Ruth Goldman (Kathleen Chalfant) ainda vive sozinha, organiza a sua roupa e cria as suas receitas, mas, de repente, coloca uma torrada no escorredor da loiça, como se fosse um prato acabado de lavar. Afetada pela perda de memória, a octogenária sai de casa com o seu filho, para aquele que acredita ser um encontro amoroso, mas que, na verdade, é o início de uma nova fase da sua vida: uma residência sénior de luxo, com acompanhamento personalizado.
Como qualquer pessoa que acorda num sítio novo, estranha os novos companheiros de piso, as novas rotinas e a sua nova vida, mas ainda existem raízes que não esquece e sentimentos que não esconde: uma amizade com uma cuidadora, o desejo íntimo, o conforto da água no seu corpo e o seu eterno amor pela cozinha.
«Um Toque Familiar» é a primeira longa de Sarah Friedland e já lhe valeu uma mão cheia de nomeações e alguns dos galardões mais ambicionados de prestigiados festivais de cinema, entre eles o caso de Melhor Primeiro Filme, Melhor Realizadora e Melhor Actriz (secção Orizzonti) do Festival de Veneza.
O olhar da realizadora, que é também argumentista, nasce sobretudo da sua experiência pessoal com a demência – a sua avó sofreu do mesmo – e de um trabalho desenvolvido em colaboração com residentes e profissionais de uma comunidade de idosos em Villa Gardens, em Pasadena, Califórnia. A sua formação como coreógrafa permitiu-lhe igualmente encontrar uma outra forma de olhar para a doença e representá-la não apenas através do diálogo, mas através do movimento do corpo e, sobretudo, do toque.
O toque parece ser, aliás, uma outra personagem de «Um Toque Familiar». São vários os momentos em que a realizadora foca uma mão no ombro, dedos que se entrelaçam, abraços que perduram.
A atriz Kathleen Chalfant parece não precisar de método; ela apenas é. No mundo de Ruth, tudo parece fazer sentido, até o despertar de um romance ou de um desejo, numa realidade em que os laços com a própria história parecem ter-se desfeito. Chalfant leva-nos com ela, convida-nos a sentar e semeia-nos o pensamento do que será chegar a essa idade e simplesmente descolar da nossa história pessoal até àquele momento.
«Um Toque Familiar» é um filme simples, localizado, mas universal ao mesmo tempo, que nos toca em diversos pontos e receios, fazendo-nos um ultimato para vivermos o melhor possível a nossa memória, sem deixar de nos relembrar que a vida não tem de acabar se um dia ela se perder. Acima de tudo, o que fica é a gentileza com que Sarah Friedland filma estas pessoas e o carinho e a empatia de que todos precisaremos se um dia chegarmos a esta idade.



