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Ciclo Luchino Visconti no Cinema Nimas

Celebram-se este ano os 120 anos do nascimento e assinalam-se os 50 anos da morte de um dos grandes génios da arte cinematográfica, Luchino Visconti (1906-1976), e regressamos à sua obra com uma retrospectiva integral dos seus filmes, em cópias restauradas (não se incluem os segmentos que fez para obras colectivas), a maior no nosso país desde as da Gulbenkian, organizada pela Cinemateca, em finais dos 70, depois da sua morte, e a do Porto em 2001.

Visconti, que nasceu no seio de uma família da aristocracia de Milão e cresceu entre os palcos do teatro e da ópera, que desde muito novo privou com os grandes cantores líricos e escritores, numa das suas muitas viagens a Paris, onde conheceu e travou amizade com Bernstein e Coco Chanel, e os escritores André Gide e Jean Cocteau, começou também a frequentar o mundo do cinema e seria assistente de Jean Renoir em Une Partie de campagne (1936). No início dos anos 40 passa a viver em Roma (a mãe, com a qual tinha uma ligação muito forte morrera em 39 e o seu pai logo a seguir, em 41), e aproxima-se dos jovens intelectuais da revista Cinema, na qual colaborará com alguns textos fundamentais, e que era um foco de oposição ao regime fascista.

Por essa altura começa a trabalhar, com a colaboração de vários amigos, entre eles Antonio Pietrangeli ou o escritor Alberto Moravia, num argumento vagamente inspirado no romance de James Cain O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, que Renoir lhe dera a conhecer, e que dará origem ao seu primeiro filme, Ossessione (1943), que se estrearia com vários cortes da censura e foi vilipendiado pelo filho de Benito Mussolini. Ossessione, até esta data inédito comercialmente em Portugal, seria também considerado o primeiro filme neo-realista italiano.

Nesses anos da Segunda Grande Guerra e da resistência, Visconti aproxima-se do Partido Comunista Italiano. Dedicou-se apaixonadamente ao teatro, e encenou, entre outras, obras de Cocteau, Hemingway, Sartre, Dostoievski e Tennessee Williams. Voltaria regularmente às suas encenações.  No fim da década, e a partir de uma encomenda que depois tomaria outro rumo, realiza o seminal La terra trema (1948), centrado na luta dos camponeses sicilianos pela terra e que se estrearia no festival de Veneza, onde seria premiado.

Já na década de 50, com argumento de Zavattini, faz Belissima (1952), no qual trabalha finalmente com Anna Magnani. Segue-se, em 1954, Senso – Sentimento, uma das suas obras-primas, onde como que reescreve o romance de Camillo Boito:  “As ruas de Veneza (quem nunca viu Senso nunca viu Veneza), os celeiros de Lonedo (quem nunca viu Senso nunca viu o Palladio), as praças de Verona (quem nunca viu Senso nunca viu Sanmicheli) foram, em 1954, os palcos excessivos, exacerbados e exorbitados para a mais fantomática presença da mais fantomática das vozes.” [João Bénard da Costa]. Em 57 realiza As Noites Brancas, a partir de Dostoievski, Leão de Prata em Veneza, onde trabalha com Marcello Mastroianni.

A década de 60 inicia-se com Rocco e os seus Irmãos, com Claudia Cardinale e Alain Delon, com os quais trabalharia de novo, obra romanesca e familiar (é a história de uma mãe e dos seus cinco filhos, diz Visconti), e que, apesar de alguns cortes da censura, foi o seu primeiro grande sucesso de crítica e de público, depois do Prémio Especial do Júri, em Veneza. Surge depois, em 1963, O Leopardo, a partir do romance homónimo de Giuseppe Tomasi de Lampedusa, Palma de Ouro em Cannes, filme que, apesar de alguma divisão inicial na sua recepção, seria a obra da sua consagração definitiva. Para além de Delon e de Cardinale, tem, no papel do Príncipe de Salina, Burt Lancaster. Na sua estreia, Alberto Moravia escrevia: “Só Visconti, comunista e aristocrático, podia com tamanha delicadeza dosear os níveis de cepticismo e patética nostalgia do príncipe face às questões sociais e políticas da época, bem como as sombras quase proustianas da sua personalidade familiar e mundana“.  Em 1975, a confirmar a consagração, vence o Leão de Ouro em Veneza com Vaghe Stella Dell’Orsa / Sandra, também com a Cardinale. Em 1967 adapta, com algumas atribulações que quase o levaram a desistir, O Estrangeiro de Camus, estreado no festival de Veneza. Será interessante reavaliá-lo agora, no ano em que se estreou também entre nós uma versão de François Ozon. Em 69 realiza Os Malditos, inspirado no Macbeth de Shakespeare, novo drama familiar sobre uma época que se desmorona (evoca o desabar da democracia alemã e o nazismo).

Morte em Veneza é o seu primeiro filme dos anos 70, e adapta o romance de Thomas Mann, um conto melancólico sobre o fim que se anuncia, prenúncio de morte no Lido de um velho músico (é genial Dirk Bogarde), um filme embalado pela música de Mahler. Segue-se Ludwig –  Luís da Baviera, que veremos na versão integral, com Helmut Berger, o último rei da Baviera como a encarnação de um sonhador, que recusava a escravidão da mediocridade, um imenso e poético visionário. Visconti terminou a montagem em casa, depois de uma hospitalização prolongada devida a uma trombose. Na altura queria fazer a Recherche de Proust, projecto que nunca chegaria a concretizar, e dar-nos-ia ainda dois filmes absolutamente extraordinários: Violência e Paixão (1974), de novo com Burt Lancaster, Helmut Berger e Silvana Mangano, obra-prima súmula das suas obsessões e fantasmas e talvez o seu filme mais pessoal, e, por fim, outra obra-prima, O Intruso, história de infidelidade e traição no seio da aristocracia italiana do séc XIX , a partir do romance de D’Annunzio, que conhecia desde a infância. Visconti morreria em Março de 1976, antes da sua estreia em Maio no festival de Cannes, que este ano o celebrou com a projecção de um novo restauro do filme.

