam aqui, na cultura. E isso alivia-me. Tenho de explicar menos o filme do que no Ocidente, para um certo tipo de espectador. Explicar um filme é terrível. Terrível. Porque significa que o realizador não fez bem o seu trabalho.
Se compreendemos um filme ao fim de cinco minutos, então o que fazemos na sala depois disso?
É um pouco isso. Ontem dizíamos: ninguém pretende compreender os seus sonhos. Mas, por outro lado, quando fazemos amor, não tentamos compreender, porque não compreendemos o amor. Sentimo-lo. Mas existe esta convenção social de que é preciso compreender uma obra de arte. E isso é um problema. É preciso mudar o eixo de como olhamos para uma obra de arte. E pronto, eu tento lembrar-nos um pouco disso. Claro que a cabeça é importante, mas é preciso equilibrá-la com outros níveis de perceção do corpo.
Tens consciência de que o filme causou um enorme impacto em milhares e milhares, de pessoas. Ultimamente viste algum filme que tenha tido um impacto assim em ti?
Sim. «O Riso e a Faca». Não o comparo a «Sirat», mas é um filme muito bom. Mais uma vez, Portugal mostra-nos um rigor, uma excelência. É um bom ano para o cinema português.
Sim, mas curiosamente, em Cannes este é o ano do cinema espanhol. Há três filmes em competição. E não há nenhum filme português em competição há vinte anos. O último foi do Pedro Costa. Bom, neste momento vives de novo na Galiza, não muito longe de Portugal…
Para mim, Portugal é importante. Para um galego, Portugal é importante. É um espelho. Às vezes sentimo-nos muito mais próximos de Portugal do que de Castela. Os meus distribuidores são do Porto, e quando estava no Porto, ouvia também jovens cineastas que vêm trabalhar muito para a Galiza. Não sei porquê, há menos relações do que deveria haver, politicamente e ao nível das comunicações.




