Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

A Odisseia

Milhares de anos separam uma das mais importantes obras da literatura clássica atribuída ao poeta Homero (provavelmente nascido no oitavo século a. C.) desta mais recente incursão cinematográfica realizada por Christopher Nolan, «The Odyssey» («A Odisseia»), 2026.

Na origem estamos perante um poema épico, epopeia dividida em vinte e quatro livros correspondentes a capítulos que sofreram ao longo dos anos múltiplas e diversificadas adaptações no domínio das artes e das letras. Juntamente com a “Ilíada”, atribuída ao mesmo autor, a narrativa mitológica de “A Odisseia” constitui um dos pilares da cultura helénica e uma obra essencial para a construção de um sentido de individualidade nacional e civilizacional a que as identidades grega, europeia e mediterrânica ficaram para sempre associadas.

Na “Ilíada”, a matéria primordial concentra a atenção nos acontecimentos, contradições e convulsões geradas antes e durante a chamada Guerra de Tróia, nomeadamente entre o herói Agamémnon, comandante dos exércitos do povo aqueu (primeiros gregos a ocuparem parcelas importantes do que viria a ser denominado pelos romanos de Mare Nostrum, o Mar Mediterrâneo) e o lendário guerreiro Aquiles.

Já “A Odisseia” refere nas suas linhas mestras o regresso a Ítaca do Rei Odisseu (ou Ulisses), pátria insular e família que ele abandonara para acompanhar Agamémnon nas suas incursões bélicas pela Ásia Menor. Para os devidos efeitos, centenas de navios atravessaram o Mar Egeu, e nas praias próximas da cidade muralhada de Tróia (dita inexpugnável) iniciaram um cerco que duraria dez anos e provocaria a morte a muitos combatentes de ambos os lados. Desesperados com a resistência dos troianos, os antigos gregos não vislumbravam a maneira de ultrapassar os principais obstáculos que diariamente enfrentavam, impedindo-os de invadir a cidade-fortaleza. Foi então que Ulisses teve a ideia de construir um cavalo de madeira, que no filme iremos ver falsamente abandonado na costa e ao sabor das marés, cujos fluxos e refluxos o iam enterrando na areia. No fundo, este estratagema urdido para iludir os sitiados foi interpretado por estes como uma vitória e uma oferenda da deusa Atena. Na prática, o sinal material e simbólico de que o longo e mortífero assédio fora levantado. Como se sabe, nada disso correspondia ao que estava por detrás desta construção paramilitar (enfim, provavelmente a existir seria uma Torre de Assalto ou algo similar). Todavia, no contexto das lendas e narrativas fica muito mais interessante do ponto de vista da aventura pela aventura pensar que lá dentro, para além do nosso herói, Ulisses (interpretado por Matt Damon), ia um apinhado e aplicado grupo de “comandos” que depois de muitas voltas e reviravoltas lá sobreviveu ao sacrifício de grande astúcia para iludir as forças militares de Tróia, conseguindo pela calada da noite sair do interior do cavalo, dizimar alguns guardas e demais soldados e abrir as portas da cidade ao exército aqueu. E foi assim que no plano mítico-ficcional se obteve o ponto final na Guerra de Tróia, ocasião sublime para, no campo cinematográfico, os produtores deste «The Odyssey» justificarem os milhões investidos ao caucionarem a majestosa sequência da conquista e destruição da cidade, forma de ampliar os valores de produção que muito bem souberam defender numa espécie de Make The Fall of Troy Great Again.

Tudo o que se irá seguir na estrutura do argumento, concluída esta etapa guerreira e herdeira da “Ilíada”, pertence já ao robusto domínio da lírica primitiva que encontramos na “Odisseia” de Homero: a saber, o atribulado regresso de Ulisses a Ítaca, lugar que entretanto fora contaminado pela anarquia reinante entre os pretendentes a ocupar o lugar de Ulisses (que julgavam morto) junto da Rainha Penélope (Anne Hathaway). No meio desta convulsão de oportunistas que se empanturravam em prolongados banquetes, no seio da devassa e de manobras canalhas para receberem os favores da mulher, e não da viúva de Ulisses (porque Penélope nunca acreditou na morte do marido), encontrava-se o filho de ambos, Telémaco (Tom Holland), sem real poder nem margem de manobra para alcançar a liderança que outros compatriotas desejavam nas suas pouco recomendáveis poses e estratégias de arrogância que mantinham a qualquer preço, nem que para isso fosse necessário usar da mais extrema violência. Entre estes, gente sinuosa e esquiva do calibre da personagem interpretada por Robert Pattinson.

