No páreo do Globo de Ouro de 2025 com dois filmes diferentes, mas unidos pelo interesse em radiografar expressões artísticas essenciais ao ethos poético do século XX, Richard Linklater juntou uma nomeação ao Urso de Ouro com «Blue Moon», em fevereiro de 2025, e à Palma de Ouro, com «Nouvelle Vague», em maio de 2025. Fora as cinco nomeações ao Óscar no seu currículo, a sua trilha de prestígio foi consagrada por uma exposição misturada com uma retrospectiva organizada no Centre Pompidou, de Paris, em 2019, com foco nas suas ideias e no seu existencialismo. Existe um simbolismo de desapego presente na carreira do cineasta norte-americano, hoje com 65 anos, que se faz notar desde a sua estreia, com «Woodshock» (1985), uma curta-metragem experimental sobre a cena do rock alternativo. Essa postura de desdém diante do materialismo mais cartesiano se faz notar até a obras mais recentes, o sucesso como «Assassino Profissional» [«Hit Man»] (2023), lançado mundialmente em 2024. A tal exposição francesa — composta por fotos de bastidores, vídeos e acompanhada de uma mostra de filmes — ganhou ainda mais destaque diante da expectativa em torno de «Merrily We Roll Along», musical que Richard Linklater vai rodar ao longo de vinte anos (2019–2039) e que ainda não tem data de conclusão.

Especula-se que, quando for lançado, o filme volte a colocá-lo na disputa por grandes prémios — afinal, em 2014, ele deixou Berlim com o troféu de Melhor Realização por «Boyhood». Ali, ele já se detinha sobre o avanço do Tempo nas nossas vidas. Linklater gosta de acompanhar a forma como lidamos com o quotidiano, e não tem medo de usar a palavra para isso.

Ele firmou-se com um cineasta autodidata. Aprendeu na prática, sempre a filosofar sobre o próprio processo. Essa filosofia norteia o livro “Cinéaste du Moment”, publicado pela Post-Éditions Débordements e vendido pelo Centre Pompidou. “Falar da juventude é falar de privilégios, mas também de irresponsabilidade”, diz o realizador em uma das entrevistas incluídas no volume, que reúne conceitos e reflexões que o centro parisiense dedicado à arte contemporânea procurou celebrar.

Nas paredes daquela mostra, víamos fotos do jovem Richard, cenas de sets de «Antes do Amanhecer» — premiado com o Urso de Prata de Melhor Diretor em 1995, em Berlim — e um painel apresentando a evolução dos personagens de «Boyhood» ao longo dos doze anos de filmagens.

O seu cinema é marcado por parcerias, com recorrência constante de Ethan Hawke. Fez ainda animação, em filmes de culto como «Waking Life» (2001). Conversa-se sem parar nele, tal como se fez em «Antes do Amanhecer» (1995). Nem sempre os diálogos resolvem as situações nas narrativas, compostas por planos médios, closes ou longos planos-sequência tão característicos do cineasta. Mas a saliva que se produz nas suas histórias sacraliza o direito à dúvida e a busca pela liberdade. É a sua onda. E ela leva-o a um encontro com Godard em «Nouvelle Vague».

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