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Broken Voices – Segredos de um coro

 Ambientado na República Checa do início dos anos 1990, «Sbormistr/Broken Voices – Segredos de um coro» acompanha Karolína (Katerina Falbrová), uma rapariga de treze anos que entra para um prestigiado coro feminino, ao lado da irmã mais velha, Lucie (Maya Kintera). O que começa como a concretização de uma ambição infantil, com ensaios, competições, viagens e a promessa de uma viagem aos Estados Unidos, transforma-se progressivamente num território de vigilância, manipulação e abuso. Inspirado no caso Bambini di Praga, o filme prefere, contudo, não reconstruir directamente a história real, mas criar uma ficção suficientemente próxima dos seus mecanismos para nos dar uma imersão num universo onde vozes celestiais convivem com medonhos silêncios.

O caso Bambini di Praga, no qual o filme se inspira, constitui uma das feridas mais perturbadoras da história recente checa. O coro infantil, fundado em 1972 e dirigido durante décadas por Bohumil Kulínský, adquiriu enorme prestígio, enquanto o maestro desenvolvia relações de poder e intimidade com as jovens cantoras. O escândalo, que veio a público no início dos anos 2000, revelou acusações de abuso sexual e psicológico, conduzindo à sua condenação. Provazník parte desse episódio, mas desloca o centro de gravidade da narrativa: em vez do criminoso, interessa-lhe sobretudo o ambiente e mecanismos que tornam possíveis a existência do criminoso. É precisamente aí que «Broken Voices» encontra a sua maior força. Mácha, interpretado por Juraj Loj, não é construído como um monstro evidente. Não existe a caricatura do predador que permitiria ao espectador reconhecer imediatamente o mal e, desse modo, manter-se moralmente confortável. O maestro é carismático, exigente, culto e profissionalmente brilhante. Tem uma personalidade algo fria e distante que parece negar qualquer contacto físico ou afecto. A sua presença física, mais perto da de um galã da que de um vilão, causa fascínio nas moças já púberes, porém menores e ainda incapazes de perceber os seus sentimentos e desejos. O antagonista não precisa de recorrer à violência ou à coerção bastando-lhe armas mais insidiosas: o charme e o fascínio.

Provazník percebeu que o abuso não começa sempre necessariamente com a violência. Começa com a distinção. Mácha escolhe algumas raparigas, presta-lhes uma atenção especial, transforma a preferência em recompensa e a proximidade em privilégio. A criança começa por desejar aquilo que, mais tarde, compreenderá como mecanismo de captura. O filme torna particularmente perturbadora esta transformação porque não apresenta uma fronteira clara entre o reconhecimento legítimo do talento e a instrumentalização desse talento. Ser escolhida é simultaneamente uma vitória e o princípio da perda de autonomia. Neste aspecto, o filme aproxima-se de «Tár» (2022), de Todd Field, pese embora os dois filmes trabalharem problemas muito diferentes. Em ambos, a questão central não é simplesmente a existência de um indivíduo abusivo, mas a maneira como o prestígio cultural pode produzir zonas de impunidade. Lydia Tár e Mácha são figuras cuja autoridade resulta, em parte, da crença colectiva no seu génio. O problema não está apenas na personalidade do líder, mas na comunidade que aprendeu a confundir excelência com legitimidade. Em «Tár», esse mecanismo é sofisticado através da instituição musical; em «Broken Voices», torna-se ainda mais inquietante porque a instituição é constituída por meninas menores. Também «Whiplash» (2014), de Damien Chazelle, surge como uma referência inevitável, ainda que invertida. Ambos os filmes observam o ensino musical como uma estrutura de disciplina extrema na qual um adulto pode adquirir um poder desproporcionado sobre jovens intérpretes. Mas onde «Whiplash» dramatiza a violência pedagógica como possível instrumento de produção de excelência, «Broken Voices» expõe o ponto em que a autoridade pedagógica deixa de ser disciplina e passa a ser predatória. O virtuosismo deixa de ser uma promessa de liberdade e converte-se numa linguagem através da qual o poder se legitima.

