Por muito que venere o grande mestre (leia-se John Williams), nunca lhe perdoarei o facto de me ter provocado um trauma irreversível. Após o meu primeiro visionamento de «Tubarão», (não consigo precisar o ano, para ser sincero) deixei de ser capaz de nadar em qualquer mar de praia sem deixar de evocar na minha cabeça o nefasto ostinato de duas notas nos violoncelos, motivo condutor que prenuncia, na partitura do filme, a aproximação do pavoroso animal marinho. “Até hoje, acredito que a banda sonora tenha sido claramente responsável por metade do sucesso do filme”. As palavras são de Steven Spielberg, a propósito da música deste seu emblemático filme. Na realidade, é espantoso verificar como um semitom ascendente – o âmago, digamos assim, de toda a partitura -, pode causar tanta mossa.
Esta edição definitiva da banda sonora de «Tubarão» surge sob o selo da Intrada Records a propósito do quinquagésimo aniversário da sua estreia. É o quarto álbum da banda sonora de «Tubarão» a ser lançado no mercado. O primeiro álbum, da MCA Records, com 35 minutos de duração, havia saído em 1975. Mas não se tratava da gravação original. Na verdade era uma regravação feita pelo compositor, com diferentes nuances, da música escutada no filme. Um disco que, curiosamente, propiciou a Williams o seu primeiro Grammy. Em 2000 Joel McNeely dirigiu a Royal Scottish National Orchestra numa nova gravação da partitura completa, edição da Varèse Sarabande. Nesse mesmo ano, a Decca Records finalmente disponibilizou a gravação original dirigida por Williams, coincidindo com o lançamento de uma edição especial do DVD do filme. Esta nova versão inclui 3 CDs e é uma representação perfeita da obra icónica de Williams que alcançou o Óscar para melhor partitura original em 1976. O primeiro disco apresenta a partitura integral, o segundo disco é uma remasterização da já citada edição da MCA Records e o terceiro disco contém sequências musicais alternativas não incluídas no filme e quatro faixas de música diegética (ou source music) escutadas em cenas passadas na praia de Amity Town (Original Rag, Winter Stories Waltz, Thousand And One Nights Waltz, In The Good Old Summer Time). De entre o enorme e rico leque de faixas que compõem os três discos, sobressaem, acima de todas, Main Title and the Beach Attacks e Theme from Jaws (Variation), duas inéditas variantes de uma das aberturas mais poderosas da história da música para cinema.
E quando pensávamos que tudo já se tinha escrito sobre a música de «Tubarão» deparamo-nos com “The Jaws Music Log”, o livrete de quarenta páginas da autoria do produtor e historiador Mike Matessino que acompanha esta extraordinária edição e que é um tratado. Louvores, portanto, a Matessino. Em síntese, um álbum que é um objeto valioso e que nos faz querer continuar a colecionar CDs numa época em que o digital açambarca o mercado.




