Em «Riddle of Fire», Weston Razooli estreia-se na realização de longas-metragens com uma aventura onde o maravilhoso, o absurdo e o pueril se entrelaçam num mundo deliberadamente anacrónico, rodado em película de 16mm com grão visível, filtros desmaiados e cores terrosas que remetem ao baú de VHS dos anos 80 em deliberada oposição à estética cristalina do streaming contemporâneo. O filme acompanha três crianças — Alice, Hazel e Jodie — que, tendo roubado uma consola de videojogos, enfrentam o inesperado desafio de desbloquear a televisão da casa, protegida por um código secreto que a mãe de Hazel só revelará em troca de uma tarte de mirtilo. Esta demanda doméstica ganha contornos de epopeia quando a pastelaria está fechada e o trio embarca numa missão pelas florestas, lojas, quintais e quintas da sua pequena cidade, na tentativa de obter um raro “ovo malhado”. A estrutura narrativa evoca um conto de fadas desmontado, onde cada etapa da jornada é povoada por personagens que parecem saídos de jogos de RPG analógicos, como o gangue ocultista Enchanted Blade Gang, liderado pela enigmática e ameaçadora Anna-Freya, espécie de bruxa moderna com aura maternal. A música de sintetizadores góticos, os diálogos artificiais e o tom semi-encenado das interpretações não são falhas, mas parte do artifício: um universo onde as crianças vivem não só fora da supervisão dos adultos, mas fora da sua lógica.

Esse carácter insurrecto, quase utópico, onde a infância não é retratada como fragilidade mas como potência, aproxima «Riddle of Fire» de um clássico muito distinto mas espiritualmente afim: Pippi Långstrump (Pipi das Meias Altas), a criação literária de Astrid Lindgren adaptada para televisão em 1969 por Olle Hellbom. Tal como a indomável Pipi, estas crianças vivem num universo onde as regras são maleáveis, a autoridade adulta é risível ou hostil, e a liberdade se exerce como uma forma de soberania quase mágica. Alice, com o seu cabelo desalinhado, olhar felino e lógica irredutível, poderia ser uma herdeira espiritual de Pipi, movida por um código de honra só compreensível àqueles que, como ela, rejeitam o realismo emocional dos adultos. Mas Razooli não se limita a evocar esta herança escandinava da infância como rebeldia encantada — o seu filme funciona como uma tapeçaria de acenos intertextuais que inclui o espírito aventureiro de «The Goonies» (1985, Richard Donner), onde um grupo de miúdos se lança numa demanda arqueológica cheia de armadilhas e códigos secretos; a lógica mitológica de “The Legend of Zelda “(estreado em 1986, Shigeru Miyamoto para a Nintendo), em que o protagonista avança por reinos mágicos enfrentando criaturas, ganhando relíquias e atravessando portais para salvar uma figura materna; a ternura lírica de «Stand by Me» (1986, Rob Reiner), onde quatro amigos atravessam florestas em busca de um cadáver e encontram pelo caminho a vulnerabilidade do fim da infância; e até o simbolismo místico e alegórico de “El Topo” (1970, Alejandro Jodorowsky), em que a jornada física é também espiritual e onde a violência, o ritual e o grotesco têm a função de elevar — ou destruir — o protagonista. Todos estes ecos convivem em «Riddle of Fire» como referências absorvidas e recriadas, e não como pastiches. A diferença essencial está no olhar: onde os filmes citados olham para a infância de fora (com nostalgia, compaixão ou fábula), Razooli filma a partir dela, com a câmara ao nível dos olhos, onde a realidade se curva, o perigo é jogo e o ridículo é também sublime. É nesse sentido que «Riddle of Fire” é mais do que um filme sobre crianças — é um filme dentro da infância, como se fosse ela mesma a escrevê-lo.

Apesar da sua estética encantatória e dos acenos intertextuais, o filme sofre por vezes de uma certa dispersão narrativa. As várias pequenas missões e desvios da trama enfraquecem o arco central, tornando a progressão menos fluida e mais episódica. Os diálogos são deliberadamente estilizados, quase arcaicos, o que acentua o tom fabulado mas nem sempre favorece a naturalidade dos jovens actores. A relação que se estabelece com Petal, filha da antagonista, oferece uma nota de ternura e cumplicidade que equilibra os excessos de artifício e recupera o tema de uma infância capaz de criar laços sinceros em contextos improváveis. O confronto final, mais simbólico do que épico, reencena uma lógica de duelo, desprovida de violência gráfica mas impregnada de tensão emocional. O filme encerra com os protagonistas de volta ao seu lar, consola ligada, mas agora — e talvez pela primeira vez — com a verdadeira recompensa: o sentimento de terem vivido algo que os adultos jamais compreenderiam. «Riddle of Fire» é, em última análise, menos um filme de aventuras do que um artefacto poético sobre a infância como território da invenção. O que o realizador propõe não é um pastiche nostálgico nem uma sátira ao escapismo, mas uma tentativa sincera de construir um universo paralelo onde a imaginação tem força de lei e a liberdade se pratica em gesto e fantasia. Há algo de profundamente artesanal nesta obra: desde o grão da película à estrutura episódica, tudo nos convida a ver com olhos desacostumados, como se estivéssemos a redescobrir o prazer de brincar sem supervisão nem destino. E se por vezes o filme tropeça na sua própria exuberância, é também aí que reside o seu encanto — como uma criança que inventa regras novas a meio do jogo, não por incoerência mas por excesso de mundo interior. Um cinema que não procura eficiência nem verosimilhança, mas sim a faísca que transforma o banal em mágico. Como um ovo malhado, que, de tão comum, acaba por se tornar sagrado.
Título original: Riddle of Fire Realização: Weston Razooli Elenco: Lio Tipton, Charles Halford, Skyler Peters, Charlie Stover Duração: 115 min. EUA, 2023




