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Portobello – Marco Bellocchio

Marco Bellocchio fala sobre a mini série “Portobello”, disponível na HBO Max.

Um dos maiores cineastas vivos e ainda em plena atividade, o italiano Marco Bellocchio, com uma carreira que se estende por praticamente sessenta anos, volta a interessar-se pela história recente do seu país, nomeadamente o período das décadas de 1970 e 1980, e também pelo formato de mini série de televisão. «Portobello» reconstitui a história de Enzo Tortora, autor do programa de televisão que dá o nome à série, e que era a mais vista do seu tempo em Itália, até ao seu apresentador ser envolvido e injustamente condenado por uma ligação a redes mafiosas. Fabrizio Gifuni, que trabalha regularmente com o realizador e curiosamente já fez de Aldo Moro num filme de Marco Tullio Giordana, é o protagonista. No programa original, ganhava um grande prémio monetário quem conseguisse fazer falar o papagaio que era o seu símbolo. Estivemos a conversar com Marco Bellocchio.

Não é a primeira vez que trabalha sobre este período da história italiana.

Interessa-me a História, naturalmente a história de Itália. Embora nunca tenha participado diretamente num partido, num movimento ou na política ativa, sempre me interessei por esses acontecimentos. Em 1968 ainda existia uma ideia de revolução, uma espécie de utopia. Nos anos 70, com o terrorismo e o assassinato de Aldo Moro, tornou-se evidente uma participação emocional, mesmo que não direta, nesses acontecimentos.

Alguma vez sentiu que a sua vida poderia estar em perigo ao lidar com este tipo de temas?

Não, nunca me senti realmente em perigo, nem pensei que estivesse a arriscar fosse o que fosse. Quando fiz «O Traidor», a história sobre Tommaso Buscetta, o mafioso arrependido, algumas pessoas disseram-me para ter cuidado, mas, na verdade, não houve qualquer intimidação nem avisos ou ameaças.

A história que conta passou-se num momento muito crítico da vida italiana.

Portobello começa numa fase em que o terrorismo atinge o seu auge, mas também começa a dissolver-se rapidamente. A prisão de Tortora ocorre em 1983, num momento em que se prepara uma outra Itália. Os grandes monopólios partidários começam a enfraquecer e surge uma nova realidade, como a televisão privada. Em Itália existia apenas a televisão pública, um domínio completo da política. Depois surge Berlusconi, as televisões privadas, o Partido Socialista promove essas aberturas.

O seu trabalho consistiu em transformar figuras públicas em personagens fortes de ficção.

Toda esta história foi interessante para mim, mas sempre através das personagens, dos temas humanos. Gosto da História, mas não sou historiador. Interessa-me representar fragmentos da História através das histórias dos protagonistas. Neste caso Aldo Moro e Enzo Tortora, figuras muito diferentes, mas que me permitem incluir episódios, imagens e acontecimentos da história italiana nos meus trabalhos.

«Em 68 existiu uma ideia de revolução, mas foi uma utopia»

A série faz reviver um período em que a televisão parecia reinar de forma absoluta, capaz de controlar a sociedade. Hoje, há o streaming, as redes sociais…

Os números de audiência de «Portobello», 28 milhões de espectadores, hoje seriam impensáveis. Talvez apenas o discurso de fim de ano do Presidente da República consiga algo semelhante. Naquela altura, metade da população italiana via Portobello ao fim de semana. Hoje isso já não é possível. Existe uma fragmentação enorme entre canais e plataformas. Atualmente, atingir quatro ou cinco milhões de espetadores já é considerado um sucesso extraordinário.

A que se deveu o sucesso de «Portobello»?

Enzo Tortora era uma pessoa muito inteligente e não pretendia que o programa fosse filosofia ou doutrina. Nesse sentido, «Portobello» foi também uma espécie de oficina, um laboratório. Muitos formatos e ideias que surgiram ali tornaram-se grandes sucessos televisivos nos anos seguintes. Para quem estuda a televisão daquela época, Portobello é um objeto de estudo sociologicamente muito importante. Hoje tudo é diferente, tudo mudou profundamente. As diferenças são evidentes para todos.

Pode comparar a liberdade que sente ao trabalhar no cinema com a liberdade que tem ao trabalhar no formato de série televisiva?

Senti-me muito livre. Escrevemos o guião e, inesperadamente, a HBO entrou no projeto, mas sem qualquer censura. Houve apenas pequenas observações mínimas. Sentimo-nos completamente livres, inclusive na fase de montagem. Algumas pessoas alertaram-me que as plataformas americanas costumam ser muito exigentes, mas neste caso houve uma liberdade total.

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João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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