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Pillion

«Pillion» é a primeira longa-metragem do realizador Harry Lighton, e para ínicio, o resultado comprova o reconhecimento do talento do mesmo: três nomeações para os BAFTA, nas categorias de Melhor Argumento Adaptado, Melhor Filme Britânico e Melhor Estreia de um Realizador, Produtor ou Argumentista Britânico, tendo já vencido o galardão do Melhor Filme Independente Britânico nos British Independent Film Awards, onde esteve igualmente nomeado nas categorias de Melhor Argumento, Melhor Realizador, Melhor Ator e Melhor Ator Secundário. O reconhecimento crítico desta obra no panorama do cinema britânico contemporâneo é incontornável.

Baseado livremente no romance de Adam Mars-Jones, “Box Hill”, o projeto encontrou o seu centro não na provocação sexual, mas na dinâmica de poder, devoção e identidade entre Colin (Harry Melling), um homem tímido e sem rumo, e Ray (Alexander Skarsgård), um atraente motard carismático, dominante e enigmático. Depois de um encontro fortuito, a relação de ambos torna-se uma obsessão por parte de Colin, naquela que é a sua maior viagem na procura da sua identidade e na sua abertura ao desejo e prazer. Até onde pode ir esta devoção?

Pillion é um termo usado no universo das motas para designar o lugar do passageiro, o assento de trás. Quem vai “em pillion” não conduz: simplesmente agarra-se, segue, confia, entrega-se a quem vai à frente. No contexto específico dos motards gays, o termo ganha um significado adicional: pillion passa também a designar o submisso na relação. Não é apenas uma posição física, mas uma posição relacional e simbólica — alguém que aceita não liderar, que se coloca atrás, que depende da direção e das regras do outro.

É nesta posição de observação e de uma forma bastante delicada, mas igualmente impactante e por vezes explícita, que o realizador se coloca. Lighton não procura normalizar nem condenar a relação entre Colin e Ray; o objetivo é observar, com honestidade, o que acontece quando desejo, devoção e identidade entram em conflito. No final, acrescenta-lhe um toque de ternura e esta é apenas uma historia de amor, desequilibrada, é certo, mas ao mesmo tempo de alguém que simplesmente se perde nos tentáculos do amor, do desejo e do lugar que ocupa.

Nas entrelinhas, «Pillion» representa igualmente uma reflexão sobre a forma como herdamos valores e opiniões — da família, da sociedade, dos algoritmos — e sobre a urgência de os questionarmos criticamente, em vez de os reproduzir automaticamente.

No fim, o filme deixa uma pergunta incómoda e essencial: até onde estamos dispostos a ir, não apenas na relação que desejamos, mas na parte de nós próprios que estamos dispostos a abdicar para caber nela?

Titulo original: Pillion Realização: Harry Lighton Elenco: Alexander Skarsgård, Harry Melling, Douglas Hodge Reino Unido, Irlanda Duração: 106 min 2025

Sara Afonso
Sara Afonso
Entrou para o jornalismo há mais de 20 anos, ainda antes de terminar o curso de Comunicação e Jornalismo. Estagiou no jornal O Jogo, na área de cultura e cinema e, no final do curso, entrou no jornalismo especializado de Tecnologia, nas revistas Connect, Casa Digital e T3. Em 2011, aceitou a direção do seu projeto de sonho: a revista de cinema Empire, o bilhete dourado para conhecer e entrevistar estrelas do cinema e da TV, para comentar eventos de cinema e para ser júri em festivais de cinema nacionais. Por fim, assumiu a coordenação de vários projetos de imprensa, em áreas como surf, fitness, gastronomia, vida selvagem, mindfulness e criatividade, alimentação saudável, entre outros, sempre mantendo a colaboração na área do cinema, com a revista digital METROPOLIS. Já escreveu livros, criou perguntas para um famoso programa de televisão e contribuiu com a sua escrita para um projeto deslumbrante sobre o Oceano, (Oceans and Flow). Recentemente, voltou ao mundo das revistas, mas, como alguém disse um dia: “A partir do momento em que participam na descoberta mágica do cinema, este torna-se o vosso amor para sempre.

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