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Misericórdia

«Misericórdia», de Emma Dante («As Irmãs Mancuso»), é uma história de amor que literalmente se desenvolve no meio do lixo. Há filmes que nos confortam e outros que nos esmurram e comovem. Este é do segundo tipo, daqueles que nos deixam bastante incomodados. Em “Misericórdia”, Emma Dante volta à sua Sicília natal e oferece-nos uma fábula dura como pedra-pomes, suja como um aterro e terna como um colo de mãe. Quer dizer, três mães. Prostitutas. Num barraco à beira-mar.

O protagonista é Arturo (Simone Zambelli), adolescente mudo, epiléptico e com idade mental de uma criança. Vive num ambiente hostil, cercado de lixo, homens violentos e uma montanha que cospe pedras como castigo divino. Mas Arturo é amado. Por Betta, Nuccia e Anna, três prostitutas que o tratam como filho, com tapas e beijos, gritos e ternura. O amor é bruto, mas é real. E é o que o salva.

Emma Dante, dramaturga e encenadora siciliana, regressou ao cinema — a partir de uma peça de teatro que já levou à cena — com um filme marcado pelo rigor teatral e uma envolvente poesia visual. A câmara não se mexe muito, mas tudo o que vemos mexe connosco e à nossa volta. A fotografia é quente, abrasiva, cheia de sol e pó. O mar é uma personagem do filme. O lixo também. Tudo fede e brilha ao mesmo tempo. É uma Sicília bíblica e grotesca, mas onde há vida, mesmo que ela venha dos escombros e da pobreza.

Simone Zambelli, no papel de Arturo, é um milagre de interpretação: dança, sofre, corre, contorce-se, sem uma única palavra. Está sempre à flor da pele, e é impossível não sentir tudo com ele. E as três mulheres que o protegem são o coração do filme: frágeis e ferozes, capazes de tudo por um gesto de compaixão.

«Misericórdia» é um filme que não nos embala. Pelo contrário, incomoda. Revolta. Mas também emociona. Não é um cinema social piedoso, é teatro trágico com cheiro a sardinha e suor. Uma tragédia grega com sotaque siciliano. E o plano final… é de cortar a respiração. Talvez a música final (Claudio Baglioni) seja um bocadinho kitsch. Mas quando já chorámos tudo, quem se importa com esta música? “Misericórdia” é cinema que dói, mas também cuida. Emma Dante não suaviza a miséria. Mas encontra beleza no inesperado. E lembra-nos que o amor, por vezes, também vive entre o lixo.

Título Original: Misericordia Realização: Emma Dante Com: Simone Zambelli, Simona Malato, Milena Catalano, Fabrizio Ferracane, Carmine Maringola, Sandro Maria Campagna, Tiziana Cuticchio. Origem: Itália Duração: 95 minutos Ano: 2023

José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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