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NAZA

«NAZA», de Yuval Abraham e Rachel Szor, entrou quase no fim da competição de Veneza e conseguiu uma coisa cada vez mais difícil num festival de cinema: fazer uma sala inteira esquecer por momentos prémios, estrelas, festas, convites e o restaurante onde tinha reservado jantar. Há palavras inventadas para explicar o mundo. “Danos colaterais” parece ter sido inventada exactamente para não explicar nada quando quem morre são sempre os outros.

O dispositivo do filme é de uma simplicidade quase indecente: noite, telhados de Telavive, vinte e quatro militares, antigos militares e membros dos serviços de informação israelitas, todos anónimos, rostos e vozes digitalmente alterados. E começam a falar. Não de teorias, slogans ou grandes discursos políticos. Falam de trabalho. Procedimentos, ordens, listas, programas de inteligência artificial, alvos, margens de erro, casas assinaladas, famílias que permanecem dentro delas, civis convertidos num cálculo antes de a bomba cair. «NAZA» é precisamente o termo que o filme identifica como usado para quantificar as vítimas civis previstas num ataque. A burocracia sempre foi muito competente a escolher palavras limpas para tarefas sujas.

Abraham e Szor, dois dos quatro autores de «No Other Land», vencedor do Óscar de Melhor Documentário em 2025, fazem uma escolha formal simultaneamente inteligente e problemática. Inteligente porque recusam o inventário de ruínas e corpos que já conhecemos dos noticiários e obrigam-nos a olhar para quem descreve o mecanismo por dentro. Problemática porque o anonimato — indispensável para obter estes testemunhos — introduz inevitavelmente uma distância. Quem fala? O que omite? Até onde podemos confiar? O filme não foge a essas perguntas e responde-lhes menos através de uma autoridade individual do que pela acumulação de depoimentos, pela investigação jornalística que os sustenta e, sobretudo, pela repetição dos mesmos padrões.

É talvez aí que «NAZA» se torna mais perturbador. Não procura o psicopata conveniente que permitiria ao espectador respirar de alívio e concluir que o mal pertence sempre a uma criatura especialmente monstruosa. Segundo os testemunhos recolhidos, mostra precisamente o contrário: homens e mulheres integrados numa estrutura, convencidos de que executam procedimentos, cumprem ordens, fazem o seu trabalho e regressam depois a casa. Jantam. Encontram amigos. Dormem. A normalidade é aqui muito menos tranquilizadora do que qualquer vilão.

«NAZA» deixa então de ser apenas um documentário sobre Gaza para se transformar num filme sobre a extraordinária capacidade humana de instalar o intolerável na rotina. A câmara mostra os apartamentos iluminados de Telavive enquanto, a relativamente pouca distância, existe outra realidade descrita pelos entrevistados. Abraham e Szor não dizem que todos carregam a mesma responsabilidade — seria uma simplificação que o próprio filme evita —, mas colocam uma pergunta bem mais pertinente e oportuna: o que acontece a uma sociedade quando a violência deixa de ser entendida como excepção e começa a fazer parte do mobiliário mental?

Há momentos em que o filme se aproxima conscientemente de comparações históricas explosivas, mas os realizadores evitam estabelecer equivalências automáticas. Preferem formular outra pergunta: para que serve a memória de uma atrocidade se só a aceitamos quando ela confirma a nossa própria inocência? Não é uma conclusão jurídica nem uma aula de História. É uma interrogação moral. E fica no filme muito depois de várias explicações técnicas já se terem apagado da nossa cabeça.

Cinematograficamente, «NAZA» não reinventa o documentário, nem precisa. É austero, frontal e por vezes formalmente convencional. Há assuntos perante os quais a realização não necessita de entrar em competição com aquilo que está a ser dito. Veneza recebeu-o com uma longa ovação e o júri presidido por Maggie Gyllenhaal atribuiu-lhe o Prémio Especial. O filme começa agora o seu percurso internacional. Percebe-se porquê. «NAZA» não oferece ao espectador aquela recompensa cultural de poder sair da sala dizendo que “viu um filme importante”. Faz pior. Obriga-o a sair sabendo mais do que sabia quando entrou e sem a possibilidade de fingir que isso é exactamente a mesma coisa.

Título Original: NAZA
Realização: Yuval Abraham, Rachel Szor
Com: 24 militares, antigos militares e membros dos serviços de informação israelitas, sob anonimato
Origem: Reino Unido
Duração: 80 minutos
Ano: 2026

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José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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