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INTERDITO A CÃES E A ITALIANOS

«Interdito a Cães e Italianos» conta uma pequena parte da história da minha família. Parte da história da família do meu vizinho do lado, e, muito provavelmente, também da sua, caro leitor. Contada por um francês, neto de emigrantes italianos, a história de «Interdito a Cães e Italianos» leva-nos a atravessar todo o século XX, desde a Primeira Guerra Mundial, passando pela Gripe Espanhola, o fascismo na Europa e o despontar do sonho americano. Entre mortes e nascimentos, conta-se a história da resistência, das dificuldades e sacrifícios de uma geração inteira que teve que aprender a sobreviver numa terra que não era a sua, mas que muitos fizeram sua.

Assim, e apesar de partir de uma experiência muito pessoal do seu realizador, Alain Ughetto, o filme tem uma forte dimensão universal que o formato, animação em stop motion, também ajuda a reforçar. Em entrevista à METROPOLIS (ler aqui), Ughetto recorda como em miúdo costumava observar o seu pai enquanto este modelava pequenas figuras com os quijinhos Babybel. A sua paixão pela animação poderá muito bem ter começado aí, com esse gesto simples, com as mãos. Tanto no início como no final do filme, são justamente as mãos de Ughetto que vemos, a construir os cenários e personagens que irão dar corpo à narrativa familiar, repetindo movimentos que desafiam a rigidez do tempo linear.

«Interdito a Cães e Italianos» não é (só) um filme sobre o passado. É também sobre o presente e até talvez sobre o futuro que não queremos ver. É sobre uma realidade que, de tempos a tempos, lá surge nos rodapés dos telejornais a propósito de “mais uma tragédia” ao largo da costa italiana. A memória, que o cinema também ajuda a preservar e debater, deveria servir-nos de alguma coisa. Acredito que quem assistir a este filme não poderá deixar de se questionar sobre a repetição dos mesmos erros e sobre a necessidade de mudar de rumo. Quem serão os cães e os italianos para quem as portas estão sempre fechadas?

Título Original: Interdit aux chiens et aux italiens Realização: Alain Ughetto Vozes: Ariane Ascaride, Alain Ughetto, Stefano Paganini Duração: 70 min. França/ Itália/Portugal, 2022

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº93, Maio 2023]

https://www.youtube.com/watch?v=0LnTMBn7bXk
Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

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