Permitam-me voltar a colocar em destaque mais um título do século passado que, pela importância que tem, e, principalmente, pelo facto de estar a ser disponibilizado pela primeira vez no mercado, não pode deixar de ser aqui mencionado. Refiro-me a «Linha Mortal» [«Flatliners»] (1990) de Joel Schumacher, cuja banda sonora, só agora disponível em disco, demorou trinta e cinco anos a ser comercializada. Este filme de culto sobre um grupo de estudantes de medicina que decide desafiar os limites da vida e da morte era uma mistura de géneros entre o thriller, o suspense, o terror psicológico e a ficção científica e reunia um elenco jovem e multitalentoso onde pontificavam nomes como Kiefer Sutherland, Kevin Bacon e Julia Roberts.
James Newton Howard, hoje em dia reconhecido como um dos grandes mestres do ofício da arte da composição para cinema, trabalhou no início da carreira com nomes do universo pop como Elton John ou Toto, tendo efectuado a transição para o mundo das bandas sonoras em 1984 através da mítica banda norte-americana que na altura compunha a música para «Duna» [«Dune»]de David Lynch. Schumacher contratou Newton Howard depois de ouvir a sua música para uma pequena comédia romântica de Michael Hoffman, «As Minhas Férias em Casa Dela»[«Some Girls»] (1988). O realizador, acreditando, desde logo, nos instintos e nas multivalências musicais do compositor, conferiu-lhe total liberdade criativa. O orçamento do filme deu também a possibilidade a Newton Howard de trabalhar pela primeira vez com uma grande orquestra e um coro.
O baluarte da partitura de «Linha Mortal» é uma ideia melódica de natureza lírica que representa a ideia de redenção (por sinal, o tema principal do próprio filme), introduzida na sexta faixa do disco, Nelson Flatlines. A primeira faixa, Flatliners Main Title, combina com o genérico inicial e é a primeira grande demonstração do enorme talento do compositor: uma assombrosa peça para orquestra, coro e electrónica, com um evidente simbolismo religioso, que deixa marca, preparando o espectador para os extraordinários acontecimentos prestes a ocorrer. Flatliners End Titles desponta sobre os créditos finais e emociona-nos com as repetidas aparições do tema da redenção, entoado pelo coro. Para além da partitura completa do filme o disco contém ainda uma sequência de extras composta por seis demos e dois temas alternativos. Do vasto catálogo da Intrada Records de 2025 este é, indiscutivelmente, um dos títulos mais impactantes, não estivéssemos perante a obra que impulsionaria definitivamente a carreira de James Newton Howard em Hollywood.




