Alma é uma mulher burguesa com uma grande casa na cidade e Mina é uma jovem mãe que mora num subúrbio distante e passa dificuldades. Os seus maridos são reclusos no mesmo estabelecimento prisional. Numa sessão de visitas, as duas conhecem-se e uma amizade desponta quando Alma oferece a Mina um quarto na sua casa.

A PRISIONEIRA DE BORDÉUS explora os interstícios da relação deste par improvável, marcado por visões muito diferentes do mundo, num estudo incisivo sobre dinâmicas de classe e o lugar da mulher na sociedade.

Conversa com Patricia Mazuy

Gostaria de começar pela questão mais simples e, ao mesmo tempo, mais enigmática de todas. O seu novo filme chama-se A Prisioneira de Bordéus, apesar da história ser sobre duas mulheres, nenhuma das quais está presa. Os maridos delas estão detidos na prisão da cidade, mas elas não. Porquê esta escolha?

Patricia Mazuy: Quem é a prisioneira de Bordéus? Essa é a grande questão! A certa altura, o filme chamava-se As Prisioneiras. Mas ficámos com a sensação de que já tínhamos visto esse filme. Por outro lado, no singular, o título ganha algo de romântico e melodramático, uma abertura para fábulas e contos de fadas. Mina e Alma estão livres, claro, mas as suas vidas estão presas.

Essa era a ideia original — duas mulheres que, apesar de estarem cá fora, vivem como se estivessem lá dentro — com Alma a referir-se, a certa altura, a Mina como a sua companheira de cela?

Patricia Mazuy: Sim, e Mina também se refere à Alma como a sua companheira de cela! A ideia surgiu de Pierre Courrège [argumentista do filme], em 2012. O filme era, originalmente, para ser dele. A sua intenção era fazer um filme social sobre mulheres em centros de acolhimento e salas de visitas: aquelas que, como esposas, irmãs, mães ou filhas de reclusos, passam parte das suas vidas na prisão e, por isso, também passam muito tempo à margem, num comboio, em lado nenhum… Eram pontos de partida fortes. Pierre Courrège e François Bégaudeau [argumentista do filme] — com quem Pierre já tinha escrito «Un Homme d’État» (2014) — escreveram um argumento e passaram vários anos a tentar concretizar o filme, sem sucesso. O projecto foi-me proposto no início de 2019 por Ivan Taïeb, um amigo do produtor Xavier Plèche. No argumento deles, as duas personagens femininas — a rica e a pobre, a branca e a árabe — já existiam. Já tinham diálogos fortes e até divertidos, marcados pelas relações de classe. Reescrevi-o em colaboração com Bégaudeau. Muito cedo, quis encontrar uma metáfora para a libertação de duas mulheres, cada uma presa numa determinada vida. Alma e Mina tornam-se permeáveis uma à outra. A chegada de Mina à grande casa e à vida solitária de Alma é catalisadora da tomada de consciência desta sobre a sua existência miserável, rodeada de dourados e flores. Uma metáfora invertida do amor, com as mulheres cá fora e os maridos na prisão.

Estava familiarizada com o ambiente prisional?

Patricia Mazuy: Não, de todo. Descobri os centros de acolhimento, as zonas junto às prisões. Os espaços, a espera, as mulheres entre si… E, enquanto tive de esperar pela autorização para filmar e até para fazer visitas de reconhecimento, aprendi imenso a ver os filmes da Stéphane Mercurio. Ajudaram-me verdadeiramente. Depois, com a Marlène Popovic a coordenar as audições abertas, encontrámos um grupo de mulheres que tinham vivido — ou estavam a viver — a realidade de ser mulher de um recluso. Depois, com a Any Mendieta, uma amiga actriz, trabalhámos para compreender, de facto, o que significa filmar. Um pequeno grupo, encontros reais. Além disso, também não conhecia propriamente, na carne, nem a classe média-alta das províncias nem dos subúrbios — o que era delicado para um filme que não devia ter medo do naturalismo. O que eu conheço são agricultores e lojistas. Por isso, embora seja sempre bom enfrentar o desconhecido, filmar Alma e Mina, esta cidade, Bordéus… era-me tão estrangeiro como filmar no Pólo Norte. Quando a Alice Girard assumiu a produção do filme, falei-lhe disso, ela compreendeu, e pude passar algum tempo em Bordéus, a trabalhar com as mulheres das associações e a reflectir sobre tudo. A Émilie Deleuze ajudou-me imenso a recentrar-me na fase final da escrita do argumento, numa altura em que tinha de me familiarizar com os aspectos práticos das exigências de produção e, ao mesmo tempo, manter o rumo. Do meu ponto de vista, o que importa é o paradoxo do projecto. A sua capacidade, através da ficção, de nos falar das relações humanas, de nos arrastar para um filme que eu não queria que fosse sobre vítimas, mas sim sobre heroínas.

Mina é interpretada por Hafsia Herzi e Alma por Isabelle Huppert. Como as escolheu?