Dito isto, será importante referir que na escrita do argumento Christopher Nolan não se furtou ao óbvio relato dos capítulos mais significativos de “A Odisseia” nem evitou uma série de episódios exemplares da longa viagem de Ulisses, geralmente abordados com o pensamento nas regras do jogo dos filmes de acção. De facto, a isso se presta o regresso do herói, que não foi um simples passeio marítimo para alcançar o repouso do guerreiro. Pelo caminho, o general de mil expedientes e os homens que o seguiram na guerra, que sobreviveram aos combates, mas posteriormente foram morrendo nas provações que iriam enfrentar, não viajaram sozinhos. Os deuses e a sua vontade intrínseca estarão sempre presentes, e são eles que abrem a via para o misterioso Fado dos marinheiros-soldados ou para o seu inevitável Destino.

Na verdade, existe no poema (e de certo modo no filme) uma corrente interna que influencia o pulsar e devir narrativo que se pode definir como a luta do ser mortal perante a imortalidade divina que empurra os homens para o cumprimento de um papel de força e coragem cujos feitos pudessem libertá-los da lei da morte, o mundo das sombras eternas. Deste modo, para Ulisses alcançar a sua meta, repor o antigo sistema de governação de Ítaca, reencontrar a sua rainha e inflamar de novo o coração da sua amada, sem esquecer o cumprimento rigoroso das leis de Zeus, ele precisava de usar a sua face mais límpida, descoberta e serena (uma vez vencida a sua condição de exilado ou o disfarce de mendigo errante no seu próprio reino). Mas antes precisava de se submeter a provas maiores, perigos imensos e extremos, não obstante intervalados por momentos de sensual paz e serenidade como aqueles que viveu com a bela deusa do mar, Calypso (Charlize Theron).

Naturalmente, para dar corpo e alma aos 65mm do negativo (70mm de projecção) inerentes ao sistema IMAX, não serão os episódios mais líricos os que ficam na memória dos espectadores, sobretudo os mais interessados no puro e duro espectáculo, mas sim os mais imponentes, como o confronto com o gigantesco e grotesco Ciclope Polifemo (um irreconhecível Bill Irwin), as armadilhas urdidas pela feiticeira Circe (Samantha Morton), mestre da manipulação de drogas e venenos, os redemoinhos de água que metem medo ao susto ou os combates contra exércitos de poderosos e monstruosos gigantes. E a má-consciência pesa no difícil confronto com os antigos companheiros regressados do Mundo dos Mortos (entre eles, o próprio Agamémnon).

Noutro capítulo, Ulisses resiste ao canto sedutor das sereias, aos perigos das sucessivas viagens marítimas, algumas das quais agitadas pelas águas revoltas com os navios a remos batidos pelas ondas sem puderem içar as velas e com marinheiros a vomitarem (pobres actores e figurantes, que segundo relatos da rodagem passaram mesmo mal), ocasião para esta espécie de argonautas vociferarem palavras de pranto e dor na esperança, por vezes vã, de apaziguar a fúria de Poseidon, sempre no limiar da vida e da morte.

No fundo, como disse, os homens precisavam de ser submetidos ao domínio de forças que aparentemente não controlavam para, no acto de as superar, se poderem candidatar a esse quase estatuto de semideuses que, no caso de Ulisses, será de alguma maneira consubstanciado na sua derradeira prova de identidade existencial perante os inimigos, e sobretudo perante Penélope. Tratava-se de uma derradeira prova de inequívoca destreza, realizada já em Ítaca e no interior do seu antigo palácio, que irá realizar com sucesso ao manipular (como só um herói acima de qualquer suspeita poderia fazer) o arco que só ele conseguia dobrar e armar, no fundo o alfa e o beta do seu regresso a Ítaca, vitória sobre os adversários alcançada pela vertigem e velocidade da seta que dispara com precisão milimétrica através do espaço mínimo e não obstruído de um alinhamento de machados.

Escusado será dizer que, alcançada essa relativa imortalidade por esse gesto de magnífica agilidade, a carnificina que se segue e de que ele será o protagonista não passa de uma justa e longamente esperada vingança, que irá repor a verdade e a continuidade da sua dinastia. Triunfo merecido e que naturalmente se consolida no plano da consagração pessoal, não obstante o muito ambíguo e “panfletário” final rumo a novos horizontes. Diga-se, uma estranha e vulnerável conclusão, não do ponto de vista da fidelidade ao que Homero escrevera, mas do ponto de vista do estilo da encenação que faz lembrar a retórica e a imagética proto-propagandística.          