Muitos dos filmes de Visconti foram alvo de cortes da censura, e muitos deles também não tiveram estreia comercial em Portugal. Vamos vê-los a partir de 17 de Julho no Nimas, na íntegra, e em todo o seu esplendor, como merecem, em cópias restauradas.

E ainda, em ciclos mais curtos em outras salas do país, nomeadamente o Teatro Campo Alegre, no Porto, o Theatro Circo de Braga, o cinema Charlot em Setúbal, o CAE da Figueira da Foz e o TAGV em Coimbra.

OBSESSÃO

Ossessione

com Clara Calamai, Dhia Cristiani, Massimo Girotti

Itália, 1943 – 2h20 | M/12 (inédito comercialmente em Portugal)

23 Jul, 17h30 | 30 Jul, 14h30 | 17 Ago, 21h30

A TERRA TREME

La terra trema

com os pescadores de Aci Trezza

Itália, 1948 – 2h40 | M/12

Festival de Veneza 1948 – Prémio Internacional

20 Jul, 14h30 | 12 Ago, 13h

SENTIMENTO

Senso

com Alida Valli, Farley Granger, Massimo Girotti, Rina Morelli

Itália, 1954 – 2h03 | M/12  

Festival de Veneza 1954 – Selecção Oficial em Competição

29 Jul, 15h30 | 21 Ago, 15h30 | 1 Set, 14h

BELÍSSIMA

Belissima

com Anna Magnani, Walter Chiari

Itália, 1951 – 1h48 | M/12

26 Jul, 18h | 15 Ago, 17h | 27 Ago, 15h30

NOITES BRANCAS

Le notti bianche

com Maria Schell, Marcello Mastroianni, Jean Marais

Itália, França, 1957 – 1h37 | M/12

Festival de Veneza 1960 – Leão de Prata

27 Jul, 20h | 19 Ago, 22h | 4 Set, 13h30

ROCCO E OS SEUS IRMÃOS

Rocco e i suoi fratelli

de Luchino Visconti

com Renato Salvatori, Claudia Cardinale, Alain Delon

Itália, 1960 – 2h59 | M/16

Festival de Veneza 1960 – Prémio Especial do Júri

17 Jul, 21h | 1 Ago, 10h30 | 22 Ago, 18h

O LEOPARDO

Il gattopardo

com Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon

Itália, França, 1963 – 3h05 | M/12 | 4K  VERSÃO INTEGRAL

Festival de Cannes 1963 – Palma de Ouro

19 Jul, 21h | 9 Ago, 16h30 | 6 Set, 11h

SANDRA

Vaghe stelle dell’Orsa…

com Claudia Cardinale, Jean Sorel, Renzo Ricci

Itália, França, 1965 – 1h45 | M/12 | 4K (inédito comercialmente em Portugal)

Festival de Veneza 1965 – Leão de Ouro

23 Jul, 22h | 17 Ago, 17h30 | 25 Ago, 17h30

O ESTRANGEIRO

Lo straniero

com Marcello Mastroianni, Anna Karina, Bernard Blier

Itália, França, Argélia, 1967 – 1h44 | M/12 

Festival de Veneza 1967 – Selecção Oficial em Competição

22 Jul, 17h30 | 17 Ago, 13h30 | 20 Ago, 20h

OS MALDITOS

La caduta degli dei (Götterdärmerung)

com Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Helmut Berger, Charlotte Rampling

Itália, RFA, Suíça, 1969 – 2h37 | M/12

28 Jul, 21h30 | 18 Ago, 21h30 | 30 Ago, 21h 

MORTE EM VENEZA

Morte a Venezia

com Dirk Bogarde, Silvana Mangano, Björn Andresen

Itália, 1971 – 2h10 | M/18 | 4K

Festival de Cannes 1971 – Prémio 25º Aniversário

Prémios David di Donatello 1972 – Melhor Realizador

18 Jul, 15h | 8 Ago, 21h30 | 28 Ago, 16h45

LUÍS DA BAVIERA

Ludwig

com Helmut Berger, Silvana Mangano, Romy Schneider

França, Itália, Alemanha, 1973 – 3h59 | M/12 | VERSÃO INTEGRAL

29 Jul, 20h

VIOLÊNCIA E PAIXÃO

Gruppo di famiglia in un interno

com Burt Lancaster, Silvana Mangano, Helmut Berger

Itália, França, 1974 – 2h01 | M/12 | 4K 

Prémios David di Donatello 1975 – Melhor Filme

24 Jul, 17h | 13 Ago, 22h | 24 Ago, 13h30

O INTRUSO

L’innocente

com Giancarlo Giannini, Laura Antonelli, Jennifer O’Neill

Itália, França, 1976 – 1h52 | M/16 

Festival de Cannes 1976 – Selecção Oficial

21 Jul, 13h | 16 Ago, 15h | 26 Ago, 22h

Cópias digitais restauradas

Mais informações em https://medeiafilmes.com/ciclos/retrospectiva-luchino-visconti

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