Já é conhecida a programação do Doclisboa 2026, que decorre de 15 a 25 de Outubro nas salas habituais do festival: Culturgest, Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Cinema Ideal, desta feita também com uma performance agendada para Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Ao todo, a 24ª edição apresenta 198 filmes de 51 países, entre eles 34 estreias mundiais, 13 estreias internacionais, três estreias europeias e 32 filmes portugueses, atravessando geografias, gerações e diferentes formas de fazer e pensar o cinema.
A abrir e a encerrar esta edição estão dois cineastas que fazem da sua própria relação com o cinema matéria dos seus filmes. O Doclisboa abre com Guerrilha no Asfalto, de Edgar Pêra, que parte do livro homónimo de Manuel Ricardo Sousa para cruzar os relatos de um antigo operacional das FP-25 com as memórias do realizador sobre os turbulentos anos 1980, entre arquivos, ficção e inteligência artificial. No encerramento, Alain Cavalier, aos 95 anos, apresenta Thanks for Coming, um novo e derradeiro capítulo do seu cinema-diário, onde os gestos e encontros do quotidiano se transformam em matéria cinematográfica.
A Competição Internacional deste ano conta com 11 filmes e inclui sete estreias mundiais, três estreias internacionais e uma estreia europeia. Na Competição Portuguesa há também 11 obras a concurso, sendo todas elas estreias mundiais (ver lista de filmes abaixo). Inclui filmes de cineastas já conhecidos do público do festival, entre eles João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, e outros apresentados em Portugal pela primeira vez, numa selecção de extraordinária sofisticação e diversidade estética e agudez política. Já a Competição Portuguesa reúne este ano 11 filmes (lista abaixo), todos em estreia mundial, com novos trabalhos de Inês Oliveira, Ico Costa, Pedro Neves e Manuel Mozos e, a par de realizadores que apresentam pela primeira vez os seus filmes no Doclisboa.
RISCOS
A secção Riscos volta a explorar as possibilidades do cinema como arte intimamente ligada à experiência do presente, reunindo filmes que atravessam diferentes tempos, memórias e histórias através de formas abertas e experimentais. Os cineastas convidados desta edição são a francesa Sophie Roger, autora de uma obra marcada pela liberdade e radicalidade das suas formas, com títulos como Desert Island (2014) e The Bitches (2026); e o filipino John Torres, de quem serão apresentados três filmes-chave de uma filmografia atravessada por experimentações híbridas e poéticas: The Remotes (2026), Lukas the Strange (2013) e Todo todo teros (2006).
Entre os filmes programados na secção, encontram-se filmes de autores como Lee Anne Schmitt, Ben Russell, Declan Clarke, Lucía Seles, Ted Fendt e Lynne Sachs entre muitos outros. Mariano Llinás dedica Life of Jorge Luis Borges à biografia e ao universo literário do escritor argentino, partindo dos seus papeis, livros e lugares para procurar a figura de alguém para quem a literatura constituía um território próprio. María Aparicio traz-nos Sometimes Sadness, Sometimes Rebellion, vencedor do GdA Director’s Award em Veneza, em que o Museu Reina Sofía, em Madrid, se torna a porta de entrada para uma reflexão sobre a história das lutas laborais. Denis Côté regressa com Nobody’s Violence, uma surpreendente ficção que traz uma protagonista fascinante que nos leva por uma aventura pela morte, o amor e o encontro com os outros. Robert and June (and all the time in the world), de Jem Cohen, acompanha ao longo dos anos os artistas June Leaf e Robert Frank, entre Cape Breton e uma Nova Iorque em permanente transformação. Em Wild Asparagus, co-produção entre Portugal e França, Avi Mograbi acompanha o seu professor de árabe, Ali Al Azhari, na procura pelas ruínas de Saffuriya, aldeia da qual foi expulso durante a Nakba de 1948.
O arquivo ocupa um lugar central nesta edição de Riscos. Em An Incomplete Calendar, Sanaz Sohrabi parte de um disco editado na Venezuela nos anos 1980 para recuperar imagens e sons das lutas de libertação da Palestina e da solidariedade pan-árabe das décadas de 1960 e 1970. The Clearing, de Sabine Groenewegen, regressa à exploração colonial neerlandesa em Sumatra e às violências silenciadas das plantações de borracha através de imagens encontradas e contemporâneas. O festival homenageia ainda Angela Ricci Lucchi e Yervant Gianikian, arqueólogos das imagens que fizeram do arquivo um lugar de confronto entre a História e aquilo que as imagens ainda podem revelar, apresentando Oh! uomo, uma das grandes obras do duo, em que desenvolveram a sua prática da câmara analítica e que encerra a trilogia dedicada à Primeira Guerra Mundial.