Resta a pergunta de um milhão de dólares, face a este filme de duzentos e cinquenta milhões: valeu a pena regressar ao poema épico e aos meandros mitológicos da antiguidade clássica? Esta nova e ampliada versão intitulada no original, simplesmente e bem, «The Odyssey», cumpre as expectactivas que foram sendo alimentadas pelo marketing? Diria que sim, nas suas linhas gerais, não obstante encontrar nela um ponto frágil (mas não comprometedor da qualidade global), ou seja, o martelar da omnipresente banda sonora musical que, na minha opinião, ao fim da primeira hora já pesa nos ouvidos, mesmo dos que aguentam os decibéis de um concerto heavy metal. E a duração do filme ronda as duas horas e cinquenta e dois minutos. Com maior “pacificação” musical dar-lhe-ia mais uma estrela no quadro das ditas.

E uma outra pergunta se levanta: será esta a obra maior de um cineasta que já me deu imensas alegrias no passado, nomeadamente na articulação dos parâmetros áudio e visuais, por exemplo, no «Oppenheimer», de 2023? A resposta é “não”. Mas não se pode descartar, mesmo quando resvala para o excesso, uma obra concebida com fôlego, intensidade e energia, onde ao grande se prefere manifestamente o gigante. E o realizador nunca escondeu esse desígnio do seu caderno de encargos. Seja como for, a opção pelo uso integral das proporções IMAX, a rodagem e os acabamentos em película constituem uma aposta ganha, e nesse particular estamos perante um daqueles filmes que merece ser visto no maior ecrã que encontrarem perto de vossas casas.

Notável o modo como a Direcção de Fotografia do “hercúleo” Hoyte van Hoytema (obviamente coadjuvado pela excelência da sua equipa) usa, por diversas vezes e em momentos de alguma intimidade, a profundidade de campo para desenhar no interior do plano a conjugação não só entre os primeiros planos e planos recuados, mas igualmente a exposição do que, mais uma vez num ecrã de muitos metros de largura e altura, será um convite ao público para seguir a articulação entre complexas e sistemáticas dinâmicas de representação dos actores. Numa palavra, os planos assim concebidos passam a ser momentos (de forma ilusória mas eficaz) que nos permitem interpretar o que se está a passar diante dos nossos olhos fazendo de nós cúmplices da acção pelo facto de podermos “dialogar” em surdina com as diferentes vertentes e ângulos do processo ficcional, janela aberta para os olhares e as palavras que melhor definem o perfil das diferentes personagens.

O IMAX não serve apenas para ampliar a imagem. Pode ser, isso sim, uma parte decisiva do processo criativo. Escusado será dizer que são precisos orçamentos generosos para o utilizar com a amplitude usada no «A Odisseia». E, para o melhor e o pior, esses investimentos só se capitalizam no mercado com a inclusão no elenco de actores de carreira e nome firmados. Por isso, mesmo com alguns severos reparos, compreendo a necessidade de incluir nomes reconhecidos, não apenas como protagonistas mas também como secundários. Entre outros, o caso da discreta Zendaya no papel da deusa Atena, ou a mais ou menos irrelevante Lupita Nyong’o no duplo papel de Helena de Tróia e da sua irmã Clytemnestra. E a este propósito permitam-me uma pequena e derradeira reflexão: um dia, quem sabe, a actividade cinematográfica atinja a maturidade e independência económica, mesmo no contexto da grande indústria, e ganhe coragem para investir no retrato de personalidades históricas ou de natureza mítica convocando actores pouco conhecidos, mas com provas dadas (ou até amadores cheios de fibra), para representarem figuras extraordinárias, como fez Pier Paolo Pasolini com Jesus Cristo no seu «Il Vangelo Secondo Matteo» («O Evangelho Segundo São Mateus»), 1964. Quem viu este filme sabe do que estou a falar. Mas, por agora, sigamos em frente até ao IMAX ou a um ecrã compatível com esta obra sonhada e concretizada por Christopher Nolan, sem dúvida, um dos filmes que merece ser destacado de entre as estreias mais significativas de 2026 e, já agora, ser alvo de um debate crítico e sério sobre o seu verdadeiro lugar na estrutura económica e na escala ideológica da actual indústria cinematográfica dos EUA e do Reino Unido.

Título original: The Odyssey
Realização: Christopher Nolan
Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, John Leguizamo, Zendaya, Charlize Theron, Lupita Nyong’o, Samantha Morton, Elliot Page, Jon Bernthal, Himesh Patel, Mia Goth
Duração: 172 min.
2026, Reino Unido, EUA

João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

Também Poderá Gostar de