Para melhor analisarmos e para melhor nos prepararmos para o visionamento de «September 5» («O Atentado de 5 de Setembro»), 2024, escrito e dirigido pelo suíço Tim Fehlbaum, precisamos de recordar o enquadramento daquilo que o realizador e os restantes argumentistas (Moritz Binder e Alex David) propuseram como núcleo fulcral e pano de fundo da ficção baseada em factos reais ocorridos durante os Jogos Olímpicos de Verão na cidade de Munique, precisamente a 5 de Setembro de 1972. Desde o dia 26 de Agosto que os jogos decorriam sem incidentes na então República Federal Alemã, período durante o qual se concentraram naturalmente as mais diversas atenções mediáticas nas modalidades desportivas. Nada fazia prever que um comando de oito guerrilheiros palestinianos do grupo Munaẓẓamat Aylūl al-Aswad, ou “Setembro Negro”, assaltasse a aldeia olímpica, onde mantiveram como reféns onze membros da delegação israelita (cinco atletas, quatro preparadores físicos e dois árbitros). Os palestinianos exigiam a libertação de um número significativo de militantes árabes e não árabes encarcerados nas prisões de Israel e ainda a de um dos fundadores da “Rote Armee Fraktion”, a célebre Ulrike Marie Meinhof, detida numa cadeia alemã. Sim, nada fazia prever o assalto que acabou por se concretizar com relativo sucesso, mas uma pergunta ficou para sempre no ar: onde estavam os serviços secretos e a necessária segurança montada para um acontecimento desta natureza? E o que se passou a seguir não veio desmentir, mas sim corroborar, a opinião veiculada por muitos que colocaram o dedo na ferida, criticando severamente o acompanhamento e sobretudo o desfecho desta crise, que acabou mal por manifesta falta de competência das autoridades alemãs para enfrentar e combater operações paramilitares deste calibre. Se fizermos um juízo fino do que se passou, o igualmente apelidado Massacre de Munique deu-se em larga escala no aeroporto militar de Fürstenfeldbruck, já com os sequestradores e uma parte dos reféns a caminho de uma fuga planeada e imposta por negociações que não obtiveram os resultados que podiam e deviam ser expectáveis. Dito isto, para quem quiser ir mais longe na abordagem desta matéria e na dos acontecimentos daquele dia, sugiro que procurem o documentário de longa-metragem «One Day in September», 1999, de Kevin MacDonald, que muito justamente acabou premiado com o Óscar na respectiva categoria.

Passemos agora ao filme em si e ao que ele nos oferece. A primeira constatação, assim como a mais grata surpresa da sua aposta ficcional, reside na visível opção dos produtores não procurarem fazer aqui a mera cronologia dos acontecimentos, junto com mais ou menos palha ou rodriguinhos dramáticos pelo meio. Mais importante ainda, não se procura a superficialidade dicotómica entre as chamadas forças do bem contra as do mal, que contaminam certas obras de um sectarismo ideológico completamente redutor e por isso ineficazes mesmo no seu propósito, na maior parte dos casos, propagandístico. Por fim, não se pronunciam juízos de valor sobre os protagonistas daquele dia, a não ser em função de critérios jornalísticos. Terroristas ou guerrilheiros, como os apelidar? Esta será uma das discussões mais curiosas, mas pertinentes, que se levantam quando os responsáveis pela equipa da ABC Sports (American Broadcasting Company) necessitam de se referir aos militantes do “Setembro Negro”. Tudo no quadro de uma emissão maioritariamente ao vivo a partir dos estúdios instalados não muito longe da aldeia olímpica, com vista mais ou menos directa para o edifício onde durante vinte e duas horas se cobriu o desenrolar de algo que ultrapassava em muito a normalidade do quotidiano de uns jogos olímpicos. E, por incrível que pareça, mesmo contra as mais enérgicas pressões, os jogos não foram interrompidos, sofrendo apenas um abalo que se procurou minimizar, diga-se, sem grande efeito. Falo por mim, que na época assisti ao sucedido, e garanto que não se falava de outra coisa. Se houve alguma grande competição desportiva nesse dia, foi seguramente remetida para segundo plano.

