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Marcel e Monsieur Pagnol – Sylvain Chomet

Quem não se lembra da animação “Belleville Rendez-Vous” e da sa personagem de Madame Souza? Tratava-se então da primeira longa-metragem de Sylvain Chomet, que mais tarde viria a fazer “O Mágico”, sobre Jacques Tati. O realizador, já nomeado para quatro Óscars em Hollywood, atira-se agora a outra figura maior da cultura francesa do século XX, que acompanha da infância até se tornar famoso, em “Marcel e Monsieur Pagnol”. Estivemos a conversar com o realizador.

Lembra-se do primeiro contacto que teve com a obra de Marcel Pagnol?

Devia ter 10 ou 12 anos. Na escola tínhamos de estudar Marcel Pagnol. A primeira coisa de que me lembro é de ler “La Gloire de mon Père”. Eu na altura não gostava muito de ler, e foi a única vez que realmente gostei, porque ele estava a falar comigo, porque é sobre um rapazinho que anda a brincar nas colinas. Portanto, o meu primeiro encontro com Pagnol foi com o pequeno Pagnol, o pequeno Marcel.

Depois deve ter visto os filmes que ele próprio realizou.

Sylvain Chomet: Vi os filmes, porque estavam por todo o lado, mas não fiz logo a ligação, para ser sincero, com esse Pagnol. Nem sequer sabia que ele tinha feito teatro antes. Pouco a pouco, fui juntando as peças do puzzle e percebendo o quadro geral. Mas foi realmente quando comecei a fazer o filme que percebi a dimensão de tudo aquilo e de todo esse período entre ele enquanto criança e ele enquanto escritor, que começou apenas aos 60 anos.

É curioso que, em criança, já se sentisse atraído pela escrita dele. Essa nostalgia e essa ligação ao campo costuma atrair mais os adultos.

Sylvain Chomet: Sim, mas a infância de Pagnol era diferente da minha. Eu cresci no norte de França. Ia ao campo, mas era mais a paisagem da Normandia. O que ele descrevia, as montanhas, o mar, era algo muito exótico para uma criança de Paris. E é por isso que era interessante. Perder-se nas colinas, sentir medo…

Quando é que decidiu abordar uma figura tão mítica da cultura francesa?

Sylvain Chomet: Para ser sincero, não partiu de mim. Há cerca de oito anos conheci Nicolas Pagnol, e ele perguntou-me se eu apreciava a obra do avô. Eu disse que claro que sim e ele pediu-me para fazer algumas animações. E quando percebemos que podíamos “reviver” Pagnol, foi um sucesso. Toda a gente quis vê-lo vivo outra vez, sentir o Marcel, ver um novo filme de Marcel Pagnol.

Como é que foi a relação com o neto de Pagnol?

Sylvain Chomet: Nicolas tornou-se meu amigo. É uma pessoa adorável, e através dele tive um pouco de Pagnol à minha frente, e isso facilitou tudo. Se tivesse sido outra pessoa, menos generosa, nunca teria feito o filme. Foi mesmo um encontro com um Pagnol.

Mas sentiu pressão ao falar de alguém assim tão conhecido?

Sylvain Chomet: Sim, claro. Mas o interessante foi abrir a cortina sobre a vida dele. Porque conhecemo-lo aos dez anos e depois como académico, uma figura austera. Mas no meio, como era ele enquanto jovem? Como começou? Como se torna alguém como Marcel Pagnol? Isso é fascinante. Este miúdo que corre nas colinas… e depois torna-se um dos maiores nomes da literatura francesa. O que aconteceu? Faço sempre a comparação com Jesus: conhecemo-lo ao nascer e depois aos 33 anos. O que aconteceu pelo meio?

O seu filme não é só sobre Pagnol, mas sobre toda uma era do cinema francês. Sente nostalgia dessa época?

Sylvain Chomet: Não diria nostalgia. Mas estou impressionado com aquele tempo. Era uma época de enorme liberdade e mudança. Em cerca de 20 anos surgiram o cinema, os carros, os aviões, o telefone, a rádio, o cinema sonoro, a televisão… tudo durante a vida dele. Hoje vemos evolução técnica, mas não mudanças tão radicais.

Pergunta-se aos atores se é mais fácil ou difícil interpretar alguém real. No seu caso, em desenho, como conseguiu ser criativo e ao mesmo tempo fiel às feições reais?
Sylvain Chomet: Tive acesso a muita documentação, fotografias, filmes. O que fiz foi desenhar como queria que fossem. Criámos as cabeças digitalmente para ver como funcionavam, e os animadores tinham sempre uma referência. Trabalhei com um modelador para criar esses rostos a partir dos meus desenhos. Por exemplo, temos dez versões diferentes de Pagnol, dos 27 aos 61 anos. Foi interessante porque já pareciam vivos, bastava desenhá-los.

É interessante essa combinação entre técnicas analógicas e digitais.

Sylvain Chomet: Usamos todas as ferramentas disponíveis. Quando comecei, o meu primeiro filme foi totalmente tradicional, desenhado à mão, em celuloide. Mas as técnicas evoluíram, deixou de haver celuloide e tudo se tornou digital. Desta vez, usei CGI para criar referências de rostos, mas a animação continua a ser desenhada à mão. É muito clássica no processo, mas usamos as ferramentas disponíveis.

Imaginaria fazer um filme totalmente digital no futuro?

Sylvain Chomet: Hoje em dia, já não me interessa muito o CGI. Acho que chegou a um limite, os filmes começam todos a parecer iguais, as personagens parecem de plástico. Em termos de estilo, atingiu o máximo. A última vez que fiquei realmente impressionado foi com “Rango”. A estética, a fotografia, as personagens eram feias, sujas, reais.

E a Inteligência Artificial, pensa usá-la? O que acha dessa ferramenta gerar imagens?

Sylvain Chomet: Já experimentei. Não funciona para mim. Limpa tudo, torna tudo perfeito, aparecem modelos lindíssimos, e eu quero uma idosa imperfeita. Não consegue fazer isso. Acho que é uma tecnologia nova e que vai ser muito usada, mas não sei se na criação artística. Curiosamente, pode ser mais ameaçadora para advogados do que para artistas.

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João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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