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Obsessão

Dirigido pelo estreante Curry Barker, «Obsessão» tornou-se um dos maiores fenómenos da década. Mas o lucro das bilheterias é proporcional à qualidade do projeto? A frescura que o filme carrega é notável. Barker poderia ambientar a narrativa no passado; todavia, como um jovem adulto, ele entende que o tema abordado, por mais “intemporal” que seja, deve ser debatido e enfrentado no presente.

Bear não é uma má pessoa. Os seus objetivos e idealizações são comuns à natureza jovial. O seu problema é a incapacidade de perceber o buraco no qual está enfiado. Não me refiro à depressão ou a algo do tipo, mas a uma fobia social tão intoxicante que o impede de se expressar. Diante de Nikki, o seu interesse amoroso, Bear hesita como alguém que está prestes a enfrentar um urso na selva. O silêncio gera desconforto, alimentando um tormento que distorce a sua mente. Tudo parece ser mais desafiante do que realmente é. Os seus diálogos, em grande parte, são consigo mesmo, com a parte “esperta” e “corajosa” do seu cérebro. As olheiras e o rosto pálido formam a imagem de um fantasma, de um jovem que se diminui perante as escolhas que gostaria de fazer. Essa sensação de medo e inexistência é desenhada por um excepcional trabalho de fotografia, que dá preferência a tons frios, marcando a escuridão na vida do protagonista. A questão é a seguinte: o homem inseguro pode vir a ser um perigo para a sociedade. Aquele que não consegue o que deseja burla a ordem moral, que, em «Obsessão», é representada por uma espécie de magia negra. Sem abrir a boca para se declarar, Bear, ingenuamente, ao partir um amuleto, transforma Nikki na sua escrava do amor.

A jovem do início, cheia de vitalidade, atitude e ambições, ganha contornos cada vez mais sinistros. Esse é o segundo grande ponto da narrativa: a introdução do terror é gradual, começando com subtilezas na encenação. Numa conversa entre Bear e Ian, vemos Nikki ao fundo, em uma baixa profundidade de campo — quase um borrão que está ali para deixar uma pulga atrás da orelha do espectador. Essa estratégia visual se repete, mas Barker prova que o seu repertório não se vale de um único truque. A opção por uma razão de aspecto reduzida confere um clima intimista e claustrofóbico à narrativa. A atmosfera sombria e melancólica passa a servir o terror. Invariavelmente, Nikki é posicionada no canto mais escuro do quadro. O mesmo vale para as sombras que marcam o seu rosto. A decisão mais marcante de Barker talvez seja o alongamento dos planos. Dessa forma, ele sustenta o clima de estranheza por mais tempo, tirando o espectador da zona de conforto e atingindo um incrível nível de perturbação. A mudança gradual na abordagem é acompanhada pela trama. No fim, quando já estamos totalmente envolvidos, sangue e surtos saltam da tela sem que causem espanto. Não poderia deixar de elogiar a pontual e adequada trilha sonora, que nunca tenta roubar a atenção para si.

Inde Navarrette tinha a difícil missão de emular a personagem de Isabelle Adjani, em «Possession». Brincadeiras à parte, sinto que estamos diante de uma possível nova estrela hollywoodiana. O seu carisma inicial se confunde com a obsessão e a psicopatia que tomam conta da “nova” Nikki. Navarrette demonstra uma tremenda facilidade para transitar entre personalidades, indo da tranquilidade ao caos em poucos segundos. O seu sorriso é puro desconforto — dá para sentir que alguém tomou conta do seu corpo apenas pela sua expressividade facial. Michael Johnston, por sua vez, oferece uma performance contida, com toques precisos de inexpressividade. Bear passa por uma série de emoções, mas nunca deixa de exibir a habitual inércia. Ele é um ser digno de pena; um ser cuja próxima escolha sempre será a pior.

«Obsessão» está aí para ser assistido e analisado. Os novos cineastas podem dar luz a importantes questões, provocando arrepios e reflexões na mesma proporção.

Título original: Obsession
Realização: Curry Barker
Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson, Megan Lawless
Duração: 109 min.
EUA
2026

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