Laura Wandel volta ao universo infantil com o seu segundo filme, «Pelo Adam».
A jovem realizadora belga Laura Wandel é já um dos valores seguros do cinema europeu. Se dúvidas houvesse, bastaram dois filmes para que fosse escolhida para fazer parte do júri internacional do Festival de Cannes deste ano. Na realidade, depois do notável «Recreio», prova com «Pelo Adam» que o sucesso do filme anterior não foi mero acaso. Depois do pátio de uma escola, onde uma garota tem de defender o irmão mais velho de bullying, estamos agora no setor de pediatria de um hospital, onde uma enfermeira tem de ultrapassar os seus limites legais para ajudar uma jovem mãe que ali chega com o filho, Adam, de quatro anos, em busca de auxílio.
Depois de «Recreio» e deste filme, podemos dizer que o universo infantil é algo que a atrai muito.
Laura Wandel: Antes de mais, as crianças são o futuro da humanidade. E, ao mesmo tempo, tenho a sensação de que muitas vezes não são consideradas. A palavra das crianças não é sempre levada em conta. E acho isso bastante paradoxal.
É uma coincidência que os dois filmes tenham personagens dessa idade ou já tinha a ideia, depois de «Recreio», de continuar na mesma linha?
Laura Wandel: De qualquer forma, eu parto sempre de um lugar. Em «Recreio» parti da escola, e aqui sentia-me atraída pelo universo do hospital e, inevitavelmente, pela pediatria, já que havia uma ligação com a infância.
Aqui também se trata de um filme que reúne um conjunto muito restrito de personagens. Na escola estávamos realmente fechados, só saíamos ocasionalmente. Portanto, o cinema de espaços fechados é também algo de que gosta, certo?
Laura Wandel: Sim, sim. Espaços fechados e lugares que representam um certo microcosmo da sociedade, com hierarquias. O hospital, por exemplo, tem uma hierarquia que pode gerar alguma violência sistémica.
Filmaram num hospital verdadeiro? Não parece nada um estúdio ou um cenário.
Laura Wandel: Na verdade, sim, estávamos num hospital verdadeiro, mas o serviço onde filmámos estava em obras de renovação. Portanto, não havia profissionais de saúde a trabalhar ali, embora estivessem presentes para nos orientar nos gestos e garantir a veracidade das situações. Alguns deles até participaram como atores. Mas o serviço em si não estava em funcionamento.

Em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde está constantemente em dificuldades, sempre em discussão: privatizado, não privatizado… Como está a situação da saúde na Bélgica?
Laura Wandel: Na Bélgica também há cada vez menos recursos, infelizmente. E, pelo que pude observar durante o meu trabalho de observação, os profissionais trabalham em condições realmente deploráveis. Um pouco à imagem da Lucie, que não tem tempo para se sentar, não tem tempo para comer e que, por vezes, acaba por fazer coisas que nem sequer fazem parte das suas funções, mas fá-las porque, caso contrário, ninguém as faria.
A escolha do nome de Adam para a criança não deve ter sido inocente…
Laura Wandel: Sim, claro. Antes de mais, é o primeiro homem. E depois há toda a história da maçã envenenada, do conhecimento, que eu achava muito interessante. E descobri há pouco tempo que, em hebraico, significa “humanidade”. Achei isso fascinante porque, para mim, o interesse por Adam é, no fundo, o interesse pela humanidade, o interesse pelo Homem com H maiúsculo. Foi por isso que este nome me pareceu uma escolha evidente.
Como encontrou este Adam em particular?
Laura Wandel: Fizemos um casting. Sabíamos desde o início que teríamos de escolher gémeos por razões legais ligadas ao trabalho infantil, para podermos dividir o trabalho. O irmão de Jules, que é quem aparece no ecrã, chama-se Léo. O Léo fazia todas as preparações técnicas de manhã e o Jules filmava à tarde.
Ele não tinha ciúmes por não aparecer no ecrã?
Laura Wandel: Não, de todo. Na verdade, até lhe dava jeito. Tivemos muita sorte nesse aspeto.
Mas isso é muito inteligente.
Laura Wandel: Sim, sim, sim. Era mesmo necessário. Porque aquilo que ele faz com a Maria é extraordinário.
E os pais, imagino que estavam sempre por perto.
