Num filme de Rita Azevedo Gomes, as pessoas leem, os planos respiram com as palavras, o texto cria uma película de memória sobre o que vemos – como se de música se tratasse. Entretanto, um gato sai sorrateiro pela porta, uma tartaruga leva o seu tempo a atravessar a estrada, uma estátua helénica olha para nós, as papoilas vermelhas do campo insinuam o motivo de um quadro impressionista. Por onde começar? «Fuck the Polis» é a mais recente prova de que o cinema desta realizadora livre nada deve aos impulsos do mundo imediato.
O título pop, sugestivo, vem do livro de poesia homónimo de João Miguel Fernandes Jorge, mas também de um graffiti num muro em Atenas. Não significa nada e significa tudo. Entramos no curso desta viagem às ilhas gregas embalados pela ideia de um regresso, ou melhor, à boleia de uma ficção mesclada com o dispositivo de uma rodagem a céu aberto: vemos e ouvimos Rita Azevedo Gomes, ou Irma, numa espécie de eco subjetivo, falando de uma primeira viagem à Grécia, em 2007, que, como mais tarde se clarifica, equivaleu a uma busca pela luz necessária num determinado momento crítico da vida, com a morte à espreita.
Por vezes trazendo ao espírito o cinema de Marguerite Duras, noutros sussurrando aquela elegância rohmeriana dos corpos que vão bem com os livros, «Fuck the Polis» parece ensaiar a beleza das coisas. E nesse processo aparentemente simples, ao sabor da poesia e da prosa (lidas em português, inglês, grego e francês), estamos lado a lado com a pequena equipa de rodagem. A mesma que, numa das cenas mais bonitas do filme, se senta no chão, ao pé da cantora grega septuagenária Maria Farantouri, como quem vai ouvir um mestre.
Mais uma vez, num filme da realizadora que antes nos deu «O Trio em Mi Bemol» (2022) isto acontece naturalmente, faz parte de um certo entendimento pictórico da presença humana dentro do plano. Aqui, um jovem (Bingham Bryant) escuta a leitura de Irma sentado à mesa com ela, acolá, o mesmo jovem lê um poema na presença de outro (Loukianos Moshonas), os dois rodeados de papoilas vermelho-vivo, numa paisagem com montanhas ao fundo. O “sentimento do lugar” torna-se particularmente forte à medida que «Fuck the Polis» se torna, ele próprio, um objeto legível, cada vez mais próximo da pele, entre ruínas metafóricas, reflexões mediterrânicas e mar azul. O regresso de Irma à Grécia é o nosso regresso – mesmo que nunca lá tenhamos ido.
TÍTULO ORIGINAL: Fuck the Polis
REALIZAÇÃO: Rita Azevedo Gomes
ELENCO: Bingham Bryant, Loukianos Moshonas, Rita Azevedo Gomes
ORIGEM: Portugal
DURAÇÃO: 74 min.
ANO: 2025



