Baseado no livro autobiográfico da escritora belga Amélie Nothomb, “Metafísica dos Tubos”, sobre os seus anos de infância passados no Japão, onde o pai foi embaixador, e da forma como foi apreendendo o mundo na companhia da sua ama japonesa, já está nos cinemas um dos filmes nomeados para o Óscar de melhor longa-metragem de animação, “A Pequena Amélie”. Estivemos a conversar com os realizadores, Maïlys Vallade e Liane-Cho Han.
Como é que se conheceram e começaram a trabalhar juntos?
Maïlys Vallade – Estudámos na escola de animação Gobelins, mas não nas mesmas turmas. E começámos a nossa carreira como storyboarders juntos em “O Principezinho”. Foi aí que nos conhecemos realmente. Porque na escola quase nem nos cruzámos. Mas percebemos a nossa afinidade, uma sensibilidade bastante poética e ao mesmo tempo bastante realista em relação às questões narrativas e humanas.
Como é que descobriram o romance de Amelie Nothomb?
Lian-Chao Han – Foi há muito tempo, tinha 19 anos. Eu não era nada ligado à literatura, estava mais virado para a cultura popular, como a animação japonesa ou os videojogos. Mas fiquei profundamente comovido com a história desta menina e a relação que tem com a ama. Dava por mim em lágrimas, coisa que nunca me tinha acontecido ao ler um livro. Pensei logo que o livro devia ser adaptado a filme de animação.

Como é que a ideia de fazer um filme sobreviveu estes anos todos?
L-CH – Quando comecei a trabalhar com a Maïlys, dei-lhe o livro. Ela tinha uma filha ainda pequena, eu tinha acabado de ter o meu filho. E era um bebé extremamente difícil. Percebi que não era só a Amélie, todas as crianças se acham deuses. Mas todos passamos por essa transição, em que a criança se acha o centro do universo, até perceber, pouco a pouco, que não, que têm de estar em ligação com os outros.
O que pensou quando o Lian-Chao lhe deu o livro?
MV – Era um grande bestseller, toda a gente o lera, mas eu tinha passado ao lado. Descobri-o nessa altura. O que me prendeu foi o lado simbólico e filosófico. É uma criança de dois anos e meio, mas extremamente madura, não é exatamente como as outras. E o seu olhar muito particular sobre o mundo mostra-nos coisas que talvez não víssemos normalmente. Há também as bases da identidade num ambiente tão belo como o Japão. E o facto de começar a perceber também a complexidade do mundo.
Como abordaram a adaptação?
MV – O que procurámos foi fazer um filme que falasse tanto aos adultos como às crianças. É um livro muito pequeno, mas cheio de temas, com vários arcos narrativos. Tivemos de encontrar o nosso caminho, centrado na relação entre Amélie e a ama, mas também na morte, no luto, na aceitação. E dar ferramentas, tanto às crianças como aos adultos, perceber que podemos perder o controlo, que as coisas nos vão escapar, que vamos viver traumas… Mas que podemos recuperar e reaprender a abrir-nos ao mundo.
Esta é a vossa primeira longa-metragem. Quais foram as maiores dificuldades que sentiram?
MV – A maior dificuldade foi a escrita, demorou anos, com várias versões. Mas tivemos sorte porque a Amelie Nothomb diz que os livros são os seus filhos, e as adaptações são os seus netos, e que não quer interferir na educação dos netos. E isso, para um primeiro filme, é extraordinário. Tivemos carta branca para adaptar um relato autobiográfico da infância dela. Pudemos condensar, propor uma verdadeira visão cinematográfica, livre.

O que é que ela pensou do filme?
MV – Ela reconheceu-se totalmente na obra. Tivemos medo, claro, mas ela adorou. Já viu o filme várias vezes. Mas foi difícil convencer produtores e distribuidores de que era possível falar da morte às crianças. E esse é mesmo o centro do filme: falar-lhes de coisas profundas, dar-lhes ferramentas positivas para lidar com os traumas.
Em Portugal, a cena da morte de Bambi foi cortada pela censura, quando o filme estreou.
L-CH – Na China não sabemos se vamos poder mostrar o filme completo, por mostrar o sofrimento dos soldados japoneses durante a guerra com a China. Mas a história podia passar-se em qualquer outro lugar do mundo. Eu nasci em França, mas os meus pais são chineses, embora a minha mãe tenha nascido na Malásia e o meu pai no Camboja.
Porque é que escolheram trabalhar segundo os princípios da animação tradicional?
MV – Porque é o nosso meio de expressão desde sempre. Adoramos profundamente o desenho, o traço, a vibração, o acaso. Somos, assumidamente, contra a Inteligência Artificial. Para nós, o trabalho humano tem um valor profundo. Queremos algo sensorial, próximo do real, mas impressionista. Quando desenhamos e animamos, somos ao mesmo tempo atores e desenhadores. Vivemos a cena. Isso é poderoso, é mágico, e essa magia não deve desaparecer. É esse o sentido do que nós fazemos.
L-CH – E, mais do que impressionar, queremos emocionar. A Inteligência Artificial, por enquanto, não consegue reproduzir verdadeiramente a emoção humana.