A dimensão musical é, aliás, uma das grandes invenções formais do filme. O coro produz uma beleza quase sobrenatural: várias vozes individuais desaparecem para constituir uma única entidade sonora. Esta fusão tem uma evidente dimensão metafórica. O coro exige obediência, sincronização e desaparecimento momentâneo da individualidade. A voz de cada rapariga pertence ao conjunto e o sucesso colectivo depende da submissão às regras impostas pelo maestro. A harmonia torna-se, assim, simultaneamente sublime e ameaçadora. É nesta tensão que a cinematografia de Lukáš Milota assume particular importância. Filmado em 16 mm, o filme adquire uma textura granulada que remete para a memória, mas também para uma época em que os mecanismos contemporâneos de exposição e vigilância ainda não existiam. A diferença entre os espaços é igualmente expressiva: os interiores domésticos, mais quentes, contrastam com a frieza de determinados ambientes associados à viagem e à exposição internacional. Provazník utiliza a imagem não para ilustrar o trauma, mas para inscrever progressivamente uma sensação de deslocação da segurança para o perigo. A comparação com «Picnic at Hanging Rock» (1975), de Peter Weir, não é meramente cinéfila: o próprio Provazník reconheceu o filme como uma das suas principais referências. Há nos dois trabalhos uma atenção particular à adolescência feminina como espaço de mistério, disciplina e transformação, bem como uma utilização da paisagem e da atmosfera para produzir uma ameaça que nem sempre pode ser imediatamente nomeada. Em «Broken Voices», contudo, aquilo que em Weir permanece fantasmático adquire uma dimensão social concreta: o perigo não vem de uma natureza inexplicável, mas de uma autoridade humana protegida pela comunidade.

É de louvar a recusa do realizador em transformar o abuso num espectáculo. Algo que, infelizmente, persiste nos filmes dedicados a este sensível tema. Para Provazník, a exposição da violência é menos importante enquanto acontecimento isolado do que enquanto sistema. «Broken Voices» escolhe a perspectiva da pueril vítima e, portanto, faz da própria incapacidade de compreender uma parte essencial da experiência. Karolína não dispõe do vocabulário conceptual que lhe permitiria identificar aquilo que lhe está a acontecer. Primeiro sente-se especial; depois sente-se confusa; finalmente percebe que aquilo que interpretava como privilégio tinha um enorme preço. Kateřina Falbrová é decisiva para que esta progressão funcione. A sua interpretação, distinguida com uma Menção Especial do Júri em Karlovy Vary, evita tanto o sentimentalismo como a exteriorização excessiva do sofrimento. O rosto de Karolína permanece muitas vezes opaco, precisamente porque a personagem ainda está a tentar compreender a própria experiência. A cena final não nos é dada como uma catarse ou explosão, mas antes com um desabar confuso e íntimo.

Há, porém, uma questão que ultrapassa a avaliação estritamente estética do filme e que não pode ser ignorada. A relação entre «Broken Voices» e o caso Bambini di Praga gerou uma controvérsia ética significativa. Um familiar de uma das sobreviventes, Radovan Síbrt, acusou os realizadores de estabelecerem paralelos demasiado próximos com a história da sua irmã, que não autorizou a utilização da sua experiência e cujo nome coincide com o da protagonista. Provazník respondeu que Karolína é uma personagem ficcional composta a partir de experiências de várias vítimas e de outros casos de abuso, e que não pretendeu retratar uma pessoa específica. A controvérsia ganhou nova dimensão em 2026, quando um tribunal de Praga determinou provisoriamente que o filme não fosse transmitido na televisão, na sequência das objecções de uma sobrevivente que afirmou reconhecer-se na personagem.  Esta circunstância é particularmente importante porque introduz uma contradição no próprio projecto do filme. «Broken Voices» denuncia, com grande inteligência, a apropriação do corpo e da voz das vítimas por estruturas de poder. Mas a sua própria relação com algumas sobreviventes levanta a pergunta sobre quem tem o direito de transformar uma experiência traumática em matéria artística. Essa contradição não anula o filme, mas impede que o vejamos simplesmente como uma obra exemplar sobre o abuso. Pelo contrário, torna-o mais complexo. A representação de uma vítima não é automaticamente um acto de restituição da sua voz. Pode também constituir uma nova forma de apropriação, sobretudo quando a ficção reproduz circunstâncias suficientemente específicas para que alguém se reconheça nela.

Controvérsias à parte, Provazník consegui nos dar uma nova perspectiva num tema tanta vezes explorado de forma sensacionalista. O filme não nos confronta com um monstro identificável, mas com alguém que poderia facilmente passar por um homem admirável: culto, talentoso, exigente, reservado e, sobretudo, dotado de um magnetismo que desperta fascínio. Estamos mais perto de um «Talentoso Mr. Ripley» que dos polícias facínoras de «Sleepers: Sentimento de Revolta» ou do perversamente cruel religioso de «The Boys of St. Vincent». O mal não chega anunciado pela violência; aproxima-se através do charme, da distinção e da promessa de reconhecimento. Mácha compreende que não precisa de impor o medo quando pode conquistar a confiança e o desejo da presa de ser a escolhida. E é talvez esta a ideia mais perturbadora do filme: o perigo nem sempre se revela naquilo que nos causa repulsa, podendo esconder-se precisamente naquilo que nos atrai.

Título original: Sbormistr
Título internacional: Broken Voices
Realização: Ondrej Provaznik
Elenco: Petra Bílková, Maya Kintera, Katerina Falbrová
Duração: 106 min.
República Checa/Eslováquia, 2025

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