DA TERRA À LUA
Em Da Terra à Lua, cinema, história e política encontram-se em filmes que interrogam as imagens e aquilo que elas revelam sobre o passado e o presente. A secção, com vários filmes já relevados nas últimas semanas, apresenta o foco Miguel Antunes Ramos: Criaturas e Mitos dos Novos Fascismos, que inclui Dragões, onde o realizador mergulha nas imagens que construíram o mito político de Jair Bolsonaro, e A Voz de Deus, que acompanha dois jovens pregadores evangélicos em momentos distintos dos seus percursos, num Brasil onde religião, política e redes sociais se cruzam. Em Habibi Hussein, Alex Bakri parte da recuperação do Cinema Jenin e da tentativa do seu antigo projeccionista de recuperar o seu lugar para abordar as complexidades da ajuda internacional na Palestina e uma cultura cinematográfica em desaparecimento. Já Last Movies, de Stanley Schtinter, propõe uma história alternativa do primeiro século do cinema: quais os últimos filmes que figuras como John F. Kennedy, Bette Davis, Charlie Chaplin ou Kurt Cobain terão visto antes de morrer?
A memória política e as imagens da História atravessam outros momentos da secção. Em Atlas de la Desaparición (2026), Manuel Correa acompanha três familiares de desaparecidos durante a Guerra Civil Espanhola na procura pelos seus corpos no Vale dos Caídos, recorrendo a novas tecnologias digitais para os localizar. The Land That Wouldn’t Die (2025), de Andreas Goldstein, regressa aos últimos anos da República Democrática Alemã (RDA) e às expectativas da geração que a fundou. Já Jia Zhangke regressa com Du Ling zhi ying (Torino Shadow) (2026), acompanhando uma mulher que viaja do sul da China até Turim para encontrar o marido, mas cuja partida inesperada a conduz a um reencontro consigo própria — e com o cinema.
A Palestina está também no centro do programa Aude Fourel and Monica Maurer: Bringing Back the Images of Palestine. Monica Maurer dedicou grande parte da sua vida a documentar a luta palestiniana, realizando filmes que se tornaram documentos insubstituíveis e recuperando obras de outros cineastas. Aude Fourel, por sua vez, filmou-a a trabalhar com os seus arquivos em Où vivre insiste (2026). O programa coloca este novo filme em diálogo com imagens da Palestina das décadas de 1970 e 1980, incluindo Yom El-Ard (1981), Born Out of Death (1981), The Palestinian Red Crescent Society (1979) e Tall el Zaatar (1977), realizadas e preservadas contra o desaparecimento. Monica Maurer e Aude Fourel estarão em Lisboa para apresentar e partilhar estas imagens com o público do festival.
A secção recupera ainda o trabalho do Collectif Mohamed, colectivo de cinema militante surgido em França no final dos anos 1970, através de Zone immigrée (1980) e Ils ont tué Kader (1980), dois filmes ligados às experiências e lutas das comunidades imigrantes em França.
Uma derradeira adição ao programa de Da Terra à Lua, a sequência do recente desaparecimento de Patricio Guzmán: o último filme do realizador chileno, Mi país imaginário, inédito em Portugal, será exibido em sessão única.
HEART BEAT
Em Heart Beat, a música, a criação artística e a memória atravessam diferentes tempos e geografias. Para lá de todos os títulos já anunciados, Kurtág Fragments, de Dénes Nagy, retrata a intimidade com a música e a exploração musical do compositor György Kurtág que celebra um século de vida este ano; The Voice of Orpheus, de Arnold Pasquier, regressa a Orphée et Eurydice, obra fundamental de Pina Bausch, acompanhando a sua reposição quase três décadas depois; e Five Eyes, de Karim Debbagh, regressa a Tânger e às imagens filmadas pelo realizador 25 anos antes para reconstruir a memória de Paul Bowles e do círculo marroquino que o rodeou, revelando o escritor e Jane Bowles a partir de uma perspectiva distante dos habituais clichés orientalistas.
A secção acolhe ainda, no âmbito da Mostra Espanha, um foco dedicado a Jonás Trueba, que inclui o seu mais recente filme, Vistillas (2026), e Los ilusos 13 + 13 (2013–2026), colocando-os em diálogo com Chicho o mientras el cuerpo aguante (una comedia didáctica) (1982), do seu pai Fernando Trueba.
VERDES ANOS E OUTROS ESPAÇOS DO FESTIVAL
A secção competitiva Verdes Anos, dedicada à descoberta de novos talentos e às primeiras experiências no cinema, volta a ocupar um lugar especial na programação do Doclisboa. Este ano, a competição reúne 11 filmes, sete dos quais em estreia mundial, dando espaço a novas vozes, linguagens e formas de pensar o cinema.
O Nebulae, espaço de indústria do festival, apresenta a Grécia como país convidado, enquanto o projecto educativo abcDoc volta a apostar na força do documentário como ferramenta pedagógica e de aproximação ao mundo.
Os bilhetes para todas as sessões do Doclisboa 2026 estarão à venda online a partir de 28 de Setembro, e mais adiante nas bilheteiras físicas da Culturgest, Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Cinema Ideal.
Todos os detalhes desta edição ficarão em breve disponíveis em doclisboa.org.