Patricia Mazuy: Conheço a Isabelle Huppert desde Saint-Cyr (2000). É uma actriz extraordinária. A sua personagem, Alma, é uma heroína cheia de falhas e hesitações e, ao mesmo tempo, absolutamente generosa e corajosa, mesmo estando suspensa sobre o vazio da sua vida, encerrada na sua solidão… Não muito diferente da própria Isabelle na vida real. Fiquei profundamente comovida e encantada por ela querer assumir este papel. Claro que já conhecia a Hafsia Herzi de «O Segredo de um Cuscuz» (2007) e dos filmes que se seguiram, mas foi depois do seu primeiro filme como realizadora, «Tu mérites un amour» (2019), que tive vontade de lhe oferecer um papel.

O contraste entre ambas pareceu-me importante. Queria que a Hafsia surgisse como o oposto da Isabelle. Pedi-lhe que engordasse para reforçar essa oposição. Alguns quilos a mais deram-lhe umas bochechas bonitas e algo de sublime no oval do rosto. Tive um problema com o seu cabelo comprido — era sumptuoso, mas não o conseguia ver naquele par que estava por vir… Após inúmeras tentativas, encontrámos finalmente o penteado que a faria parecer mais alta: aquele coque entrançado colado ao topo da cabeça. Abriu-lhe o olhar e colocou-a entre o conto de fadas e a realidade contemporânea. O filme encontrara a sua princesa.

O que julga estar em jogo entre as duas personagens? Amizade, um laço, uma aliança pontual?

Patricia Mazuy: Quando se vai ao cinema, quer-se ver uma história forte. E estas duas mulheres estão prestes a partilhar uma história muito forte, uma história que deixará marcas, mesmo depois de tudo acabar. São, evidentemente, muito diferentes. E entre essas diferenças, houve uma em particular que me chamou a atenção: o tempo. A Mina não tem tempo — tem de reagir constantemente às situações — enquanto a Alma tem todo o tempo do mundo. Desenvolve-se entre elas uma amizade profunda, enorme, quase incongruente. É quase como uma história de amor. O espectador tem de ser capaz de acreditar nela; o filme lida com a realidade à medida que as cenas acontecem. Por exemplo, no primeiro jantar que têm juntas, algo acontece de imediato, corporizando esse encontro improvável. Quando a Alma gesticula vivamente, a falar de como as pessoas não se atrevem a perguntar-lhe porque é que o marido está preso, a Mina acha-a, de repente, muito engraçada. Como se fosse em tempo real, vemos nascer a possibilidade de reconhecimento e de uma amizade forte. A Isabelle está incrível nessa cena, a dar vida a esse momento de comédia. E a Mina, que é uma personagem bastante sombria, torna-se mais luminosa.

A gestão do tempo é especial neste filme. Porquê?

Patricia Mazuy: O filme é simultaneamente naturalista e melodramático. Temos os retratos entrelaçados de duas mulheres muito diferentes que partilham um momento de amizade improvável, mas muito poderosa. No coração do filme, as duas sequências justapostas na sala de visitas funcionam como o olho do furacão, ritmicamente, antes da vaga que vem na segunda parte. E, nessa segunda parte, procurava o vértice, a sensação de colapso do tempo que a personagem da Alma atravessa. Era esse colapso temporal que eu queria trabalhar.

«A Prisioneira de Bordéus» é um melodrama, mas também uma comédia. Pensei muito na comédia italiana.

Patricia Mazuy: Sabemos que a Isabelle também é extraordinária na comédia. Antes da rodagem, falei-lhe de um filme extraordinário de Marco Ferreri, «Colapso» (1968). É sobre o dono de uma fábrica de brinquedos, interpretado pelo Marcello Mastroianni, que recebe um vendedor de balões no seu escritório e depois enlouquece a tentar calcular quanto tempo demoram os balões a esvaziar. Uma personagem profundamente deprimida, aliás! Pensei muito nele para construir a Alma. Esse filme ajudou-me imenso. A precisão, a candura, a pertença de classe, a obsessão, mas também a ausência, a loucura… Outro filme de Ferreri que me influenciou foi «História de Piera» (1983), em que a Hanna Schygulla interpreta uma personagem à beira da loucura, completamente deslocada, mas terna e descontraída. Nesse filme, a Isabelle, que faz de filha da Hanna Schygulla e do Mastroianni, também está absolutamente fantástica — um pouco como a Mina, que reage às situações concretas. É uma inversão de papéis entusiasmante. Os balões na cena com as crianças são uma homenagem a Ferreri. Para a Mina, também pensei, por vezes, na comédia italiana. A sua vivacidade e vitalidade. Cheguei a dizer à Hafsia: “Pensa no Mastro [Marcello Mastroianni], vai com tudo.” Mas outras vezes, mais do que uma personagem de um filme italiano, vejo a Mina como uma figura burlesca saída de um filme do Boris Barnet. Por isso é tão importante que ela tenha presença física, formas — que seja, por vezes, uma bela princesa e, noutras alturas — como quando trabalha na lavandaria, por exemplo — muito mais imponente.

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