Ao contrário do que poderá ser assumido, «O Mago do Kremlin» é um filme carente de força mágica. Abre-se de tal forma à convencionalidade do filme biográfico enquanto género, que a sua manifestação é apenas exteriorizada via uma dança de diálogos provocatórios que propõe expôr o verdadeiro jogo de poder no centro do governo russo, aquando da ascenção do agente do KGB Vladimir Putin ao seu primeiro mandato presidencial no novo milénio.
Baseado no romance homónimo de Giuliano da Empoli, o filme escrito pelo reputável auteur Olivier Assayas e o jornalista e escritor Emmanuel Carrère parte de uma narração dividida numa série de flashbacks, que se separam entre si com o ecrã a desvanecer-se no preto, de Vadim Baranov (Paul Dano), uma personagem ficcional que segue as arestas reais de Vladislav Surkov, o estratega que aconselhou Putin (Jude Law) entre 1999 e 2020, ao jornalista Americano e especialista em assuntos russos Lawrence Rowland (Jeffrey Wright). Durante a longa conversa entre os dois, onde nunca é referido o papel criativo da memória em relação ao passado, o caminho deste brilhante jovem é traçado. De artista a produtor de reality TV a gestor da política interna e comunicação do regime de Putin, este seria o retrato que traria para primeiro plano as crenças de Vadim quinze anos depois.
Por tudo isto, é um filme que não se queria singelo. Mas o que acaba retido é um relato enfraquecidamente Hollywoodesco (feito à medida e sem laços tensionais) encomendado a um autor que abdica da liberdade da sua voz, e seu habitual carácter lúdico, para laborar um projecto que à deriva permanece, vítima da falta de revelações. Chega a transbordar para o romantismo dos procedimentos ditatoriais! Mas até isso é momentâneo. Acaba por perder o espectador ao confundir o peso da sua pose cinemática com a profundidade do que tem para nos contar.
Composto por interpretações que, embora sólidas, se fazem de sotaques estranhamente britânicos e de uma corporalidade onde os actores nunca desaparecem nas personagens que interpretam, «O Mago do Kremlin» é fruto de uma literalidade que pertencia até há pouco tempo apenas à televisão e que cada vez mais tende a misturar-se às produções cinemáticas. Noutras palavras, existe nele uma impossibilidade de expansão, uma incapacidade de ultrapassar a repetição…o próprio devia ter ouvido Vadim quando este diz querer “fazer parte do presente. Não ser uma mera testemunha”. É nessa posição que Assayas deixa o espectador, entre a crítica e a completa falta de ponto de vista, derrubada em parte pela voz tranquilizante de Dano e sua tão neutra conduta.
Assayas contava replicar um labirinto esquemático e o seu fechar sobre si mesmo, mas para isso pedia-se gramática fílmica. Não basta apresentar sucessivos elementos narrativos. O autor sabe disso (fê-lo brilhantemente até aqui), e ainda assim deixa o seu filme bombear sem sangue.
TÍTULO ORIGINAL: Le mage du Kremlin
REALIZAÇÃO: Olivier Assayas
ELENCO: Paul Dano, Jude Law, Alicia Vikander, Tom Sturridge
ORIGEM: França, EUA
DURAÇÃO: 152 min.
ANO: 2025
Photo by carole bethuel – © carole bethuel | Courtesy of Vertical