Laura Wandel: Não. Os pais não eram autorizados a entrar no plateau. E foi igual em «Recreio». Porque, quando os pais estão presentes, tenho a impressão de que as crianças, não vou dizer todas, mas muitas ficam sob o olhar dos pais e já não são exatamente as mesmas.
Falemos sobre as questões legais colocadas no filme. A certa altura, a personagem da enfermeira é obrigada, por razões morais, a ultrapassar um pouco aquilo que seria o enquadramento legal. Todas essas questões legais que aparecem no filme são reais? Imagino que tenha investigado como tudo isso acontece nesses casos.
Laura Wandel: Claro, claro. E é sempre muito, muito complicado. Na vida real, algumas decisões são tomadas um pouco menos rapidamente. No filme tudo acontece muito depressa, mas isso também foi uma escolha narrativa. E sim, informei-me muito. Conheci uma juíza de proteção de menores que leu o argumento e me deu opiniões, dizendo-me: «Isto é credível, isto não é credível.» Também trabalhei com uma assistente social. Levou-me muito tempo a compreender todos os procedimentos.

Uma coisa de que gosto muito no filme é o facto de não julgar as personagens. Mesmo as personagens mais secundárias, como o pai de Adam. Demorou muito tempo a escrever os diálogos e a construir tudo de forma justa para não julgar as personagens?
Laura Wandel: Sim, é verdade que isso era fundamental para mim. A mais bela coisa que me podem dizer é que não existe julgamento sobre nenhuma personagem. Para mim, esse é um valor essencial no meu cinema e também tento aplicá-lo na minha vida. Porque o julgamento é algo muito complicado e muito violento. E penso que, se houvesse menos julgamento no nosso mundo, tudo correria muito melhor.
Através de algumas personagens secundárias, também aborda a questão da emigração, que é muito pertinente nos dias que correm. Mas, mais uma vez, sem as julgar.
Laura Wandel: A questão da emigração é um outro mundo. Mas era importante para mim não estigmatizar ninguém.
Falemos de Léa Drucker. Escreveu o papel especificamente para ela?
Laura Wandel: Sim, escrevi mesmo o papel para ela. Porque, para mim, é uma das maiores atrizes dos últimos tempos. Acho que ela tem algo de muito impressionante na sua postura. Algo que pode intimidar e parecer quase frio. Tem uma certa frieza que combina muito bem com o universo da enfermagem. Mas, ao mesmo tempo, sentimos nela uma espécie de fragilidade. E nos seus olhos existe algo da ordem do segredo, o que também é magnífico para a personagem. Gosto muito dela.
É verdade que ela é diferente da atriz francesa habitual.
Laura Wandel: Sim, tem realmente algo de singular.
A Anamaria Vartolomei, que é menos experiente, tem um papel muito exigente. Como trabalhou com ela para conseguir o que vemos no ecrã?
Laura Wandel: Mostrei-lhe vários filmes e tentei alimentá-la muito artisticamente. Por exemplo, dei-lhe a ouvir uma peça musical chamada «L’Entrée de Polymnie», de Jean-Philippe Rameau, porque, para mim, essa música é tão apaixonada e tão cheia de amor que queria que ela se deixasse impregnar por isso para construir a sua relação com Adam.
Tecnicamente, o filme é admirável, com a forma como a câmara acompanha as personagens dentro daquele espaço fechado. Isso já estava na sua cabeça?
Laura Wandel: Era importante para mim não repetir simplesmente o que já tinha feito. Mas parecia-me que era a melhor maneira de filmar a Lucie. Com muitos planos das suas costas e da sua nuca, porque é ela quem nos conduz. E também porque queria que sentíssemos o peso do sistema sobre os seus ombros.
E os planos-sequência? É uma gramática cinematográfica que lhe agrada?
Laura Wandel: Parecia-me que era a melhor forma de fazer com que o espectador sentisse isso no próprio corpo: uma espécie de exaustão. E também todo o trabalho sonoro, que é extremamente cansativo no filme. Queria que essa sensação fosse física para quem vê o filme.
E o próximo projeto? Será também num outro espaço fechado?
Laura Wandel: Justamente, acho que tenho vontade de sair um pouco desse tipo de espaço para mudar um pouco.
Já começou a preparar alguma coisa?
Laura Wandel: Ainda não. Começo a ter uma pequena ideia, mas ainda é demasiado cedo para falar.
Foto: © Maxence Dedry