O poder das imagens e dos sons, que quase sempre funcionam como face da mesma moeda no contexto da Live TV, será no filme a mola propulsora da narrativa. Por isso, muita da sensação de verdade que dela sobressai vem do modo como foram reconstituídas com minúcia e precisão as condições em que uma equipa de jornalistas e profissionais de TV se relacionava e interagia no exercício da sua missão pelos bastidores e, com as devidas precauções e alguns expedientes que são os chamados ossos do ofício, pelas múltiplas frentes do que se estava a passar. Por outro lado, a inserção de preciosos materiais de arquivo veio sublinhar e reforçar uma clara dimensão do real na conjugação com a “verdade” que para o filme foi reconstituída. Acrescento ainda que os materiais audiovisuais (aspecto geral da régie, câmaras, gravadores, mesas de montagem, aparelhos de comunicação) e ainda uma boa parte das metodologias laborais (que passam mesmo pela reinvenção de artifícios que permitiram manter uma emissão ao vivo, num contexto de concorrência com outros canais), não podiam ser mais compatíveis com um retrato fiel e q. b. de um canal de TV da época. Quando em Outubro de 1979 entrei na RTP, a maioria dos equipamentos eram iguais ou similares aos que vemos no filme. Para os nostálgicos do analógico, assistir a «O Atentado de 5 de Setembro» vale pelas memórias que desperta. Deliciosa, por exemplo, a maneira como se vê um membro da equipa responsável pela gravação vídeo a desacelerar manualmente uma bobine para simular um slow-motion. Neste contexto em que cada actor ocupa um lugar claro e definido, o destaque vai sobretudo para os responsáveis operacionais ou editoriais, a saber, John Magaro no papel de director operacional no estúdio da ABC em Munique, e Peter Sarsgaard no de produtor executivo. Mas outros juntam-se a estes no alavancar da missão de levar a notícia ao pequeno grande ecrã. De entre eles o destaque vai para uma personagem de ficção, a de uma jovem idealista alemã, representada por Leonie Benesch, intérprete e elo de ligação com os profissionais que não dominam o idioma inglês. Todavia, o foco principal deste filme será a partir de certa altura desviado, e bem, para um dilema maior que envolve muito mais do que pessoas ou as suas inerentes competências, por mais influentes que sejam do ponto de vista profissional ou humano. Esse dilema será levantado e provoca justificada apreensão quando, após os esforços para colocar as câmaras o mais próximo possível do edifício onde o pior ocorria, apontando-as para as fugazes aparições dos guerrilheiros na varanda e janelas dos apartamentos ocupados, se inicia a cobertura em directo das operações policiais destinadas a assaltar os quartos onde os reféns permaneciam sequestrados. De repente, quer a ABC quer o mundo inteiro perceberam que, se nós estávamos a assistir, o comando palestiniano via igualmente o que se passava nos aparelhos de TV instalados nos alojamentos da aldeia olímpica e, logo, sabia qual a movimentação e posicionamento da polícia. E aqui surge outra vez a pergunta para um milhão de dólares, ou se quiserem, para um milhão de marcos. Devemos parar uma emissão com relevância histórica e cortar a captação das imagens e sons em directo, quase poderíamos dizer, quebrar as mais básicas regras do jornalismo, para facilitar uma operação policial? Temos o direito de impedir a visão daquilo que se passa num determinado momento, por mais grave e violenta que a situação possa ser? Ou, como alguém questiona no filme, será que podemos mostrar alguém a ser baleado? Bom, no final saberemos qual foi a resposta da polícia alemã e assistiremos ao contraponto ditado pelos responsáveis da ABC. O resto da história que ficou para a História com H grande será contada de longe, porque será de longe que os jornalistas destacados para o aeroporto assistem ao desenlace deste sequestro. E isso diz muito e pode ser uma das respostas possíveis para as perguntas formuladas: onde está e o que fazer com a verdade? Felizmente, nos anos setenta do Século XX muita da informação, mesmo em regime de forte concorrência, obedecia a um princípio basilar: confirmar antes de publicar ou emitir. Por essa e por muitas outras razões, este «September 5» merecia ser discutido num fórum com jornalistas que hoje continuem a defender os valores mais nobres da sua profissão.
«O Atentado de 5 de Setembro» está nomeado para um único Óscar. Mas na categoria onde se insere, Melhor Argumento Original, a nomeação constitui por si só um reconhecimento da sua inequívoca importância. Logo veremos se vence ou não a concorrência, onde se encontram os argumentos de «O Brutalista», «Anora», «A Substância» e «A Verdadeira Dor».
Título original: September 5 Realização: Tim Fehlbaum Elenco: Peter Sarsgaard, John Magaro, Leonie Benesch, Ben Chaplin Duração: 95 min. Alemanha/EUA, 2024
[Crítica publicada a 20 de Fevereiro, 2025]

