“Para onde é que os fantasmas vão quando já não precisamos deles?” é a frase que ecoa quando ao final de «Mother Mary» chegamos, um filme que nunca desce à dimensão terrestre, escolhendo professar os seus desejos e intenções através da afectação de palavras sussurradas, escondidas por trás de um encadeamento de imagens metafóricas. Mas não é pretensão que faz David Lowery arrastar o seu filme de forma tão lânguida, como se o próprio filme fosse uma entidade que sabe mais sobre si mesma que até o seu criador. Para quem conhece o corpo de trabalho do realizador norte-americano, não será uma surpresa este seu vergar ao misticismo, a um reino feito de signos. Já «Ain’t Them Bodies Saints» e «A Ghost Story», filmes anteriores de Lowery, o habitavam. É a forma que Lowery tem de se aproximar ao contar de uma história que não tem como não unir duas pessoas uma à outra ao longo do tempo, em vida e até em morte.
Em «Mother Mary», assistimos ao reencontro entre uma estrela de música pop e a sua estilista, de quem se afastou apenas fisicamente. A um nível espiritual, as duas permanecem interligadas por uma presença que as visita e que se assemelha ao fantasma de «A Ghost Story». Mas em vez do lençol branco, esta presença vê-se representada por um tecido vermelho sangue que se contorce e desliza pelo ar. Será por causa dele que se dá a chegada desesperada de Mother Mary (Anne Hathaway) a Londres, ao estúdio de Sam (Michaela Coen), como se se tratasse da conjuração de uma séance. Mary precisa urgentemente de ajuda. E de um vestido. Pelo mundo fora, só Sam poderá lá estar para ela.
Daí em diante, «Mother Mary» é um filme inteiramente filmado dentro de um só cenário, a casa-estúdio de Sam, onde se pisará por cima do passado, para o tentar entender. Nessa peça de câmara, na companhia de duas actrizes tão fortes, ambas na melhor fase das suas carreiras, o filme move-se entre o grotesco incongruente e a mais deliciosa sedução. Mesmo com o filme a não conseguir conter as suas actrizes dentro das suas costuras de cinema independente, logicamente inspirado no filme encarnado de Peter Strickland, «In Fabric», «Mother Mary» é seu par enquanto exercício gélido interessado em captar os rostos da arte. Seria assombroso se estivesse igualmente interessado em informar as nuances da relação entre o artista, a fama, e todos aqueles que a exponenciam ou não, como começa por anunciar.
Na sugestão de interioridade e distância, controlo e o seu abandono, Lowery enche o filme com iconografia cristã, elevando uma diva pop à sua divindade, uma vida farpada por se permanecer “aberta”, venerada por tantos durante tanto tempo. A intensidade das imagens de Lowery não consegue, no entanto, superar a soltura das suas peças quando juntas. O objectivo era a “transubstanciação dos sentimentos”, como nos diz Sam. Mas nem um exorcismo faz com que o vestido seja mais do que um vestido.
TÍTULO NACIONAL: Mother Mary
TÍTULO ORIGINAL: Mother Mary
REALIZAÇÃO: David Lowery
ELENCO: Anne Hathaway, Michaela Coen, Hunter Schafer
ORIGEM: Reino Unido, Finlândia, Alemanha, Estados Unidos
DURAÇÃO: 112 min.
ANO: 2026



