Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

Na Cabeça de Sherlock Holmes

«Na Cabeça de Sherlock Holmes» é uma edição soberba de A Seita & A Arte de Autor, e um dos grandes livros de 2024. A obra foi lançada mesmo no final do ano e a METROPOLIS não teve coragem de apressar a review. Percebemos rapidamente que é uma edição especial, com uma dimensão raramente vista no universo da banda desenhada. E também sabemos que as grandes obras transcendem as fronteiras do tempo. Estamos perante uma edição criada com imensa paixão pelos editores nacionais. A novela gráfica é um achado, desde a capa recortada, a arte, até aos desígnios da narrativa. É uma obra que nos deixa incrédulos perante o amor pela banda-desenha, não só dos seus autores, como o cuidado dos editores nacionais em disponibilizar aos leitores uma edição de colecionador.

O autor, Cyril Liéron, tem uma extensa carreira na banda-desenhada como colorista, com uma dúzia de séries nas grandes editoras francesas. É filho de Philippe Luguy, um grande desenhador de BD, criador, entre outras, da série Percevan, que Cyril coloriu inúmeras vezes. “Na Cabeça de Sherlock Holmes” é a sua primeira obra como argumentista, livro com que conquistou uma série de prémios. O artista Benoit Dahan iniciou a sua carreira como ilustrador na imprensa escrita, e a ilustrar livros infantis. Com o escritor Erwan Courbier assinou a sua primeira BD, “Psycho-Invéstigateur”. Cyril Liéron é amigo de liceu de Erwan Courbier, e ambos começaram a desenvolver este projeto em 2018, sendo fãs de longa data de Holmes e da era vitoriana.

Este é um dos casos mais cativantes envolvendo o detetive, mas não deixa de ser muito inquietante. Ele é confrontado com uma obscura maquinação, mas não há qualquer tipo de dificuldade de seguirmos a linha de raciocínio Sherlock Holmes. Os criadores desta obra transpuseram para a novela gráfica a máquina de observação e raciocínio mais perfeita que já existiu no planeta. Seria criminoso da nossa parte revelar grandes factos deste mistério, com o risco de sermos incriminados pelos nossos fiéis leitores, por isso, prometemos revelar o mínimo dos mínimos desta fascinante aventura.

A novela gráfica adquire dimensões que nos deixam perplexos com a capacidade criativa de Cyril Liéron. O autor criou a dimensão da história, se preferirem, do mistério, e leva-nos aos bastidores do intelecto de Sherlock, mais precisamente ao “sótão” que é a sua habilidosa mente. Este processo é replicado com imenso detalhe, humor e intelecto, ao mesmo tempo que o leitor acompanha literalmente o fio à meada deste mistério seguindo o novelo narrativo da novela gráfica. Além de um meticuloso processo de dedução (e a observação de como funciona o cérebro de Sherlock) há um fio vermelho de lã, este é o fio do pensamento do grande detetive que vai atravessando o livro entre as vinhetas – a maioria delas são puros objetos de arte – ligando os detalhes mais pertinentes do caso. Sherlock e o seu eterno companheiro, o Dr. Watson, estão perante uma mega conspiração que assola Londres, e que começa com um médico amigo de Watson a vaguear pelas ruas. A partir daí inicia-se a vertiginosa viagem na capital britânica para juntar todas as pistas para solucionar o caso e obter justiça.       

Encontramos, logo nas primeiras páginas, Sherlock a curtir a sua trip com o seu veneno de eleição – a cocaína – para tentar fugir ao tédio, esse sim, o verdadeiro veneno. Mas perante toda a loucura – é preciso pensar fora da caixa para ser um génio – Sherlock tem um enorme coração, ele afirma sem hesitações que cuidar de um amigo não é um dever, é um privilégio. O leitor mergulha na mente do detetive graças à arte de Benoit Dahan. Através dele, o nosso protagonista transcende quando raciocina ao tentar deslindar as diferentes pistas que vão surgindo ao longo desta aventura e isso está magnificamente representado nas páginas deste álbum imperdível. Vejam como é delicioso deparar-nos com páginas que ao colocarmos contra a luz nos revelam os mistérios da trama. Estes são pequeninos apontamentos dos criadores que nos envolvem (ainda mais) neste livro. Vejam mesmo! E soltem um “oh la la!”, afinal não é apenas Sherlock que parece conseguir ver através das paredes… No cérebro do grande detetive encontramos vários departamentos desenhados com rasgos de genialidade. Por exemplo, o lugar onde ficam os indícios e outro espaço dentro do seu cérebro para vastas bibliotecas dos mais variados temas como a botânica, a cartografia e os transportes. A cabeça do detetive é um supercomputador, ele não é um comum mortal. Acompanhamos o seu apurado instinto e o momento em que ele verbaliza as suas deduções diante de um público profano (desculpa, Watson). E Sherlock pratica um leque ilimitado de perversidades em nome da ciência e da dedução. Mas ele também assume responsabilidades encontrando soluções e o tratamento dos efeitos colaterais, normalmente a cobaia é o seu melhor amigo, Watson… É uma pesquisa minuciosa para descartar pistas patenteando a essência do ofício deste superlativo investigador. E não é só o inteleto, mas veja-se o pensamento prático colocado no terreno quando temos uma anatomia de uma perseguição de Sherlock a um malfeitor nos telhados de Londres.

Sherlock Holmes há muito que ultrapassou as páginas do seu criador Conan Doyle, mas isso não refreou o constante fascínio sobre o grande detetive. No século XXI tivemos no cinema os filmes de Guy Ritchie, que combinavam a dedução com a extravagância e o cinema de ação no seio de uma produção blockbuster. Depois tivemos a memorável «Sherlock» (2010) da BBC, uma série criada por Mark Gatiss e Steven Moffat e brilhantemente interpretada por Benedict Cumberbatch, como Sherlock Holmes, e Martin Freeman, como o Dr. John Watson, uma criação que apresentou todos os talentos de Cumberbatch às plateias internacionais. Estes dois exemplos são demonstrativos da amplitude e das possibilidades de adaptação de Sherlock para além dos romances literários. Ainda assim, sinceramente, acho que não estávamos à espera de ser apanhados na curva, diria, arrebatados com a genialidade de “Na Cabeça de Sherlock Holmes”, de Cyril Liéron e Benoit Dahan. Não é tanto a questão de suplantar as criações acima referidas, é mais um facto de ser mais uma grande entrada no cânone do icónico detetive através da perspicácia do argumentista Cyril Liéron e da originalidade ostentosa da arte de Benoit Dahan.

“Na Cabeça de Sherlock Holmes” é uma emocionante novela gráfica que queremos ler e reler. Uma raridade sem comparação, um verdadeiro must, uma obra riquíssima em pormenores absolutamente fascinantes. No mundo do cinema é certo que teria de caras pelo menos um Óscar para Melhor Cenografia. O livro é um verdadeiro triunfo e os leitores aplaudem estrepitosamente.

Artigo anterior
Próximo artigo

Também Poderá Gostar de